quarta-feira, 19 de março de 2008

o amanhã


Oito e dez da noite, saída do metrô, escada rolante à frente, uma multidão. Encaro os degraus da escada central, vazia, a perder de vista - e desisto. Estivesse de tênis, ao menos.

O movimento mecânico de subida causa uma sensação de câmera lenta, o tempo quase parado, cenário a passar por mim bem devagar. Um rosto que se aproxima, em sentido contrário, repentinamente familiar. Traços delicados, fones de ouvido, cabelos compridos - presos? Um olhar, fração de segundo - e passa. Não me viro: receio de estar certa. Desejo de voltar, a escada parece acelerar, de novo a multidão, catracas - passo? Lembro dos amigos, o cinema: sempre, sempre atrasada.

Penso então nos deuses a brincar outra vez comigo, devem estar rindo pra valer. E, pela primeira vez, tento enganá-los. Oculto meu sorriso e cruzo a Paulista a passos largos, como se desse modo alcançasse mais rápido o dia de amanhã.

5 comentários:

Anderson Lucarezi disse...

a Crônica é um gênero literário pelo qual eu preciso me interessar mais.

vc, ainda que falando de outras coisas, está falando de são paulo, cidade que dá muito pano pra manga no âmbito da criação literária. sei que há muitas crônicas sobre sampa mas não me recordo de nenhum livro que reúna criações desse tipo (minto, o pête me mostrou um, certa vez, porém não lembro nome autor nada).

falando em crônicas, vc já leu "telefonema", do Oswald?

Myriam Kazue disse...

confesso que é uma grande falha minha, luca, não li ainda esse calhamaço de 800 págs do oswald.

quase comprei, junto com a biografia dele, da mª augusta fonseca, no relançamento das edições, que foi conjunto e ao qual planejava ir; depois, não deu pra ir e tal...

mas lerei.

Eduardo Akio disse...

A Paulista é um tabuleiro...

Petê disse...

Milhares de imagens numa fração de segundos. Essa é a São Paulo que eu conheço.

Amei. Beijos

David disse...

Fragmentos de pensamentos e de paisagens. Bonito. (tanto quanto a resposta do cidadão acima. Ou abaixo...sempre me confundo com isso.)