segunda-feira, 23 de julho de 2007

não fosse isso

O mês de julho está findo. Sim, pois uma semana não é nada, inda mais quando é uma última semana.
Sinto um certo alívio, pela perspectiva de retomar as atividades acadêmicas, depois de mais de dois meses de paralisação. Meses em que, confesso, cultivei por demais os prazeres do ócio. Nestes, incluem-se - entre as atividades mencionáveis - leituras descompromissadas, puro deleite, navegações viciantes e sem rumo pela internet, espressos e Originais em ótimas companhias, noites sem dormir em maratonas de filmes dos Noitões do HSBC e - como não? - as postagens neste blogue.
As conseqüências da minha procrastinação crônica agora vêm à tona: tarefas acumuladas provocando um quase pânico. Quando irei aprender? Talvez nunca, mas a estiagem já começou.

E lembrando os versos de Leminski:

não fosse isso
e era menos
não fosse tanto
e era quase

Que venha logo agosto, mês dos cachorros loucos!

quarta-feira, 18 de julho de 2007

na velocidade - terrível - da queda






















São 2h10 e não sei se conseguirei dormir hoje. No meu quarto, a tevê está ligada há várias horas. Ela, que geralmente só tem a função de servir de apoio para livros, de tão ignorada. Mas esta noite não consegui tirar os olhos das imagens do acidente do Airbus da TAM, que se chocou contra o prédio da própria companhia, às 18h50, em São Paulo: uma ironia macabra, diria até.

Escrevo esse texto de chofre, quase como um relato, ainda tomada por um sentimento que é um misto de piedade e revolta pelo que aconteceu. Eu passava pela Av. Washington Luís por volta das 19h15, maldizendo a falta do rádio - não tive ainda tempo para instalar o som no novo carro. Dirigir sem ouvir música ou as últimas notícias pra mim é inconcebível, quase torturante: é como ficar numa sala de espera sem algo para ler.
Faço esse caminho quase todos os dias, de volta do trabalho, neste período de férias da faculdade. Estranhei a passagem de várias ambulâncias: dei passagem a quatro, pelo menos. Vi que algo grave devia ter acontecido. Mais à frente, quase chegando ao aeroporto, com o trânsito todo parado, a pista interditada. Ao longe, podia-se avistar o clarão do fogo. E eu, sem rádio no carro! - pensei novamente.

Segui o fluxo dos carros, meio perdida, sem saber que rumo tomar. Acabei saindo numa rua do supermercado Extra e resolvi entrar, sem nem saber por que. Fui direto ao setor dos aparelhos de tevê e soube por dezenas de telas o que havia acontecido.

Penso agora nas vítimas, nas histórias particulares de cada uma daquelas pessoas, que nos próximos dias preencherão as páginas dos jornais e cada vez mais me convenço de como a vida é frágil. E de como não temos controle algum sobre ela. Sim, eu sei: que clichê. Mas a verdade é que o presente é a única coisa com o que podemos contar.

domingo, 15 de julho de 2007

O Pantera do Pan















É raro eu ligar minha tevê. Mas hoje foi uma exceção: Pan 2007 e ainda a final da Copa América, Brasil e Argentina. Não tem como não acompanhar.

Emocionei-me com o choro e o depoimento de Diogo Silva, lutador de taekwondo, que ganhou a única medalha de ouro do Brasil até agora. De origem humilde, negro, feições muito bonitas, tranças dreadlocks, estilo agressivo, ele dominou o peruano o tempo todo na luta final. Após receber a medalha de ouro, muito aplaudido, aproveitou para desabafar e protestar: "Recebo só R$ 600,00 da Confederação (Brasileira de Taekwondo, oriundos da Lei Piva). Mas esse dinheiro atrasa e só recebemos a cada três meses. Nesse ano, fiz de tudo por essa medalha de ouro. Desembolsei do meu próprio bolso cinco mil reais para competir e treinar na Europa. Acreditava que precisava fazer o possível e o impossível por essa medalha de ouro". Nas Olimpíadas de Atenas-2004, Diogo entrou para lutar vestindo uma luva dos Black Panthers (Panteras Negras, movimento de militantes negros norte-americanos do final da década de 60), mas o juiz não permitiu que a usasse. O objetivo era protestar contra a falta de apoio do esporte no país.

Todo ano de olímpiadas ou pan-americano é a mesma coisa: descobrem-se histórias como essa, mas nada muda. O Brasil continua sendo o país do futebol.

[Falando nisso, queimei minha língua: ao contrário do que eu pensava que aconteceria, a seleção do Dunga arrasou a Argentina. Vamos ter de agüentá-lo por mais um tempo.]

Eterna discussão

Nas últimas semanas, um assunto veio à tona, em conversas com amigos, mais de uma vez: letras de canções são poemas? Uma discussão que dá muito pano pra manga, principalmente se for à mesa de um bar, o local mais confortável para longos debates.

Transcrevo aqui um artigo do Antonio Cícero -poeta e letrista de canções da irmã Marina Lima, João Bosco, Lulu Santos, Adriana Calcanhoto, entre outros- publicado no caderno Ilustrada, Folha de São Paulo, em 16 de junho de 2007.

Letra de canção e poesia - Antonio Cícero

Como escrevo poemas e letras de canções, freqüentemente perguntam-me se acho que as letras de canções são poemas. A expressão "letra de canção" já indica de que modo essa questão deve ser entendida, pois a palavra "letra" remete à escrita. O que se quer saber é se a letra, separada da canção, constitui um poema escrito.

"Letra de canção é poema?" Essa formulação é inadequada. Desde que as vanguardas mostraram que não se pode determinar a priori quais são as formas lícitas para a poesia, qualquer coisa pode ser um poema. Se um poeta escreve letras soltas na página e diz que é um poema, quem provará o contrário?

Neste ponto, parece-me inevitável introduzir um juízo de valor. A verdadeira questão parece ser se uma letra de canção é um bom poema. Entretanto, mesmo esta última pergunta ainda não é suficientemente precisa, pois pode estar a indagar duas coisas distintas: 1) Se uma letra de canção é necessariamente um bom poema; e 2) Se uma letra de canção é possivelmente um bom poema.

Quanto à primeira pergunta, é evidente que deve ter uma resposta negativa. Nenhum poema é necessariamente um bom poema; nenhum texto é necessariamente um bom poema; logo, nenhuma letra é necessariamente um bom poema. Mas talvez o que se deva perguntar é se uma boa letra é necessariamente um bom poema. Ora, também a essa pergunta a resposta é negativa. Quem já não teve a experiência, em relação a uma letra de canção, de se emocionar com ela ao escutá-la cantada e depois considerá-la insípida, ao lê-la no papel, sem acompanhamento musical?

Não é difícil entender a razão disso. Um poema é um objeto autotélico, isto é, ele tem o seu fim em si próprio. Quando o julgamos bom ou ruim, estamos a considerá-lo independentemente do fato de que, além de ser um poema, ele tenha qualquer utilidade. O poema se realiza quando é lido: e ele pode ser lido em voz baixa, interna, aural. Já uma letra de canção é heterotélica, isto é, ela não tem o seu fim em si própria. Para que a julguemos boa, é necessário e suficiente que ela contribua para que a obra lítero-musical de que faz parte seja boa. Em outras palavras, se uma letra de canção servir para fazer uma boa canção, ela é boa, ainda que seja ilegível. E a letra pode ser ilegível porque não é feita para ser lida, mas ouvida, de modo que as questões que preocupam o letrista dizem respeito à prosódia isto é, à adaptação da letra à melodia, e ao diálogo daquela com a harmonia, o ritmo, o tom, o colorido da peça musical em questão: dizem respeito, isto é, não ao texto escrito, mas à ligação orgânica do discurso oral com a música da canção.

Mas isso, em última análise, ainda não é tudo. A letra se realiza na canção, mas a canção só se realiza plenamente quando interpretada, isto é, quando cantada e ouvida. Ora, como Luiz Tatit mostra em seu belíssimo livro "O Cancionista", "no mundo dos cancionistas não importa tanto o que é dito, mas a maneira de o dizer, e a maneira é essencialmente melódica". Será sem dúvida por isso que podemos perfeitamente apreciar cantores a cantar canções em línguas que não entendemos. E Tatit observa que, para João Gilberto, por exemplo, "o texto ideal é levemente dessemantizado, quase um pretexto para se percorrer os contornos melódicos dizendo alguma coisa (afinal, a voz, por ser voz, deve sempre dizer alguma coisa)". Em suma, uma boa letra de canção não é necessariamente um bom poema.

A resposta para a segunda pergunta, por outro lado -isto é, se uma letra de canção é possivelmente um bom poema- é evidentemente positiva. Os poemas líricos da Grécia antiga e dos provençais eram letras de canções. Perderam-se as músicas que os acompanhavam, de modo que só os conhecemos na forma escrita. Ora, muitos deles são considerados grandes poemas; alguns são enumerados entre os maiores que já foram feitos. Além disso, nada impede que um bom poema, quando musicado, se torne uma boa letra de canção.

Para dizer a verdade, o que nos intriga hoje é que haja tantos grandes poemas entre as letras gregas e provençais e tão poucos entre as modernas. Entretanto, a leitura do livro "Letra Só", de Caetano Veloso -que contém tantos grandes poemas que são também letras de canções-, fez-me pensar melhor sobre essa questão. Para o punhado de poemas de Safo, por exemplo, que nos chegaram, dentre os quais meia dúzia de obras-primas, quantos milhares de letras de canções não tiveram que ser escritos e esquecidos na Grécia antiga?


Realmente, uma eterna discussão. Particularmente, acho que o suporte do papel - e cada vez mais, o da tela - é o que mais enriquece a poesia. Quando lemos um poema, em silêncio ou em voz alta, não são mais as palavras do poeta que estamos lendo: elas já são as nossas palavras, já entraram em nossas mentes, beberam dos nossos sentimentos e quando saem de nós, estão impregnadas deles, sem volta. O mesmo poema é um poema diferente, dependendo de quem o lê e de quem o ouve. Essa é a verdadeira riqueza da poesia.

[Enquanto escrevia este post e lia um poema do Antonio Cícero, lembrei-me do jogo do Brasil e Argentina. Ligo a tevê e o Brasil já marcou um gol: inacreditável. O goleiro Doni acaba de fazer uma defesa espetacular. Constato que são coisas absolutamente incompatíveis: jogo contra a Argentina e poesia. Vamos ao jogo, então.]

domingo, 8 de julho de 2007

caçando poemas na Paulista





Praia de paulistano é a Av. Paulista.
Sexta à noite, calor temporão de inverno, onde ir? Pra quem vive pensando - entre outras coisas tão boas quanto - em livros, a 'passadinha' na nova Livraria Cultura é programa obrigatório. E depois, quem sabe, um café ou uma cerveja na Augusta, que pseudo-intelectuais também sentem outras sedes.

Não resisti e comprei mais um livro de poesia: é difícil sair ilesa daquele mundo de tentações literárias. Há muito estava me devendo o "Toda Poesia", de Ferreira Gullar. Tá, já tenho três livros dele, duas antologias e o "Dentro da Noite Veloz". Mas não tinha "Toda Poesia", oras. E estava precisando dele, terrivelmente.

Procuro poemas o tempo todo. É quase um vício.
Pra quê? Não sei ainda. Talvez seja simples pretensão, como dito nas palavras de Ferreira Gullar:

Pretendo que a poesia tenha a virtude de, em meio ao sofrimento e o desamparo, acender uma luz qualquer, uma luz que não nos é dada, que não desce dos céus mas que nasce das mãos e do espírito dos homens.

Ou, pura ambição, como nos versos de Leminski:

vai vir o dia
quando tudo que eu diga
seja poesia

E vou parando por aqui: quero caçar mais uns poemas hoje.

sábado, 30 de junho de 2007

mais uma perda

O mundo não é justo, mesmo. Agora mais essa: o site NoMínimo sai do ar.

Sou uma entre os milhões de visitantes que se habituaram a dar sempre uma passadinha lá e ler com prazer suas colunas. É inevitável não me sentir roubada mais uma vez.

Dos colunistas, alguns eu lia religiosamente: Xico Sá, Sérgio Rodrigues (A palavra é...), Tutty Vasques, Arthur Dapieve, Zuenir Ventura, Fábio Rodrigues (Tocatudo - música), Ricardo Calil (Olha só - tv/cinema).

A epígrafe na coluna de Sérgio Rodrigues, com uma frase de Tom Stoppard (“Toda saída de algum lugar é uma entrada em outro.”), sugere que manterão sites individuais, o que não será a mesma coisa. A cumplicidade do coletivo virtual sempre deixa a frase mais solta, o texto mais sacana - no bom sentido. E tem aquele lance da camaradagem, que conforta nos momentos difíceis, em que as palavras custam a sair.

Espero que o projeto de um novo site nos mesmos moldes, com a mesma independência e qualidade, consiga vingar. Por via das dúvidas, só pra aproveitar um pouquinho mais os últimos momentos, fiquei hoje mais de três horas lendo o NoMínimo. E olhem que odeio despedidas.

quinta-feira, 28 de junho de 2007

as melhores do dia

Não ter assistido a derrota da seleção.
A persona que canta jingles antigos ("não adianta bater, eu não deixo você entrar..."), ao lado da Estação Trianon, em troca de uma moedinha na caixinha.
O espresso e o brownie do Vanilla Café.
O papo afinado com o Luca.

E a nota do Tutty Vasques:
"Já que perdeu ação na Justiça, Daniela Cicarelli deveria transformar sua volta ao YouTube num grande acontecimento. Quem sabe um novo vídeo... Ninguém agüenta mais assistir aquele da praia."

terça-feira, 26 de junho de 2007

sim



Nem estava uma noite bonita. Fui chegando e logo conferindo: estacionamento lotado, luzes na biblioteca (viva!), corredor externo cheio de gente. Entrei no prédio da Letras e, antes de descer as escadas, respirando fundo, pensei: sim, a greve acaba hoje. Quase todos - mesmo aqueles que, como eu, apoiaram a greve - estavam lá só para isso.

A assembléia, lotada, alternou momentos sérios e outros hilários. Como a negativa imediata e lacônica - e a carinha brava! - do Thiago, quando perguntado se aceitaria uma alternativa "com limite de inscritos" à proposta que ele colocara, de se votar imediatamente após os informes, sem a sucessão interminável de falastrices. Claro que foi a proposta que ganhou. Estão todos intoxicados de discursos.

O mais legal foi o encontro, o abraço apertado, a saudade amainada ao acariciar rostos amigos, fazer um 'oi' de longe, bem escandaloso. E a cumplicidade daquele momento. Como se disséssemos, ao mesmo tempo: "sim, queremos voltar, porque sentimos falta de tudo isso e porque aqui é o nosso lugar."

E sim, estou ficando cada vez mais sentimental. Este fato me preocupa. Outro dia, cheguei às lagrimas vendo as fotos de um álbum, no orkut. E nem tinha fotos minhas!

segunda-feira, 25 de junho de 2007

charles baudelaire (1821-1867)


À UNE PASSANTE

La rue assourdissante autour de moi hurlait.
Longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse,
Une femme passa, d'une main fastueuse
Soulevant, balançant le feston et l'ourlet;

Agile et noble, avec sa jambe de statue.
Moi, je buvais, crispé comme un extravagant,
Dans son oeil, ciel livide où germe l'ouragan,
La douceur qui fascine et le plaisir qui tue.

Un éclair... puis la nuit! -- Fugitive beauté
Dont le regard m'a fait soudainement renaître,
Ne te verrai-je plus que dans l'éternité?

Ailleurs, bien loin d'ici! trop tard! jamais peut-être!
Car j'ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais,
Ô toi que j'eusse aimée, ô toi qui le savais!

A UMA PASSANTE

Tradução de Guilherme de Almeida

A rua, em torno, era ensurdecedora vaia.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão vaidosa
Erguendo e balançando a barra alva da saia;

Pernas de estátua, era fidalga, ágil e fina.
Eu bebia, como um basbaque extravagante,
No tempestuoso céu do seu olhar distante,
A doçura que encanta e o prazer que assassina.

Brilho... e a noite depois! – Fugitiva beldade
De um olhar que me fez nascer segunda vez,
Não mais te hei de rever senão na eternidade?

Longe daqui! tarde demais! "nunca" talvez!
Pois não sabes de mim, não sei que fim levaste,
Tu que eu teria amado, ó tu que o adivinhaste!


Num próximo post, comentarei sobre o poema e sobre esta tradução de Guilherme de Almeida, mais antiga e considerada brilhante, melhor que a de Ivan Junqueira, da edição bilíngue de "As Flores do Mal", da Nova Fronteira.

domingo, 17 de junho de 2007

antónio

SE EU NÃO TE AMAR MAIS

Se eu não te amar mais me
Caia o mar nos ombros
Me caia
Este silêncio pelos ossos dentro
Me cegue os olhos esta sombra
Me cerre
Esta noite num escuro mais profundo
Do que a chuva de ti de mãos tão leves
A figueira do meu sangue se emudeça
De pássaros à espera dos teus passos
De outra voz por sobre a minha
Morta
E as ruas do teu corpo eu desaprenda
Como desaprendi os dedos que me tocam
E se eu não te amar mais me caia a casa
De costa no teu peito como o vento

(António Lobo Antunes, escritor e poeta português, 26 títulos publicados, traduzidos em 16 línguas)

O autor, em uma de suas entrevistas, justificando sua antiga fama de enfant terrible da literatura portuguesa, declarou em uma entrevista: "Custa-me conceber um poeta que nunca tenha feito amor. E às vezes quando leio certos prosadores portugueses, não têm esperma nenhum lá dentro, são tudo coisas que se passam dentro da cabeça. Pensam muito. E a literatura faz-se com palavras. "

Conhecia sua prosa densa e perturbadora, a alternar narradores, seus períodos intermináveis - que faz com que a leitura se torne compulsiva, como o próprio texto -, seus personagens sempre à beira de um colapso.

Leio agora a poesia de Lobo Antunes e, ao descobri-la, descubro o terno António, como uma vez ele se definiu.

dor de amar

Ontem lia um poema do Vinícius que fala sobre a dor de amar. Ele termina assim:

"Tanto tempo faz
tens um outro amor, eu sei

mas nunca terás
a dor a mais
como eu te dei
porque a dor a mais
só na paixão
com que eu te amei."


Nunca pensei que fosse me acostumar a conviver com essa dor.
Às vezes me distraio e ela me abandona. Parece que me falta algo, vou ver: é ela. Trato logo de resgatá-la, para que eu sinta meu coração bater novamente.

(30/11/05)


[relendo e-mails antigos, só pra sentir meu coração bater novamente]

quarta-feira, 13 de junho de 2007

no msn...

"bem, o que importa é q vc tem a nós e nós temos vc."

É muito bom ter amigos.
Um dia ainda vou achar que é melhor que sexo.

terça-feira, 12 de junho de 2007

impotência

O que se faz quando, ao chegar em casa, dois rapazes tiram você do carro à força e somem com o seu amigo de quatro rodas, em menos de um minuto?

Nada. Não dá pra fazer nada.

O pior de tudo, depois de passar 2 horas ao telefone bloqueando cartões, celular, falando com o seguro, o banco e o diabo a quatro... é ter de agradecer por ser só isso o que aconteceu. É neste mundo que vivemos.

Lembrei de um poema do Ferreira Gullar:

No mundo há muitas armadilhas
e o que é armadilha pode ser refúgio
e o que é refúgio pode ser armadilha
[...]
A vida é pouca
a vida é louca
mas não há senão ela
E não te mataste, essa é a verdade

Estás preso à vida como numa jaula.
Estamos todos presos
nesta jaula que Gagárin foi o primeiro a ver
de fora e nos dizer: é azul.
E já o sabíamos, tanto
que não te mataste e não vais
te matar
e agüentarás até o fim.

O certo é que nesta jaula há os que têm
e os que não têm
há os que têm tanto que sozinhos poderiam
alimentar a cidade
e os que não têm nem para o almoço de hoje
[...]
Há muitas armadilhas no mundo e é preciso quebrá-las.

[Ah... o melhor que eu faço é voltar pro meu Dostoiévski!]

sábado, 2 de junho de 2007

papo na cozinha

















Dizem que a cozinha é o melhor lugar pra se conversar numa casa. Concordo, se ela for grande, ventilada, como nas casas antigas, e se o papo não atrapalhar a concentração do cozinheiro. Acontece que a maioria das construtoras ainda coloca a conversa na sala e nas cozinhas dos apartamentos atuais é difícil ter espaço pra mais de duas pessoas. Mas existe lugar melhor pra falar mal da vida alheia, do governo ou do ex que uma cozinha bagunçada, com os vapores de uma feijoada ou uma moqueca borbulhando no fogão, enquanto se corta o limão da terceira caipirinha?

Eu adoro cozinhar, mas não tenho tido muito tempo pra isso. O pessoal de casa e os amigos tem me cobrado. Uma hora, a moqueca sai.

A grande questão quando se fala de moqueca é sempre o coentro. Um tempero que é um tipo de Cauby Peixoto: ou se ama, ou se odeia, não existe meio termo. A maioria dos verdadeiros paulistanos odeia coentro - não se sabe por que. Tanto que os restaurantes da cidade que servem esse prato não costumam exagerar, alguns até servem separado, cortadinho: coloca quem quer e não se fala mais nisso.

A minha moqueca é fácil de preparar. Nem me lembro de onde veio a receita. Provavelmente, como a maioria das receitas regionais que aprendi, saiu de algum livro e foi sendo modificada, depois de várias experimentações. E não vai coentro.
Primeiro, tempero o peixe com limão e pouco sal. Tem de ser um peixe de carne firme como o badejo, robalo ou cação, senão desmancha no cozimento; camarão e carne de caranguejo também ficam ótimos e neles só vai limão.
Depois faço o molho. Tiro a pele dos tomates, jogando em água fervente, até ela começar a se desprender, corto em quadradinhos, passando as sementes pela peneira. Cebola picada vai bastante, mas não vai alho, que não combina com peixe. Refogo a cebola em azeite de dendê, na mesma proporção do azeite de oliva, bem douradinho. Coloco os tomates e pimentões, que podem ser vermelhos e amarelos, cortados em rodelas. Reservo algumas rodelas pra cozinhar um pouco no final, sem desmanchar, elas enfeitam o prato. Tempero com sal, louro. Pra quem gosta de pimenta, como eu, pode usar da vermelha, fresca, bem cortadinha, quando for temperar o peixe, ou no final da preparação do molho. Quando o molho estiver bem apurado, coloco o peixe cortado em postas e deixo cozinhar coisa de 10, 15 minutos, é rápido. Se for colocar camarão, só no finalzinho, uns 3 minutos, senão ele endurece. Por último, com a moqueca borbulhando, coloco o leite de coco. Na hora de servir, jogo cheiro-verde bem picadinho por cima.

A quantidade dos ingredientes e o tempo do cozimento dependem do tamanho da moqueca: pra umas oito pessoas, eu calculo uns 2 quilos de peixe, 2 quilos de tomates, 6 pimentões e 2 garrafinhas de leite de coco. Na dúvida, sempre faço mais, porque a medida acaba sendo o meu olho ou a minha gula. E pra acompanhar, arroz branco e farofa de dendê amarelinha, que se faz refogando cebola picadinha no dendê e azeite de oliva, jogando depois a farinha de mandioca e misturando bem, sem deixar ficar seca.

A da foto, fumegando na panela de barro feita pelas paneleiras da comunidade de Goiabeiras, ES, ao lado da indefectível caipirinha e do camarãozinho frito, é uma inesquecível moqueca que comi em Vitória, no ano passado. Na receita capixaba não vai leite de coco nem dendê, diferença que é motivo de discussões homéricas entre baianos e capixabas. Eu não discuto, gosto das duas. O coentro da foto? Deixei de lado.

sexta-feira, 1 de junho de 2007

indignação













■ substantivo feminino
1 sentimento de cólera ou de desprezo experimentado diante de indignidade, injustiça, afronta; repulsa, revolta
2 Derivação: por extensão de sentido.
ira intensa; ódio, raiva

(fonte : Dicionário HOUAISS da Língua Portuguesa)

blue moon


Blue moon, you saw me standing alone
Without a dream in my heart
Without a love of my own

Blue moon, you know just what I was there for

You heard me saying a prayer for

Someone I really do care for
And then suddenly appeared before me
The only one my arms could ever hold
I heard somebody whisper please adore me
But when I looked that moon had turned to gold

Blue moon, now I'm no longer alone

Without a dream in my heart
Without a love of my own

(canção de Richard Rodgers & Lorenz Hart - 1934)

Hoje vi uma lua cheia escandalosa, de um brilho mágico, ao descer a Av. Morumbi: era a "Blue Moon", a segunda lua cheia do mês, fato que só acontece, em média, de dois em dois anos: a "lua azul". Li uma vez que o nome é, na verdade, impróprio, pois nenhuma alteração na costumeira coloração da lua e nem no luar ocorre de fato. Não importa, a magia existe - ficamos diferentes sob essa luz. Talvez por constatarmos a nossa pequenez, ao olhar algo que transcende nossa vida mesquinha, cotidiana. Ou simplesmente porque damos um tempo nela para tentar entender o mistério do universo e a beleza que existe nas coisas mais primitivas e simples, como uma linda lua cheia. Igual a essa, só em 2009, e nem sei se estarei por aqui para vê-la novamente. Mas hoje... eu a vi.

domingo, 27 de maio de 2007

Samurai malandro


















minhas 7 quedas

minha primeira queda
não abriu o pára-quedas

daí passei feito uma pedra
pra minha segunda queda

da segunda à terceira queda
foi um pulo que é uma seda

nisso uma quinta queda
pega a quarta e arremeda

na sexta continuei caindo
agora com licença
mais um abismo vem vindo

(de Paulo Leminski, em Caprichos e Relaxos)


Curitibano, nascido em 24 de agosto de 1944, neto de colonos poloneses, Paulo Leminski tinha orgulho de sua ascendência negra, por parte da mãe. No seminário, iniciou seus estudos de latim e grego, na década de 60 começa a estudar o japonês. Faixa-preta de judô, interessado na cultura oriental, fez de Haiku, livro de R. H. Blyth, em quatro volumes sobre o haicai japonês, o seu livro de cabeceira. Em 1963, conhece Haroldo de Campos e Décio Pignatari e estréia, no ano seguinte, com cinco poemas, na revista Invenção, espécie de porta-voz dos poetas concretos de São Paulo. Leminski tinha prazer pela polêmica, traço que, aliado ao humor de seus poemas, de certo modo aproximava sua personalidade à de Oswald de Andrade. Curtiu todos os aspectos sadiamente - ou não - irresponsáveis de sua geração, abandonou o curso de Direito no segundo ano e o de Letras, no primeiro, várias vezes. Morou em comunidades e sobreviveu como professor de cursinhos pré-vestibulares em Curitiba, lecionando Redação e História.

Na década de 70, trabalhava em agências de publicidade, editava e colaborava com revistas independentes, escrevia em jornais. Seu livro Catatau chama a atenção dos tropicalistas Caetano, Gil , Tom Zé e do novo baiano Moraes Moreira. Sua casa em Curitiba, onde morava com Alice Ruiz, também poeta, passa a ser freqüentada por eles e também por Gláuber Rocha, Jorge Mautner. Surgem parcerias musicais e na década de 80, Caetano grava "Verdura", com letra de Leminski; outras canções suas também aparecem em álbuns de Moraes Moreira e do grupo A Cor do Som.
1983 é o ano em que o mercado editorial finalmente lhe abre as portas: no mesmo ano, a editora Brasiliense publica três dos seus livros - os ensaios Cruz e Souza - O Negro Branco e Bashô - A Lágrima do Peixe, além do livro de poemas Caprichos e Relaxos, que estourou, vendeu muito, esgotando seguidas edições. Ao lado do sucesso de público, a crítica mais atenta confirmou o talento do autor.
Este livro, embora não deixe de ter poemas típicos da poesia marginal da década de 70, em que predominam a paródia e o non-sense, se afasta dela, na medida em que seus poemas sugerem uma transcendência histórica, o que não acontecia com a maior parte dos autores ditos "marginais", mais preocupados em tematizar o período histórico em que viviam. Outro diferencial é o cuidado artesanal com a linguagem, o uso da rima no final dos versos, que foi sendo deixado de lado desde o modernismo e que Leminski nunca deixou de utilizar em toda a sua obra.
Caprichos e Relaxos tem também poemas de forte influência concretista, além dos haicais, forma que atravessa toda a sua obra e que foram apresentados pela primeira vez nesse livro. Poeta, tradutor, rebelde, professor, jornalista, malandro e samurai, Leminski trata a palavra como um elemento lúdico, combinatório, armando jogos de sons e imagens. Nas palavras da Profª Leyla Perrone Moisés: "Leminski ganha a aposta do poema, ora por um golpe de espada, ora por um jogo de cintura. Tão rápido que nos pega de surpresa; quando menos se espera, o poema já está ali. E então o golpe ou a ginga que o produziu parece tão simples que é quase um desaforo. "

*as informações biográficas do texto foram retiradas do prefácio "Labirinto sem Limites", de Fred Góes e Álvaro Martins, para a antologia Melhores poemas de Paulo Leminski, São Paulo: Global, 2002.

Minha relação com Leminski é de paixão e, como toda paixão, exagerada, um tanto irracional.
Mas como ficar incólume ao ler versos que nos pegam... como esses:

a noite
me pinga uma estrela no olho
e passa
___________________________________________________

vídeos no YouTube, com aula e depoimentos de Paulo Leminski:

http://www.youtube.com/watch?v=O2Jf5RCyZYg&mode=related&search=
http://www.youtube.com/watch?v=T-iCzSsOZy4&mode=related&search=

sexta-feira, 25 de maio de 2007

pra começar...














Eu só acordo depois de um café. Dois, na verdade. E só começo a trabalhar depois do terceiro. Viciada... eu? Sim, mas somente em coisas essenciais. Como um café recém-tirado.

As pessoas, na minha opinião - se é que isto interessa a alguém - podem ser de dois tipos: as que gostam de café e as que ainda não gostam de café. É inevitável, faz parte do processo evolutivo do ser humano: tomar café.

Quando isto acontece, pode-se ouvir uma pessoa dizer, em encontros com amigos que estão no mesmo estágio de evolução - logo depois de comentar sobre diferentes grãos e blends com o jovem barista pelo qual ficou discretamente interessada: "e pensar que eu não gostava de café... não é curioso?"