sábado, 8 de setembro de 2007

um sábado único - e qualquer

MATINAL

Nesta manhã de sábado e de sol
em que o real das coisas se revela
na forma nada transcendente
de uma paisagem na janela

num momento captado em pleno vôo
pela discreta plenitude
de não ser mais que um par de olhos
parado no meio do mundo

tantas coisas se fazem conceber
fora do tempo e do espaço
até que o instante se dissolva
enfim em mil e um pedaços

feito esses furos de pregos
numa parede vazia
a insinuar uma constelação
isenta de qualquer mitologia.

[de Paulo Henriques Britto , in Tarde, 2007]


Há sempre um poema para um momento só nosso, que diz exatamente o que poderíamos dizer.
Seremos nós, humanos, tão iguais e previsíveis?

9 comentários:

John disse...

Cara gostei muito do blog, passarei a acompanhar, descobri lendo a respeito do magnifico lavoura arcaica. bacana. se quiser bater algum papo, é so entrar em contato.

Anderson Lucarezi disse...

ainda estou absorvendo o poema. volto pra comentar mais detalhadamente depois.
beijo,

Luca!

Ixra A. disse...

poema...
o que dizer sobre isso.?.

Anderson Lucarezi disse...

Adorei o subtítulo do blog : "A vista do alto é linda: o melhor é prender a respiração e aproveitar" !!

Quanto ao poema, ainda estou pensando, mas essa coisa de "não ser mais que um par de olhos
parado no meio do mundo" é algo muito forte, me toca muito, diz muito pra mim. Esse Paulo Henriques Britto deve ser bom mesmo!

Danilo disse...

Interessante pensar que ainda haja um eu-lírico que contemple, de sua janela, uma paisagem.

Myriam Kazue disse...

Danilo (que Danilo?),

Acho que a contemplação feita através de uma janela nunca deixará de existir - pelo menos enquanto existir uma janela.

É simbólico: como se estivéssemos, contraditoriamente, 'fora' do mundo, tentando olhar para ele com um certo distanciamento, não acha?

Anônimo disse...

Oi Myriam.
Escrevi outro dia sobre algo parecido.
Não que importe muito, mas vou colocar aqui...
Foi o que aconteceu naquele dia e me fez agradecer mais e mais e mais uma pessoa.

Deu um sentimento muito bonito e especial.
Busquei nas artes de outrem uma identidade, uma tradução.
Mas não achei.
Nem na poesia, nem na música, nem nas canções lindas e eruditas que musicam poemas, nem em prosa, nem em nada.
Nem em plástica. Nada.
Fiquei frustrada por um momento. Queria poder expressar de alguma forma mais bonita que a minha parquíssima capacidade permite, por isso busquei algo existente.
Após essa pequena frustração, sorri, e isso trouxe-me à mente a inocência e a pretensão de achar que não encontrei em meus artistas encantados por ser algo muito único e especial.
Mas ora, que seja! Não creio que seja pretensão e inocência.
Afinal, antes de egocentrismo ou de egolatria vem sempre a subjetividade e unicidade.
(E não levemos em conta que não busquei nos artistas que não me aprazem tanto.)

Portanto, tudo o que consigo expressar, não exatamente pela felicidade que me dá, não exatamente pelo revertério benéfico e pela calma que dá às minhas têmporas, é uma palavra de agradecimento, por me fazer perceber essa singularidade de ser quem sou, de ser quem é, e desse sentimento, esse espaço entre nós, ora quilométrico, ora milimétrico, essa beleza de compartilhar e entender antes mesmo de tentar ou intentar.
Obrigada.

Sinayoma disse...

Myriam, esse poema me lembrou o começo de "Viagens na minha Terra" do Gonçalvez Dias.O narrador começa a história no seu quarto, falando da janela e o Tejo e a sua viagem à Santarém!

Janelas são sempre janelas pra algum lugar..seja dentro da gente ou fora, no mundo!

O bom dessa via é que consigamos abrir muitas janelas! ;)

Diego Barreto Ivo disse...

Ah, obrigado pelo comentário :)

Eu pensei que tivesse largado, mas às vezes ela me pega pelo pé e quer me levar puxar pra baixo novamente. Uma hora dou a perna, outra o chute. E assim vamos levando!