sexta-feira, 9 de novembro de 2007

horas mudas



Sem muito o que escrever, leio. Sem muito o que falar, ouço.

"Toco a sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade eleita por mim para desenhá-la por minha mão em teu rosto, e que por um acaso que não procuro compreender coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.

Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de ciclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os ciclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água."

[Cortázar, Julio - O jogo da amarelinha, tradução de Fernando de Castro Ferro, capítulo 7 - talvez o trecho mais conhecido do livro.]


Cortázar, lendo este trecho: ouça aqui.

2 comentários:

Diego disse...

POxa, My...que prazer eu tive em reler esse trecho de "La rayuela"
Esse é um dos meus livros preferidos.
O capitulo 7, é muito bonito, existem imagens fortes e envolventes.
Acho que vocÊ não poderia ter postado coisa melhor!
Me deu vontade de reler, e acho que farei isso mesmo!
Mas que voz que tem o Cortazar, não. Esse audio está muto bom, e bem claro, porque ele está lendo.
Nas entrevistas que já vi e ouvi, ele tem uma fala meio ruidosa, mas aqui, puxa, é uma linda leitura!

ai ai...

:o)

Anderson Lucarezi disse...

Achei lindo!
Esses argentinos surpreendem mesmo!

Depois de ler o conto "Continuidade dos Parques", compreendi melhor a importância da forma na literatura; um enredo banal exposto de um modo incrivelmente envolvente e polêmico.

Enfim, Cortázar é bem bacana! Espero poder ler "O Jogo da Amarelinha" em breve, entrará na fila.

beijo no coração, My!

Anderson.