quinta-feira, 1 de novembro de 2007

resmungos paulistanos

São Paulo está se tornando uma cidade difícil de viver. Se não bastasse a falta total de segurança, o trânsito caótico, agora vem esse calor insuportável, com a temperatura batendo recordes. Lembro de uma época em que o paulistano ficava espantado com o calor do Rio de Janeiro: "37° à sombra!" E os tiroteios, em plena luz do dia, dos quais só ouvíamos falar e achávamos "um absurdo!" Bons tempos aqueles em que nos sentíamos felizes por morar em São Paulo.

Talvez eu esteja resmungando alto. Não é do meu feitio mas, tal como esta cidade, acho que não estou na melhor das fases.

Quando as moscas da desesperança começam a voar ao meu redor, lembro de um amigo que, em ocasiões semelhantes, dizia recorrer aos versos do genial Walter Franco:

tudo é uma questão de manter
a mente quieta
a espinha ereta
e o coração tranqüilo

Aprendi com ele a repetir esses versos, até à exaustão, como um mantra, que tem o poder de entrar em nossa mente e em seguida n'alma aflita, até nos sentirmos zen.

**

Reli agora um poema, do Paulo Henriques Britto, também genial - e fundamental. Uma reflexão sobre o próprio ato de escrever.

No fim de tudo, restam as palavras.
Na solidão do corpo, no saber-se
apenas pasto para o esquecimento.

há sempre a semente de alguma ilíada
mínima, promessa de permanência
no mármore etéreo de uma sílaba,

mesmo sendo mero sopro, captado
na frágil arquitetura do papel,
alvenaria de ar. Restará

a palavra que deixarmos no fim da
nossa história. Que julguem os outros,
que chegarão depois. Mais tarde ainda.


[do livro "Tarde", Companhia das Letras, 2007]

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

só para loucos



TRATADO DO LOBO DA ESTEPE


"Era um vez um certo Harry, chamado o Lobo da Estepe. Andava sobre duas pernas, usava roupas e era um homem, mas não obstante era também um lobo das estepes. Havia aprendido uma boa parte de tudo quanto as pessoas de bom entendimento podem aprender, e era bastante ponderado. O que não havia aprendido, entretanto, era o seguinte: estar contente consigo mesmo e com a a sua própria vida. Era incapaz disso, daí ser um homem descontente. Isso provinha, decerto do fato de que, no fundo de seu coração, sabia sempre (ou julgava saber) que não era realmente um homem e sim um lobo das estepes. As pessoas argutas poderão discutir a propósito de ser ele realmente um lobo, se ter sido transformado, talvez antes de seu nascimento, de lobo em ser humano, ou de ter nascido homem, porém dotado de alma de lobo ou por ela dominado; ou, finalmente, indagar se essa crença de que ele era um lobo não passava de um produto de sua imaginação ou de um estado patológico.

[...] Com o nosso Lobo da Estepe sucedia que, em sua consciência, vivia ora como lobo, ora como homem, como acontece com todos os seres mistos. Ocorre, entretanto, que quando vivia como lobo, o homem nele permanecia como espectador, sempre à espera de interferir e condenar, e quando vivia como homem, o lobo procedia de maneira semelhante. Por exemplo, se Harry, como homem, tivesse um pensamento belo, experimentasse uma sensação nobre e delicada, ou praticasse uma das chamadas boas ações, então o lobo, em seu interior, arreganhava os dentes e ria e mostrava-lhe com amarga ironia o quão ridícula era aquela nobre encenação aos seus olhos de fera, aos olhos de um lobo que sabia muito bem em seu coração o que lhe convinha, ou seja, caminhar sozinho nas estepes, beber sangue vez por outra ou perseguir uma loba. Toda ação humana parecia, pois, aos olhos do lobo horrivelmente absurda e despropositada, estúpida e vã. Mas sucedia exatamente o mesmo quando Harry sentia e se comportava como lobo, quando arreganhava os dentes aos outros, quando sentia ódio e inimizade a todos os seres humanos e a seus mentirosos e degenerados hábitos e costumes. Precisamente aí era que a parte humana existente nele se punha a espreitar o lobo, chamava-o de besta e de fera e o lançava a perder, amargurando-lhe a satisfação de sua saudável e simples natureza lupina."


[O lobo da estepe, de Herman Hesse, trad. de Ivo Barroso, Editora Civilização Brasileira, 1969, 3ª edição.]

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

um jacto d'água fria

Ser uma pessoa otimista ajuda em quê? Às vezes, em nada.
Saber que uma pessoa linda e jovem, com muitos sonhos para o futuro, tem uma doença grave ou que outra, que sempre deu duro a vida inteira no trabalho está envelhecendo, sem condições para sobreviver: estar próximo a elas estremece nossas convicções, nos faz parar para pensar - e para sentir.

Volto a Gonçalo M. Tavares. Quando li esse texto/poema da primeira vez, achei-o ácido e pessimista. Aos poucos, nas leituras seguintes, fui mudando minha opinião; cheguei mesmo a ter um carinho por essas palavras duras, como quando a gente gosta de alguém rude, arredio, mas encantador. Nos últimos dias, elas me vieram à lembrança e no bonito idioma de Portugal me pareceram mais verdadeiras que nunca.

Gostava de vos dizer uma coisa para terminar.

Às vezes tenho medo. Muito medo.
Às vezes, sofro.
Às vezes, penso nas pessoas que amo e penso na possibilidade
de as perder.
Às vezes vejo alguém doente e fico incomodado.
Pode não ser um amigo ou um familiar.
Posso estar a vê-lo pela primeira vez.
Mas fico incomodado.
Aquela doença pertence-me.

Todas as doenças pertencem a toda gente.
Todos os sofrimentos pertencem a toda gente.
Todas as mortes pertencem um pouco a toda gente.
Às vezes sinto isso muito,
outras vezes sinto menos.
Quando sinto menos posso preocupar-me com o mundo,
brincar com a poesia,
com a filosofia e com as palavras.
Mas quando sinto, deixo de conseguir pensar.
Quando sofro ou sinto o que alguém sofre, deixo mesmo
de querer ser inteligente.
Deixo de querer parecer inteligente.
Se estivermos cheios a sentir, não temos espaço para pensar.
Não fazem sentido as lógicas,
as filosofias,
as discussões.
Todo o nosso corpo sente.
E o que resta? Nada.
Só existe aquela morte, aquela doença, aquela velhice.
Só aquele pai que amo e que está a envelhecer. Só aquela mãe
que amo e que está a envelhecer.
Só aquele amigo que se tornou amargo
porque a mulher o deixou.
Só o amor e a falta de amor.
As mulheres que nos enganam e as mulheres que são enganadas,
as mulheres e os homens que enganam.
Os amigos que deixam de o ser,
Alguns inimigos que morrem, e temos pena.
Que importa o resto?
Onde está o livro importante?
O filme que resolve?
Podemos chorar à frente de um quadro, mas não resolve nada.
Podemos pintar um quadro, escrever um poema, mostrar às
mulheres bonitas como somos bonitos, exibir o nosso corpo,
mas que adianta?
Estamos sozinhos.
Se não estamos, vamos estar.
Os amigos vão-nos deixando, vão-nos deixar.
Vão morrer ou nós vamos morrer.
Ou vão deixar de nos telefonar, ou então deixamos de lhes
querer telefonar.
Estamos sozinhos. As pessoas que amo vão morrer.
Os livros não resolvem nada. A poesia é bonita e por vezes
descansa, acalma, mas não resolve nada, não resolve nada.
Somos artistas ou não somos, e qualquer coisa que seja não
adianta nada e nada impede.
Escrevemos poemas, mas não ajudam ninguém.
Escrevemos peças de teatro, sorrimos, tentamos pensar,
tentamos ter idéias, tentamos distrair as pessoas, tentamos
fazer pensar as pessoas, tentamos fazer chorar as pessoas, e
isso é bom, e pode até ser bonito, mas não adianta nada,
não resolve nada,
não adianta nada.

(in O homem ou é tonto ou é mulher, Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2005)

sábado, 20 de outubro de 2007

a obsessão, o tempo e o desejo


Esta semana um fato me trouxe certa satisfação e deu o mote para o texto que começo aqui: dois escritores da lista dos meus preferidos foram premiados no Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2007, o maior prêmio literário do país e que a partir desta edição incluiu
livros escritos em língua portuguesa em qualquer país, desde que editados no Brasil.

O grande vencedor foi Gonçalo M. Tavares, escritor português nascido em Angola, de 37 anos, por sua obra Jerusalém, publicada no Brasil pela Companhia das Letras. Levou 100 mil reais, uma soma considerável, tanto aqui como em Portugal.

O segundo lugar, prêmio de 35 mil reais, foi para Dalton Trevisan, por seu livro Macho não ganha flor (Record). É a segunda vez que o escritor é premiado pela Portugal Telecom: em 2003, ganhou o primeiro lugar com o livro Pico na Veia (dividindo a premiação com Bernardo Carvalho). Para não romper a tradição, o recluso Trevisan não compareceu à cerimônia de premiação, preferindo mandar uma mensagem: "Só a obra interessa. O autor não vale o personagem. O conto é sempre melhor que o contista. Vampiro sim, de almas. Espião de corações solitários, escorpião de bote armado. Eis o contista. Só invente o vampiro que exista. Com sorte, você adivinha o que não sabe. Para escrever o menor dos contos, a vida inteira é curta. [...] Quem lhe dera o estilo do suicida em seu último bilhete."

Dalton Trevisan
é uma paixão antiga, leio suas histórias há tanto tempo que parece que o conheço desde criança - o que não é absolutamente a verdade. Seus contos curtos e ácidos, de Joões e Marias, personagens universais de segredos inconfessáveis em seus dramas cotidianos , não são propriamente histórias para crianças. O primeiro livro que li dele foi Guerra conjugal. Daí pra frente, devorei quase todos os outros. Trevisan é um obsessivo pela síntese, pela linguagem concisa do conto e se aprimora a cada obra publicada.

Gonçalo Tavares é outro obsessivo (a literatura requer obsessão?). Ao falar de suas influências, citou um ditado chinês que é quase uma maldição: "não te atrevas a escrever um livro antes de ler mil ". Com o prêmio, disse que pretende comprar tempo:
" - Tenho três filhos. Isso em iogurte e leite se vai. O principal que eu quero é comprar tempo. Não quero Mercedes, não quero ser rico. Quero ter tempo. " O escritor, mesmo consagrado, com mais de 20 livros publicados em 12 países, não vive só de literatura. Divide seu tempo entre aulas em universidades e suas obras. Publicou sua primeira obra em 2001 e, nos três anos seguintes, teve 14 livros publicados, entre romances, poesia, teatro e contos.

O poema abaixo é do livro O homem ou é tonto ou é mulher (Casa da Palavra, 2005) que, a princípio, pode ser classificado dentro do gênero da poesia, mas que se revela também um monólogo dramático em versos - o livro já foi até transformado em peça teatral. A originalidade de sua produção literária é marcada por essa característica: a de contrariar classificações de gênero.


O desejo estraga tudo.
Tenho 32 planos.
52 projetos.
30 estruturas perfeitas.
O dia é claro e calmo e tem 24 horas.
De repente chega o desejo e estraga tudo.
O dia fica claro demais.
Calmo de menos.
E já não há 24 horas.
O tempo inteiro concentra-se num ponto.
Aqui. (aponta para o sexo)

Tenho o tempo concentrado aqui.
Muitos minutos concentrado no sexo.
O desejo é isto.
Ter um órgão a mais para o tempo que faz lá fora.
Lá fora o tempo tem 24 horas.
Cá dentro é bem mais pequeno.
O tempo entra todo pelo sexo e quer deixar de existir.
O esperma é o suicídio do tempo.
O esperma sobe para a torre e atira-se lá de cima.
É um suicídio.
Um suicídio do tempo.

O desejo estraga tudo.

Tinha tantos planos racionais para hoje.

Os números eram quase perfeitos.

O desejo estraga tudo.


A poesia de Gonçalo Tavares, mesmo sendo ostensivamente uma poesia de idéias, também é, em grande medida, um trabalho de requintado lirismo. Um lirismo que tenta escapar, racionalmente, do desamparo das emoções.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

PIAF - a vida que daria um filme


Ela tinha apenas 1,47 de altura, um aspecto doentio e cabelos escassos. Mas sua voz tornou-a um mito: quando cantava, era como um facho de luz que atingia a todos, sem distinção.

Não tem como não nos emocionarmos: o filme é fantástico, a interpretação de Marion Cotillard é inacreditável, as músicas são lindas e nostálgicas; o clima noir e a construção narrativa - alternando tempos e espaços diferentes da vida trágica de Edith Piaf - são uma aula de cinema. Não foi por acaso que, depois da estréia, houve na França uma verdadeira febre Piaf, com reedições de todos os tipos, biografias e caixas com CDs da cantora.

O mais incrível é sentir, na voz tão cheia de emoções de Piaf, que as canções antigas se tornam presentes, vivas, mesmo 60 anos depois. Essa habilidade de transportar sentimentos através do tempo, é o que atesta o poder da música: toda vez que ouvimos uma grande canção, ou aquela que tem um significado especial para nós, somos transportados a outro mundo; sentimos conforto ou angústia, revivemos emoções esquecidas, saímos da rotina, lembramos de nossos sonhos.

Fazia tempo que eu não chorava assistindo a um filme. Quebrei minha série invicta de vários anos, ao vê-la cantando, na última cena, Non, je ne regrette rien - uma grande canção. Disfarçadamente, como muitos que demoraram a levantar de suas poltronas, fiquei lendo os créditos.

http://www.edithpiaf.com.br

domingo, 7 de outubro de 2007

frisson na música pop


Radiohead, o grupo inglês que lançou em 1997
OK Computer, álbum considerado um dos mais influentes e inovadores da história da música pop - só perdendo para Sgt. Pepper's -, está causando um verdadeiro frisson e deixando seus fãs numa expectativa doentia. Desde 1º de outubro, as comunidades do Orkut da banda no mundo inteiro fervem com comentários e informações sobre o assunto. E na mídia, uma enxurrada de artigos comentam a novidade: Time, NME, Blitz (Portugal), Folha de São Paulo, Estadão, só pra citar alguns. Dos que li, o mais completo foi o da revista Carta Capital :

Carta Capital,
Edição 465 - 05/10/2007

A revolução comercial do Radiohead

por Felipe Marra Mendonça

O que começou com um simples anúncio num blog promete estabelecer um novo paradigma no mercado da música digital

Jonny Greenwood, guitarrista da banda inglesa Radiohead, escreveu na segunda-feira 1º, no blog do grupo, a seguinte mensagem: “Olá a todos. Bem, terminamos o novo disco e ele sai em dez dias. Nós o chamamos de In Rainbows. Um abraço de todos nós”.

O link contido no nome do novo álbum leva para um site (www.inrainbows.com), onde é possível comprá-lo em duas versões, discbox e download. A primeira é física. Os fãs que pagarem cerca de 160 reais vão poder baixar o álbum a partir de 10 de outubro e depois receber uma caixa com a gravação em CD e dois discos de vinil, além de um segundo CD com novas músicas, fotografias, artes e um livro de capa dura.

A segunda, download, é revolucionária nem tanto pelo conteúdo, mas pelo conceito que inaugura. O usuário pode baixar o disco inteiro e pagar o que considerar justo. Se nada pagar, o site cobra uma taxa administrativa pela transação de 1,70 real. A banda chega a esclarecer o conceito para consumidores mais incrédulos: “O preço é com você, de verdade, é o que você quiser”.

Isso acontece num mercado em que as vendas físicas caíram depois da combinação entre a popularização de gravadores de CDs em computadores e a massificação do acesso à internet. Houve uma queda de quase 5%, nos EUA, em 2006. Em contraste, as vendas de música digital aumentaram 65%, com 582 milhões de faixas e mais de 33 milhões de discos vendidos, mais do que o dobro do ano anterior, segundo a Nielsen Soundscan.

O interesse por In Rainbows foi tanto que o site ficou lento e Greenwood, o guitarrista, deixou um recado informando que estava tudo congestionado, “mais movimentado do que eles (os técnicos) esperavam. Então, por favor, tenham paciência conosco, tudo deve ficar normal rapidamente. Sei que pareço um segurança. Fiquem por trás dos cordões de isolamento. Obrigado pela paciência e pelo interesse no disco”.

Ao final do primeiro dia de vendas, mais pessoas tinham comprado a versão física do que a versão virtual, o que indica a fidelidade dos fãs que aguardavam há mais de quatro anos pelo novo lançamento. Um porta-voz da banda disse que a motivação principal era conseguir fazer com que as novas músicas chegassem aos fãs de modo mais rápido do que os três ou seis meses pedidos pelas gravadoras para orquestrar um lançamento comercial.

A imprensa britânica acredita que o Radiohead deve superar o modelo de contrato com gravadoras (tendo terminado o antigo acordo com a EMI) e “estabelecer um valor monetário na apreciação do público pela arte”. E mais: 1º de outubro foi “o dia da morte das gravadoras”.

A banda tinha se recusado a entrar na loja virtual de músicas da Apple, a iTunes Store, por acreditar que a prática de vender faixas quebrava a integridade artística de um álbum inteiro.

Resta agora ver que tipo de reação o lançamento de In Rainbows deve gerar no mundo digital. Se os usuários pagarem um “preço justo” pelo disco, outros artistas talvez se rendam finalmente à música digital, como os Beatles, cujos membros sobreviventes ainda não dispuseram seu catálogo para venda on-line.


Eu comprei o meu download por 1 libra. Achei um preço justo. E vc, quanto se dispõe a pagar?


domingo, 23 de setembro de 2007

el pasado

Babi, pra mim, rima com coragem, personalidade, beleza, inteligência. Rimas ocultas, independentes das palavras. Como o nome do seu blogue, tenho por ela uma estranha simpatia. Babi me fez um convite: responder a um meme ¹. Então, vamos lá.

1. Pegar o livro mais próximo.

Na minha mesa estavam 3 livros: São Bernardo, de Graciliano Ramos; Budapeste, de Chico Buarque e El pasado, de Alan Pauls. Como mal comecei os dois primeiros - li algo como umas 30, 40 páginas - escolhi o terceiro, El pasado, no qual estou mais adiantada.


Uma boa desculpa pra falar desse autor, do qual estou gostando muito. Nascido em 1959, na capital da Argentina, Alan Pauls foi professor de Teoria Literária na Universidade de Buenos Aires (UBA), fundador da revista Lecturas Críticas, subeditor do suplemento dominical de Página/12 e chefe de redação da revista Página/30, além de roteirista e crítico de cinema. Atualmente, ele escreve com o cinesta Hugo Santiago o roteiro de Buenos Aires no existe, filme sobre a passagem de Duchamp por Buenos Aires em 1918. Antes de El pasado - obra pela qual ganhou em 2003 o prestigioso prêmio Herralde para livros de ficção em língua espanhola e cuja tradução em português é atualmente um dos mais vendidos da editora Cosac Naify - publicou os romances El pudor del pornógrafo (1984), El coloquio (1990) e Wasabi (1994), este último lançado no Brasil pela editora Iluminuras. Escreveu ainda ensaios sobre Manuel Puig: La traición de Rita Hayworth (1988), Jorge Luís Borges: El factor Borges (2000) e Lino Palacio: La infancia de la risa (1994), entre outros.

Baseado em El pasado, estréia em 26/10 o filme dirigido por Hector Babenco, com Gael Garcia Bernal no papel de Rímini, o personagem principal. Mesmo que não fosse com o gato Gael, eu não perderia.


"Uma história de pós-amor", é assim que o autor classifica seu livro. A obra fala de um amor que morre e de pessoas que não conseguem suportar a perda, vivendo um "amor zumbi", termo que para o escritor poderia ser facilmente o nome de sua novela. Rímini é um tradutor que tenta firmar relações com outras mulheres após a separação de sua grande paixão Sofía, cuja sombra volta como um espectro para atormentar o protagonista. Ele se afoga em vícios para suportar a dor - vício em cocaína, em suas traduções, em masturbação e em Sofía. Ao tentar se livrar do passado, Rímini vai perdendo também o conhecimento das línguas que domina e se antes era um sedutor, torna-se dependente, tendo início uma série de metamorfoses, perdas, mortes e ressurreições. O clima muitas vezes é fantástico, como em muitas obras da tradição literária argentina.


2. Abrir na página 161 e postar a 5ª frase completa.

O livro é um calhamaço de 553 páginas, então, não houve impecilho para essa tarefa. Estou lendo no original, ao menos tentando. A 5ª frase da página 161 é esta:


"Rímini le tenía tanta confianza que, a pesar de que siempre había sido el médico de los dos, de él y de Sofía, la separación, que tanto había afectado a las cosas comunes, en este caso ni siquiera parecía haberla rozado."

O trecho refere-se ao médico homeopata que Rímini vai consultar, logo depois de ter descoberto e se assustado com uma alteração de cor em suas unhas dos dedões dos pés. Uma passagem do livro que começa cômica e se transforma em dramática. Essa, na minha opinião, uma das grandes sacadas do texto de Pauls: um romance tragicômico, como se tornam todas as grandes histórias de nossas vidas, depois que conseguimos vê-las com um certo distanciamento.

3. Não escolher o melhor livro nem a melhor frase.

Não escolhi o melhor livro, não. Bem pertinho de mim, numa pequena estante, estavam meus preferidos, como Crime e Castigo, de Dostoiévski e Dom Casmurro, do Machadão. Também não era a melhor frase do livro até o momento.

4. Repassar para 5 blogs...

É o tópico mais difícil de responder. Já é duro eu escolher o sabor do sorvete, toda vez que vou tomar um, imaginem 5 blogues. Bom, o convite vai para estes amigos:
Gabi, Oficina Operística
Ixra, Raio-X
Pete, Vermelho Carne
Thiago, Santa Ironia
Tiago, Deixis

5. O que está achando do livro

Como já disse, estou gostando muito. A prosa é rica, densa, com longos períodos, um labirinto de imagens, metáforas e uma profusão de referências literárias e cinematográficas, nem sempre muito óbvias: de Puig, Bioy Casares, Cortázar a Visconti e Truffaut. As personagens e situações, embora possam parecer estranhas, exageradas e até irreais, são ao mesmo tempo extremamente verossímeis. E tocantes, humanas. A questão da memória, que envolve toda a narrativa, sempre me fascinou. Ela remete também às obras de Proust e aos temas de Fellini - não é por acaso a escolha do nome Rímini, terra natal do cineasta italiano.
O livro é bom, muito bom, na minha opinião. Fico sempre com um pé atrás em relação aos
best-sellers. Talvez daqui pra frente eu perca esse preconceito.
R
esolvi ler no original para aprender mais o espanhol, achei que o livro teria uma linguagem mais fácil. O texto se revelou melhor e mais difícil que o esperado, estou apanhando um pouco. Mas em literatura, com o passar do tempo, acho que nos tornamos um tanto masoquistas: gostamos de apanhar do texto - um pouco, sem exageros, veja lá - e até sentimos prazer nisso.

¹ Felipe e Diego também me fizeram o gentil convite para o mesmo meme.

sábado, 22 de setembro de 2007

você sabe o que é um meme?

Faz tempo que não posto aqui. Falta de assunto não foi. Nesses tempos agitados, eles pululam como cogumelos num ambiente quente e úmido ou, numa comparação mais atual, como diplomas de doutores em certas faculdades pagas. A ausência bem pode ter sido consequência da ressaca pós-final-de-semestre da faculdade, ressaca violenta de um porre violento de trabalhos e provas, coisa inumana mesmo. Mas já me recuperei: pronta pra outras.

Como disse, assuntos não faltaram. Memes, também não: recebi alguns deles nessas últimas semanas. O meme, que originalmente tinha uma definição puramente técnica e que em relação à memória seria o análogo cultural do que é o gene em relação à genética - uma unidade mínima de informação -, com o tempo foi saindo desse contexto e trafegando, por exemplo, pela publicidade. A idéia principal é a de imitação, a informação passando de cérebro para cérebro. As frases e os jingles que não nos saem da cabeça, os modismos - usar o boné com a aba virada para a nuca: quem começou? - a tecnologia, as invenções, os provérbios, os aforismos, todos são exemplos de memes. Um dos mais conhecidos na internet é o Hampster Dance - difícil encontrar alguém que não tenha visto.

No conceito atual, o meme continua ligado à replicação, à propagação de idéias, mas na blogosfera, esse mundinho tremendamente viciante e encantador, tornou-se sinônimo de algo um pouco diferente: uma cadeia, na qual uma pessoa partilha um conhecimento pessoal e nomeia outros blogues para fazer o mesmo. Os temas são muitos: "Por que você bloga?", "Escreva sobre fatos importantes na sua vida", e por aí vão.
Nem sempre são criativos, alguns fazem perguntas à la Questionário de Proust. Mas como disse o Manoel Carlos, numa crônica sobre o citado questionário: "No fundo, no fundo, é pura bisbilhotice. Por isso mesmo, muito divertido."

Pete e Babi: agradeço por se lembrarem de mim, fiquei mesmo lisonjeada. E citando um meme: "Devo, não nego; pago quando puder". Foi péssimo, eu sei.

sábado, 8 de setembro de 2007

um sábado único - e qualquer

MATINAL

Nesta manhã de sábado e de sol
em que o real das coisas se revela
na forma nada transcendente
de uma paisagem na janela

num momento captado em pleno vôo
pela discreta plenitude
de não ser mais que um par de olhos
parado no meio do mundo

tantas coisas se fazem conceber
fora do tempo e do espaço
até que o instante se dissolva
enfim em mil e um pedaços

feito esses furos de pregos
numa parede vazia
a insinuar uma constelação
isenta de qualquer mitologia.

[de Paulo Henriques Britto , in Tarde, 2007]


Há sempre um poema para um momento só nosso, que diz exatamente o que poderíamos dizer.
Seremos nós, humanos, tão iguais e previsíveis?

sábado, 1 de setembro de 2007

a lolita de vinicius

Reler Vinicius de Moraes nunca pode ser encarado como uma obrigação, inda mais quando se trata de selecionar poemas para um prazeiroso (mas árduo!) trabalho de literatura. Por caminhos tortuosos, acabei encontrando também uma crônica muito simpática, a começar do título: Brotinho indócil. Essa expressão, brotinho, muito usada na época em que foi escrita (o texto é de 66), me fez lembrar de Roberto Carlos, da mini-saia, da Jovem Guarda e aquelas coisas inocentes que a gente associa à década de 60.

Se bem que foi nessa década que se popularizaram as drogas
- revolucionando a arte e o comportamento social - e a pílula anticoncepcional, esta mudando até as relações de trabalho, muito além do sexo. Foram também os terríveis anos da Guerra do Vietnã, com os EUA usando o napalm contra populações civis. Ah! e o golpe de 64? Bem, pensando bem, não foi uma década tão inocente assim.

O texto de Vinicius - uma delícia de texto - me fez sentir uma certa nostalgia. Mas não me venham dizer que aqueles tempos é que eram legais. O hoje é sempre melhor.

BROTINHO INDÓCIL

A insistência daqueles chamados já estava me enchendo a paciência (isto foi há alguns anos). Toda a vez era a mesma voz infantil e a mesma teimosia:
— Mas eu nunca vou à cidade, minha filha. Porque é que você não toma juízo e não esquece essa bobagem...
A resposta vinha clara, prática, persuasiva:
— Olha que eu sou um broto muito bonitinho... E depois, não é nada do que você pensa não, seu bobo. Eu quero só que você autografe para mim a sua "Antologia Poética", morou?
Morar eu morava. É danadamente difícil ser indelicado com uma mulher, sobretudo quando já se facilitou um bocadinho. Aventei a hipótese:
— Mas. . . e se você for um bagulho horrível? Não é chato para nós ambos?
A risada veio límpida como a própria verdade enunciada:
— Sou uma gracinha.
Mnhum - mnhum. Comecei a sentir-me nojento, uma espécie de Nabokov "avant-la-lettre", com aquela Lolita de araque a querer arrastar-me para o seu mundo de ninfete. Não, resistiria.
— Adeus. Vê se não telefona mais, por favor. . .
— Adeus. Espero você às 4, diante da ABI. Quando você vir um brotinho lindo você sabe que sou eu. Você, eu conheço. Tenho até retratos seus. . .
Não fui, é claro. Mas o telefone no dia seguinte tocou.
— Ingrato . . .
— Onde é que você mora, hein?
— Na Tijuca. Por quê?
— Por nada. Você não desiste, não é?
— Nem morta.
— Está bem. São 3 da tarde; às 4 estarei na porta da ABI. Se quiser dar o bolo, pode dar. Tenho de toda maneira que ir à cidade.
— Malcriado. . . Você vai cair duro quando me vir.
Desta vez fui. E qual não é minha surpresa quando, às 4 em ponto, vejo aproximar-se de mim a coisinha mais linda do mundo: um pouco mais de um metro e meio de mulherzinha em uniforme colegial, saltos baixos e rabinho de cavalo, rosto lavado, olhos enormes: uma graça completa. Teria, no máximo, 13 anos. Apresentou-me sorridente o livro:
— Põe uma coisa bem bonitinha para mim, por favor?...
E como eu lhe respondesse ao sorriso:
— Então, está desapontado?
Escrevi a dedicatória sem dar-lhe trela. Ela leu atentamente, teve um muxoxo:
— Ih, que sério . . .
Embora morto de vontade de rir, contive-me para retorquir-lhe:
— É, sou um homem sério. E daí?
O "e daí" é que foi a minha perdição. Seus olhos brilharam e ela disse rápido:
— Daí que os homens sérios podem muito bem levar brotinhos ao cinema...
Olhei-a com um falso ar severo:
— Você está vendo aquele Café ali? Se você não desaparecer daqui imediatamente eu vou àquele Café, ligo para sua mãe ou seu pai e digo para virem buscar você aqui de chinelo, você está ouvindo? De chinelo!
Ela me ouviu, parada, um arzinho meio triste como o de uma menina a quem não se fez a vontade. Depois disse, devagar, olhando-me bem nos olhos:
— Você não sabe o que está perdendo. . .
E saiu em frente, desenvolvendo, para o lado da Avenida.

In Para uma menina com uma flor. Rio de Janeiro: Edit. do Autor, 1966.

domingo, 26 de agosto de 2007

a vida às vezes é doce

Quem me conhece sabe que troco qualquer programa por outro que envolva música. E nem precisa me conhecer bem, pra saber que sou tiete do Lobão: basta ver o nome do blogue.
Domingo apertado, muito trabalho acumulado, mas tinha show - do Lobão! E ao meio-dia, o que não combina muito com ele - nem comigo. Eu fui, claro.

Foi muito legal: ele é uma figuraça. Além de sempre ter gostado muito de suas músicas, admiro sua coragem e independência. E o fato de ter sobrevivido. Muitos artistas da geração dele, como seus parceiros Júlio Barroso e Cazuza, não o conseguiram.

Mas ele está aí, mais vivo que nunca e com uma energia incrível. Como nos velhos tempos. Tempos de que a letra de “Vou te levar” me faz lembrar:

Pensar em tudo que se passou, que se pôde sonhar e não realizou
A vida tentando escapar, mas não por agora
Ao mesmo tempo tanta coisa se amou, se refez, se perdeu, se conquistou,
Retratos estampados do nosso amor, em preto e branco, pregados na parede,
Revelando pra sempre a gente, nosso orgulho um do outro, olhando pra lente
como quem dissesse "não queremos mais nada nesse mundo"
e que me lembrasse a cada instante que valeu a pena cada lance
e valerá, tenha certeza, pra toda a vida.
Vou levar, vou te levar
pra onde for, vou te levar

Aos que o criticam de ter se rendido ao mainstream, por ter feito o Acústico na MTV e ter voltado ao esquema profissional das gravadoras, ele tem uma resposta pronta, da qual fazem parte alguns palavrões impublicáveis. É isso aí, cara.

domingo, 19 de agosto de 2007

eu não ia postar hoje

No meio de um trabalho de Língua Francesa, paro, procurando inspiração e descanso em sites de leitura indispensável. Ao ler os blogues, sinto-me como se visitasse amigos, embora de algumas casas nunca tenha visto os donos. Para minha surpresa, descubro que meu blogue foi citado no Digestivo Cultural. Uma gentileza do editor, Julio Daio Borges, que um dia espero conhecer pessoalmente. Julio recentemente escreveu um artigo muito interessante sobre literatura e internet, no caderno Link, do Estadão.
Leio sempre o Digestivo Cultural - revista cultural eletrônica que alcança o impressionante número de 339 mil leitores no mês - mas confesso que nunca consigo degustá-lo integralmente: a eterna questão da falta de tempo. Só fui ler o post um mês depois.

Considero-me ainda uma alienígena nessa blogosfera: caí aqui nem sei como, há uns três meses, e ainda estou reconhecendo o terreno, aprendendo como caminhar nesta gravidade um tanto diferente. Mas já deu pra sacar que uma das coisas mais legais é a via de comunicação que se estabelece entre blogueiros e leitores, muitos destes também blogueiros. Mesmo no meio de um trabalho de Francês, dentro de uma madrugada fria e deliciosamente silenciosa, a gente sente uma energiazinha vindo pelo ar.

E eu nem ia postar hoje.

domingo, 12 de agosto de 2007

a literatura é importante?



Não há no cenário literário brasileiro dos últimos quarenta anos um nome mais significativo que o de Raduan Nassar. Com apenas dois livros, Lavoura Arcaica (1975) e Um Copo de Cólera (1978), Nassar arrebatou vários prêmios literários e ganhou o respeito da crítica como um escritor de importância comparável à de Guimarães Rosa, Rubem Fonseca e Clarice Lispector. Publicados também na França, Alemanha e Espanha, seus livros trazem elementos da literatura clássica mesclando a dramaticidade desta com os da tradição brasileira e universal. O texto de grande força e densidade poética cria imagens ora intimistas, ora impactantes, e essa característica, aliada à visão e direção talentosa de Luiz Fernando de Carvalho, talvez explique o sucesso que a adaptação de Lavoura Arcaica fez no cinema.

Lavoura Arcaica possui a característica comum a toda grande obra de arte: a de nunca se esgotar. Passados 32 anos de sua publicação é, sem dúvida, um clássico e comprova sua força, à medida que ao longo dos anos vem criando possibilidades múltiplas de análises e estudos. No seu sentido dramático, filia-se à grande tradição que deu origem a obras como Édipo Rei e Hamlet. Ao mergulhar nas profundezas do inconsciente, nos vãos escuros da família, extrapolando-os à civilização ou à não-civilização que a rodeia, o autor consegue, partindo de um plano rural e particular, atingir o universal.

A trajetória de Nassar como escritor, no entanto, foi meteórica. Em 1984, então com 48 anos, ele comprou a fazenda Lagoa do Sino, perto da cidade de Buri, a 250 quilômetros de São Paulo e passou a se dedicar ao cultivo de arroz, milho e feijão. Espantou a todos, logo em seguida, ao anunciar que iria parar de escrever. "Estou dando uma virada radical na minha vida e começo a me perguntar como é que pude entrar por esse cano da literatura. Minha cabeça fervilha com outras coisas, ando às voltas com agricultura e pecuária, procurando me enfronhar sobre tratores e implementos. Tudo isso que nada tem a ver com o pasto das idéias", declarou na época, em um de seus raros depoimentos. "Em termos estruturais, não considero o processo de invenção da literatura diferente do processo de invenção em outros campos da atividade humana. Já disse que qualquer indivíduo, a menos que seja bloqueado pelas condições de vida, é capaz de inventar, que inventar não é exclusivo de uns poucos", justificou em 1992. Alfinetou ainda os que lhe exigiam novas produções. "Não existem só os pedantes que se perdem num cipoal de palavras para dizer ninharias, existem também orelhas prolixas, sempre dispostas a ouvir as maiores lorotas."

Volta e meia nos deparamos com essa questão: a literatura é tão importante assim, como fazemos questão de alardear? As grandes obras são capazes de mudar vidas - mudou a minha, prometo que qualquer dia conto essa história -, mudar até a história de nações e muitos compartilham dessa opinião. Mas parece que alguns escritores acreditam que tão ou mais importante que a literatura é a vida real: criar bois, plantar milho, lutar em uma revolução. Escrever é um ato angustiante demais, ao qual poucos conseguem sobreviver? Ou seria tão banal quanto regar um jardim ou lavar pratos, que podemos simplesmente optar por não fazê-lo mais? Eu o vejo como uma paixão, que arrebata e consome. Como começa e por que termina, difícil explicar. Essa contradição é que faz da literatura um mistério insondável e fascinante.

Em 1997, a Companhia das Letras reuniu em um livro entitulado Menina a Caminho, cinco narrativas curtas que, com exceção de um texto inédito - Mãozinhas de Seda, produzido em 1996 -, foram todas escritas por Raduan Nassar nas décadas de 60 e 70. É desse livro que extraí o conto Aí Pelas Três da Tarde, bem diferente do estilo denso e dramático de Lavoura Arcaica. O conto sugere o escape do previsível, a recusa das situações confortáveis e asfixiadas pelo tédio.


AÍ PELAS TRÊS DA TARDE

Nesta sala atulhada de mesas, máquinas e papéis, onde invejáveis escreventes dividiram entre si o bom senso do mundo, aplicando-se em idéias claras apesar do ruído e do mormaço, seguros ao se pronunciarem sobre problemas que afligem o homem moderno (espécie da qual você, milenarmente cansado, talvez se sinta um tanto excluído), largue tudo de repente sob os olhares a sua volta, componha uma cara de louco quieto e perigoso, faça os gestos mais calmos quanto os tais escribas mais severos, dê um largo "ciao" ao trabalho do dia, assim como quem se despede da vida, e surpreenda pouco mais tarde, com sua presença em hora tão insólita, os que estiveram em casa ocupados na limpeza dos armários, que você não sabia antes como era conduzida. Convém não responder aos olhares interrogativos, deixando crescer, por instantes, a intensa expectativa que se instala. Mas não exagere na medida e suba sem demora ao quarto, libertando aí os pés das meias e dos sapatos, tirando a roupa do corpo como se retirasse a importância das coisas, pondo-se enfim em vestes mínimas, quem sabe até em pêlo, mas sem ferir o decoro (o seu decoro, está claro), e aceitando ao mesmo tempo, como boa verdade provisória, toda mudança de comportamento. Feito um banhista incerto, assome em seguida no trampolim do patamar e avance dois passos como se fosse beirar um salto, silenciando de vez, embaixo, o surto abafado dos comentários. Nada de grandes lances. Desça, sem pressa, degrau por degrau, sendo tolerante com o espanto (coitados!) dos pobres familiares, que cobrem a boca com a mão enquanto se comprimem ao pé da escada. Passe por eles calado, circule pela casa toda como se andasse numa praia deserta (mas sempre com a mesma cara de louco ainda não precipitado) e se achegue depois, com cuidado e ternura, junto à rede languidamente envergada entre plantas lá no terraço. Largue-se nela como quem se larga na vida, e vá ao fundo nesse mergulho: cerre as abas da rede sobre os olhos e, com um impulso do pé (já não importa em que apoio), goze a fantasia de se sentir embalado pelo mundo.

(in "Menina a Caminho", Companhia das Letras - São Paulo, 1997)

Leia também - se puder escapar do tédio - o conto Hoje de Madrugada, do mesmo livro: um relato contundente do fim de uma relação onde os gestos imaginados, os silêncios sugeridos, aquilo que não é dito, competem em densidade dramática com as palavras realmente ditas. É mágico. Torço para que Raduan Nassar volte a fazer literatura, entre as safras de milho do seu sítio.

[foto de Raduan: publicada em Cadernos de Literatura Brasileira, Instituto Moreira Salles, nº 2, setembro 1996]

sábado, 4 de agosto de 2007

o verdadeiro sentido

GUARDAR

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.

Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.

(Antonio Cícero)


sábado, 28 de julho de 2007

vozes femininas


Tenho fases. Todos têm fases, acho eu. Bem, talvez Bentinho, de Dom Casmurro, não as tivesse, irredutível até o final em sua casmurrice. Já a indecifrável Capitu, quem pode dizer?

Essa introdução bobinha é só pra dizer que estou numa fase de cantoras. Fase musical, convém esclarecer. Há um tempo atrás, - e quando digo tempo, estou dizendo muito tempo: anos, décadas - eu só gostava de cantores. Sei lá a razão dessa fixação masculina. Talvez por que naquela época, de vozes femininas, bastavam e sobravam as da minha família: três irmãs, mãe, tias, primas, na maioria das vezes falando e cantando ao mesmo tempo.

Quando eu me trancava no quarto e colocava um LP (o vinil) no toca-discos, queria ouvir uma voz masculina, um vocalista de uma banda de rock, ou mesmo um tom grave e calmo em uma canção de jazz. Não era pela ausência de boas cantoras, mas eu gostava mesmo dos cantores: Elton John, Joe Cocker, Eric Clapton, Rod Stewart, Lennon & McCartney. E os vocalistas como Jon Anderson (Yes), Phil Collins (Genesis), Roger Waters (Pink Floyd), Robert Plant (Led Zeppelin), Freddie Mercury (Queen) refletiam quão masculino - pelo menos na certidão de nascimento - era o território do rock.

Quando passei a morar sozinha, uma das melhores coisas era colocar o som bem alto e não ter alguém pra reclamar. Acho que tive sorte, os vizinhos do apartamento ao lado deviam ser surdos ou então, tinham o mesmo gosto musical que eu: nunca se queixaram das canções de Sting, George Michael, Chet Baker, João Gilberto, Tim Maia, Chico Buarque ou Lobão, tocadas a todo volume.

Foi a época do boom dos cd's. Eu vivia nas lojas, ouvindo os álbuns, antes de comprá-los - não existiam kazaas e e-mules para facilitar a vida da gente. O dinheiro do salário era contado e separando o que ia para as despesas da casa não sobrava muito para cd's. Mas eu sempre acabava comprando algum quando entrava na Hi-Fi do Iguatemi, naquele tempo um shopping bacana para a classe média, onde ainda se podia comprar uma bolsa ou um par de sapatos sem deixar dez salários mínimos numa loja. Mesmo assim, eu continuava passando longe da seção das cantoras.

Não sei quando isso começou a mudar. Só me dei conta há pouco tempo que hoje passo a maior parte do dia ouvindo canções interpretadas por... mulheres! Francesas, como Charlotte Gainsbourg, Coralie Clément, Keren Ann e Françoise Hardy ou inglesas, como Corinne Bailey Rae e Joss Stone. Redescobri Sarah Vaugham, Nina Simone, Annie Lennox, Gal Costa, Bebel Gilberto. Voltei à Elis, à Rosa Passos. Talvez um terapeuta diga que "comecei ouvir a mim mesma e que essas figuras femininas são como porta-vozes daquilo que sempre quis exteriorizar" - ah... acho que comecei a divagar.

O fato é que a cada dia admiro mais as interpretações femininas. A mais recente descoberta foi a brasileira de raízes cubanas Marina de la Riva, cujo cd é um primor. É dela que quero falar um pouco mais. Foi o amigo Thiago Candido - garimpador incansável de discografias - quem me mandou o link para baixar o álbum, tão logo ele foi lançado. Se estivéssemos ainda nos tempos dos LP’s, eu diria que estou 'furando o disco' de tanto escutá-lo.

A faixa que resume o álbum, e talvez por isso o apresente, é a primeira: Tin tin deo, uma saborosa rumba misturada ao Xote das meninas, de Luiz Gonzaga. No meio de tudo, o arranjo genial, que tem até berimbau: demais. Maravilhosas as românticas, Tengo un nuevo amor e Drume negrita. E Si llego a besarte é puro Chet Baker! Não faltam participações de artistas cubanos e de brasileiros: Chico Buarque dá o seu aval na faixa Ojos Malignos, o guitarrista e divo Davi Moraes toca em várias músicas, além de assinar os arranjos. As recriações de Sonho meu e Ta-hí têm uma marca bem pessoal, completamente na contramão das originais. Gosto muito desse diálogo entre diferentes gêneros e épocas. Difícil saber qual faixa é a melhor.

Vale a pena ver os vídeos da Marina no Youtube, como também baixar ou comprar o cd. E depois, ouvir a todo volume. A não ser que seus vizinhos reclamem, claro.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

por que Portugal merece o meu respeito

Eles têm João Pereira Coutinho - que nós tomamos emprestado, de tão bom que é.

E nós temos - equivalente não seria o termo - quem? Daniel Piza, talvez.

Leiam. Nem preciso comentar.

segunda-feira, 23 de julho de 2007

não fosse isso

O mês de julho está findo. Sim, pois uma semana não é nada, inda mais quando é uma última semana.
Sinto um certo alívio, pela perspectiva de retomar as atividades acadêmicas, depois de mais de dois meses de paralisação. Meses em que, confesso, cultivei por demais os prazeres do ócio. Nestes, incluem-se - entre as atividades mencionáveis - leituras descompromissadas, puro deleite, navegações viciantes e sem rumo pela internet, espressos e Originais em ótimas companhias, noites sem dormir em maratonas de filmes dos Noitões do HSBC e - como não? - as postagens neste blogue.
As conseqüências da minha procrastinação crônica agora vêm à tona: tarefas acumuladas provocando um quase pânico. Quando irei aprender? Talvez nunca, mas a estiagem já começou.

E lembrando os versos de Leminski:

não fosse isso
e era menos
não fosse tanto
e era quase

Que venha logo agosto, mês dos cachorros loucos!

quarta-feira, 18 de julho de 2007

na velocidade - terrível - da queda






















São 2h10 e não sei se conseguirei dormir hoje. No meu quarto, a tevê está ligada há várias horas. Ela, que geralmente só tem a função de servir de apoio para livros, de tão ignorada. Mas esta noite não consegui tirar os olhos das imagens do acidente do Airbus da TAM, que se chocou contra o prédio da própria companhia, às 18h50, em São Paulo: uma ironia macabra, diria até.

Escrevo esse texto de chofre, quase como um relato, ainda tomada por um sentimento que é um misto de piedade e revolta pelo que aconteceu. Eu passava pela Av. Washington Luís por volta das 19h15, maldizendo a falta do rádio - não tive ainda tempo para instalar o som no novo carro. Dirigir sem ouvir música ou as últimas notícias pra mim é inconcebível, quase torturante: é como ficar numa sala de espera sem algo para ler.
Faço esse caminho quase todos os dias, de volta do trabalho, neste período de férias da faculdade. Estranhei a passagem de várias ambulâncias: dei passagem a quatro, pelo menos. Vi que algo grave devia ter acontecido. Mais à frente, quase chegando ao aeroporto, com o trânsito todo parado, a pista interditada. Ao longe, podia-se avistar o clarão do fogo. E eu, sem rádio no carro! - pensei novamente.

Segui o fluxo dos carros, meio perdida, sem saber que rumo tomar. Acabei saindo numa rua do supermercado Extra e resolvi entrar, sem nem saber por que. Fui direto ao setor dos aparelhos de tevê e soube por dezenas de telas o que havia acontecido.

Penso agora nas vítimas, nas histórias particulares de cada uma daquelas pessoas, que nos próximos dias preencherão as páginas dos jornais e cada vez mais me convenço de como a vida é frágil. E de como não temos controle algum sobre ela. Sim, eu sei: que clichê. Mas a verdade é que o presente é a única coisa com o que podemos contar.

domingo, 15 de julho de 2007

O Pantera do Pan















É raro eu ligar minha tevê. Mas hoje foi uma exceção: Pan 2007 e ainda a final da Copa América, Brasil e Argentina. Não tem como não acompanhar.

Emocionei-me com o choro e o depoimento de Diogo Silva, lutador de taekwondo, que ganhou a única medalha de ouro do Brasil até agora. De origem humilde, negro, feições muito bonitas, tranças dreadlocks, estilo agressivo, ele dominou o peruano o tempo todo na luta final. Após receber a medalha de ouro, muito aplaudido, aproveitou para desabafar e protestar: "Recebo só R$ 600,00 da Confederação (Brasileira de Taekwondo, oriundos da Lei Piva). Mas esse dinheiro atrasa e só recebemos a cada três meses. Nesse ano, fiz de tudo por essa medalha de ouro. Desembolsei do meu próprio bolso cinco mil reais para competir e treinar na Europa. Acreditava que precisava fazer o possível e o impossível por essa medalha de ouro". Nas Olimpíadas de Atenas-2004, Diogo entrou para lutar vestindo uma luva dos Black Panthers (Panteras Negras, movimento de militantes negros norte-americanos do final da década de 60), mas o juiz não permitiu que a usasse. O objetivo era protestar contra a falta de apoio do esporte no país.

Todo ano de olímpiadas ou pan-americano é a mesma coisa: descobrem-se histórias como essa, mas nada muda. O Brasil continua sendo o país do futebol.

[Falando nisso, queimei minha língua: ao contrário do que eu pensava que aconteceria, a seleção do Dunga arrasou a Argentina. Vamos ter de agüentá-lo por mais um tempo.]

Eterna discussão

Nas últimas semanas, um assunto veio à tona, em conversas com amigos, mais de uma vez: letras de canções são poemas? Uma discussão que dá muito pano pra manga, principalmente se for à mesa de um bar, o local mais confortável para longos debates.

Transcrevo aqui um artigo do Antonio Cícero -poeta e letrista de canções da irmã Marina Lima, João Bosco, Lulu Santos, Adriana Calcanhoto, entre outros- publicado no caderno Ilustrada, Folha de São Paulo, em 16 de junho de 2007.

Letra de canção e poesia - Antonio Cícero

Como escrevo poemas e letras de canções, freqüentemente perguntam-me se acho que as letras de canções são poemas. A expressão "letra de canção" já indica de que modo essa questão deve ser entendida, pois a palavra "letra" remete à escrita. O que se quer saber é se a letra, separada da canção, constitui um poema escrito.

"Letra de canção é poema?" Essa formulação é inadequada. Desde que as vanguardas mostraram que não se pode determinar a priori quais são as formas lícitas para a poesia, qualquer coisa pode ser um poema. Se um poeta escreve letras soltas na página e diz que é um poema, quem provará o contrário?

Neste ponto, parece-me inevitável introduzir um juízo de valor. A verdadeira questão parece ser se uma letra de canção é um bom poema. Entretanto, mesmo esta última pergunta ainda não é suficientemente precisa, pois pode estar a indagar duas coisas distintas: 1) Se uma letra de canção é necessariamente um bom poema; e 2) Se uma letra de canção é possivelmente um bom poema.

Quanto à primeira pergunta, é evidente que deve ter uma resposta negativa. Nenhum poema é necessariamente um bom poema; nenhum texto é necessariamente um bom poema; logo, nenhuma letra é necessariamente um bom poema. Mas talvez o que se deva perguntar é se uma boa letra é necessariamente um bom poema. Ora, também a essa pergunta a resposta é negativa. Quem já não teve a experiência, em relação a uma letra de canção, de se emocionar com ela ao escutá-la cantada e depois considerá-la insípida, ao lê-la no papel, sem acompanhamento musical?

Não é difícil entender a razão disso. Um poema é um objeto autotélico, isto é, ele tem o seu fim em si próprio. Quando o julgamos bom ou ruim, estamos a considerá-lo independentemente do fato de que, além de ser um poema, ele tenha qualquer utilidade. O poema se realiza quando é lido: e ele pode ser lido em voz baixa, interna, aural. Já uma letra de canção é heterotélica, isto é, ela não tem o seu fim em si própria. Para que a julguemos boa, é necessário e suficiente que ela contribua para que a obra lítero-musical de que faz parte seja boa. Em outras palavras, se uma letra de canção servir para fazer uma boa canção, ela é boa, ainda que seja ilegível. E a letra pode ser ilegível porque não é feita para ser lida, mas ouvida, de modo que as questões que preocupam o letrista dizem respeito à prosódia isto é, à adaptação da letra à melodia, e ao diálogo daquela com a harmonia, o ritmo, o tom, o colorido da peça musical em questão: dizem respeito, isto é, não ao texto escrito, mas à ligação orgânica do discurso oral com a música da canção.

Mas isso, em última análise, ainda não é tudo. A letra se realiza na canção, mas a canção só se realiza plenamente quando interpretada, isto é, quando cantada e ouvida. Ora, como Luiz Tatit mostra em seu belíssimo livro "O Cancionista", "no mundo dos cancionistas não importa tanto o que é dito, mas a maneira de o dizer, e a maneira é essencialmente melódica". Será sem dúvida por isso que podemos perfeitamente apreciar cantores a cantar canções em línguas que não entendemos. E Tatit observa que, para João Gilberto, por exemplo, "o texto ideal é levemente dessemantizado, quase um pretexto para se percorrer os contornos melódicos dizendo alguma coisa (afinal, a voz, por ser voz, deve sempre dizer alguma coisa)". Em suma, uma boa letra de canção não é necessariamente um bom poema.

A resposta para a segunda pergunta, por outro lado -isto é, se uma letra de canção é possivelmente um bom poema- é evidentemente positiva. Os poemas líricos da Grécia antiga e dos provençais eram letras de canções. Perderam-se as músicas que os acompanhavam, de modo que só os conhecemos na forma escrita. Ora, muitos deles são considerados grandes poemas; alguns são enumerados entre os maiores que já foram feitos. Além disso, nada impede que um bom poema, quando musicado, se torne uma boa letra de canção.

Para dizer a verdade, o que nos intriga hoje é que haja tantos grandes poemas entre as letras gregas e provençais e tão poucos entre as modernas. Entretanto, a leitura do livro "Letra Só", de Caetano Veloso -que contém tantos grandes poemas que são também letras de canções-, fez-me pensar melhor sobre essa questão. Para o punhado de poemas de Safo, por exemplo, que nos chegaram, dentre os quais meia dúzia de obras-primas, quantos milhares de letras de canções não tiveram que ser escritos e esquecidos na Grécia antiga?


Realmente, uma eterna discussão. Particularmente, acho que o suporte do papel - e cada vez mais, o da tela - é o que mais enriquece a poesia. Quando lemos um poema, em silêncio ou em voz alta, não são mais as palavras do poeta que estamos lendo: elas já são as nossas palavras, já entraram em nossas mentes, beberam dos nossos sentimentos e quando saem de nós, estão impregnadas deles, sem volta. O mesmo poema é um poema diferente, dependendo de quem o lê e de quem o ouve. Essa é a verdadeira riqueza da poesia.

[Enquanto escrevia este post e lia um poema do Antonio Cícero, lembrei-me do jogo do Brasil e Argentina. Ligo a tevê e o Brasil já marcou um gol: inacreditável. O goleiro Doni acaba de fazer uma defesa espetacular. Constato que são coisas absolutamente incompatíveis: jogo contra a Argentina e poesia. Vamos ao jogo, então.]