sábado, 8 de setembro de 2007
um sábado único - e qualquer
Nesta manhã de sábado e de sol
em que o real das coisas se revela
na forma nada transcendente
de uma paisagem na janela
num momento captado em pleno vôo
pela discreta plenitude
de não ser mais que um par de olhos
parado no meio do mundo
tantas coisas se fazem conceber
fora do tempo e do espaço
até que o instante se dissolva
enfim em mil e um pedaços
feito esses furos de pregos
numa parede vazia
a insinuar uma constelação
isenta de qualquer mitologia.
[de Paulo Henriques Britto , in Tarde, 2007]
Há sempre um poema para um momento só nosso, que diz exatamente o que poderíamos dizer.
Seremos nós, humanos, tão iguais e previsíveis?
sábado, 1 de setembro de 2007
a lolita de vinicius
Se bem que foi nessa década que se popularizaram as drogas - revolucionando a arte e o comportamento social - e a pílula anticoncepcional, esta mudando até as relações de trabalho, muito além do sexo. Foram também os terríveis anos da Guerra do Vietnã, com os EUA usando o napalm contra populações civis. Ah! e o golpe de 64? Bem, pensando bem, não foi uma década tão inocente assim.
O texto de Vinicius - uma delícia de texto - me fez sentir uma certa nostalgia. Mas não me venham dizer que aqueles tempos é que eram legais. O hoje é sempre melhor.
BROTINHO INDÓCIL
— Mas eu nunca vou à cidade, minha filha. Porque é que você não toma juízo e não esquece essa bobagem...
A resposta vinha clara, prática, persuasiva:
— Olha que eu sou um broto muito bonitinho... E depois, não é nada do que você pensa não, seu bobo. Eu quero só que você autografe para mim a sua "Antologia Poética", morou?
Morar eu morava. É danadamente difícil ser indelicado com uma mulher, sobretudo quando já se facilitou um bocadinho. Aventei a hipótese:
— Mas. . . e se você for um bagulho horrível? Não é chato para nós ambos?
A risada veio límpida como a própria verdade enunciada:
— Sou uma gracinha.
Mnhum - mnhum. Comecei a sentir-me nojento, uma espécie de Nabokov "avant-la-lettre", com aquela Lolita de araque a querer arrastar-me para o seu mundo de ninfete. Não, resistiria.
— Adeus. Vê se não telefona mais, por favor. . .
— Adeus. Espero você às 4, diante da ABI. Quando você vir um brotinho lindo você sabe que sou eu. Você, eu conheço. Tenho até retratos seus. . .
Não fui, é claro. Mas o telefone no dia seguinte tocou.
— Ingrato . . .
— Onde é que você mora, hein?
— Na Tijuca. Por quê?
— Por nada. Você não desiste, não é?
— Nem morta.
— Está bem. São 3 da tarde; às 4 estarei na porta da ABI. Se quiser dar o bolo, pode dar. Tenho de toda maneira que ir à cidade.
— Malcriado. . . Você vai cair duro quando me vir.
Desta vez fui. E qual não é minha surpresa quando, às 4 em ponto, vejo aproximar-se de mim a coisinha mais linda do mundo: um pouco mais de um metro e meio de mulherzinha em uniforme colegial, saltos baixos e rabinho de cavalo, rosto lavado, olhos enormes: uma graça completa. Teria, no máximo, 13 anos. Apresentou-me sorridente o livro:
— Põe uma coisa bem bonitinha para mim, por favor?...
E como eu lhe respondesse ao sorriso:
— Então, está desapontado?
Escrevi a dedicatória sem dar-lhe trela. Ela leu atentamente, teve um muxoxo:
— Ih, que sério . . .
Embora morto de vontade de rir, contive-me para retorquir-lhe:
— É, sou um homem sério. E daí?
O "e daí" é que foi a minha perdição. Seus olhos brilharam e ela disse rápido:
— Daí que os homens sérios podem muito bem levar brotinhos ao cinema...
Olhei-a com um falso ar severo:
— Você está vendo aquele Café ali? Se você não desaparecer daqui imediatamente eu vou àquele Café, ligo para sua mãe ou seu pai e digo para virem buscar você aqui de chinelo, você está ouvindo? De chinelo!
Ela me ouviu, parada, um arzinho meio triste como o de uma menina a quem não se fez a vontade. Depois disse, devagar, olhando-me bem nos olhos:
— Você não sabe o que está perdendo. . .
E saiu em frente, desenvolvendo, para o lado da Avenida.
In Para uma menina com uma flor. Rio de Janeiro: Edit. do Autor, 1966.
domingo, 26 de agosto de 2007
a vida às vezes é doce
Quem me conhece sabe que troco qualquer programa por outro que envolva música. E nem precisa me conhecer bem, pra saber que sou tiete do Lobão: basta ver o nome do blogue.
Domingo apertado, muito trabalho acumulado, mas tinha show - do Lobão! E ao meio-dia, o que não combina muito com ele - nem comigo. Eu fui, claro.
Foi muito legal: ele é uma figuraça. Além de sempre ter gostado muito de suas músicas, admiro sua coragem e independência. E o fato de ter sobrevivido. Muitos artistas da geração dele, como seus parceiros Júlio Barroso e Cazuza, não o conseguiram.
Mas ele está aí, mais vivo que nunca e com uma energia incrível. Como nos velhos tempos. Tempos de que a letra de “Vou te levar” me faz lembrar:
Pensar em tudo que se passou, que se pôde sonhar e não realizou
A vida tentando escapar, mas não por agora
Ao mesmo tempo tanta coisa se amou, se refez, se perdeu, se conquistou,
Retratos estampados do nosso amor, em preto e branco, pregados na parede,
Revelando pra sempre a gente, nosso orgulho um do outro, olhando pra lente
como quem dissesse "não queremos mais nada nesse mundo"
e que me lembrasse a cada instante que valeu a pena cada lance
e valerá, tenha certeza, pra toda a vida.
Vou levar, vou te levar
pra onde for, vou te levar
Aos que o criticam de ter se rendido ao mainstream, por ter feito o Acústico na MTV e ter voltado ao esquema profissional das gravadoras, ele tem uma resposta pronta, da qual fazem parte alguns palavrões impublicáveis. É isso aí, cara.
domingo, 19 de agosto de 2007
eu não ia postar hoje
Leio sempre o Digestivo Cultural - revista cultural eletrônica que alcança o impressionante número de 339 mil leitores no mês - mas confesso que nunca consigo degustá-lo integralmente: a eterna questão da falta de tempo. Só fui ler o post um mês depois.
Considero-me ainda uma alienígena nessa blogosfera: caí aqui nem sei como, há uns três meses, e ainda estou reconhecendo o terreno, aprendendo como caminhar nesta gravidade um tanto diferente. Mas já deu pra sacar que uma das coisas mais legais é a via de comunicação que se estabelece entre blogueiros e leitores, muitos destes também blogueiros. Mesmo no meio de um trabalho de Francês, dentro de uma madrugada fria e deliciosamente silenciosa, a gente sente uma energiazinha vindo pelo ar.
E eu nem ia postar hoje.
domingo, 12 de agosto de 2007
a literatura é importante?

Não há no cenário literário brasileiro dos últimos quarenta anos um nome mais significativo que o de Raduan Nassar. Com apenas dois livros, Lavoura Arcaica (1975) e Um Copo de Cólera (1978), Nassar arrebatou vários prêmios literários e ganhou o respeito da crítica como um escritor de importância comparável à de Guimarães Rosa, Rubem Fonseca e Clarice Lispector. Publicados também na França, Alemanha e Espanha, seus livros trazem elementos da literatura clássica mesclando a dramaticidade desta com os da tradição brasileira e universal. O texto de grande força e densidade poética cria imagens ora intimistas, ora impactantes, e essa característica, aliada à visão e direção talentosa de Luiz Fernando de Carvalho, talvez explique o sucesso que a adaptação de Lavoura Arcaica fez no cinema.
Lavoura Arcaica possui a característica comum a toda grande obra de arte: a de nunca se esgotar. Passados 32 anos de sua publicação é, sem dúvida, um clássico e comprova sua força, à medida que ao longo dos anos vem criando possibilidades múltiplas de análises e estudos. No seu sentido dramático, filia-se à grande tradição que deu origem a obras como Édipo Rei e Hamlet. Ao mergulhar nas profundezas do inconsciente, nos vãos escuros da família, extrapolando-os à civilização ou à não-civilização que a rodeia, o autor consegue, partindo de um plano rural e particular, atingir o universal.
A trajetória de Nassar como escritor, no entanto, foi meteórica. Em 1984, então com 48 anos, ele comprou a fazenda Lagoa do Sino, perto da cidade de Buri, a 250 quilômetros de São Paulo e passou a se dedicar ao cultivo de arroz, milho e feijão. Espantou a todos, logo em seguida, ao anunciar que iria parar de escrever. "Estou dando uma virada radical na minha vida e começo a me perguntar como é que pude entrar por esse cano da literatura. Minha cabeça fervilha com outras coisas, ando às voltas com agricultura e pecuária, procurando me enfronhar sobre tratores e implementos. Tudo isso que nada tem a ver com o pasto das idéias", declarou na época, em um de seus raros depoimentos. "Em termos estruturais, não considero o processo de invenção da literatura diferente do processo de invenção em outros campos da atividade humana. Já disse que qualquer indivíduo, a menos que seja bloqueado pelas condições de vida, é capaz de inventar, que inventar não é exclusivo de uns poucos", justificou em 1992. Alfinetou ainda os que lhe exigiam novas produções. "Não existem só os pedantes que se perdem num cipoal de palavras para dizer ninharias, existem também orelhas prolixas, sempre dispostas a ouvir as maiores lorotas."
Volta e meia nos deparamos com essa questão: a literatura é tão importante assim, como fazemos questão de alardear? As grandes obras são capazes de mudar vidas - mudou a minha, prometo que qualquer dia conto essa história -, mudar até a história de nações e muitos compartilham dessa opinião. Mas parece que alguns escritores acreditam que tão ou mais importante que a literatura é a vida real: criar bois, plantar milho, lutar em uma revolução. Escrever é um ato angustiante demais, ao qual poucos conseguem sobreviver? Ou seria tão banal quanto regar um jardim ou lavar pratos, que podemos simplesmente optar por não fazê-lo mais? Eu o vejo como uma paixão, que arrebata e consome. Como começa e por que termina, difícil explicar. Essa contradição é que faz da literatura um mistério insondável e fascinante.
Em 1997, a Companhia das Letras reuniu em um livro entitulado Menina a Caminho, cinco narrativas curtas que, com exceção de um texto inédito - Mãozinhas de Seda, produzido em 1996 -, foram todas escritas por Raduan Nassar nas décadas de 60 e 70. É desse livro que extraí o conto Aí Pelas Três da Tarde, bem diferente do estilo denso e dramático de Lavoura Arcaica. O conto sugere o escape do previsível, a recusa das situações confortáveis e asfixiadas pelo tédio.
AÍ PELAS TRÊS DA TARDE
Nesta sala atulhada de mesas, máquinas e papéis, onde invejáveis escreventes dividiram entre si o bom senso do mundo, aplicando-se em idéias claras apesar do ruído e do mormaço, seguros ao se pronunciarem sobre problemas que afligem o homem moderno (espécie da qual você, milenarmente cansado, talvez se sinta um tanto excluído), largue tudo de repente sob os olhares a sua volta, componha uma cara de louco quieto e perigoso, faça os gestos mais calmos quanto os tais escribas mais severos, dê um largo "ciao" ao trabalho do dia, assim como quem se despede da vida, e surpreenda pouco mais tarde, com sua presença em hora tão insólita, os que estiveram em casa ocupados na limpeza dos armários, que você não sabia antes como era conduzida. Convém não responder aos olhares interrogativos, deixando crescer, por instantes, a intensa expectativa que se instala. Mas não exagere na medida e suba sem demora ao quarto, libertando aí os pés das meias e dos sapatos, tirando a roupa do corpo como se retirasse a importância das coisas, pondo-se enfim em vestes mínimas, quem sabe até em pêlo, mas sem ferir o decoro (o seu decoro, está claro), e aceitando ao mesmo tempo, como boa verdade provisória, toda mudança de comportamento. Feito um banhista incerto, assome em seguida no trampolim do patamar e avance dois passos como se fosse beirar um salto, silenciando de vez, embaixo, o surto abafado dos comentários. Nada de grandes lances. Desça, sem pressa, degrau por degrau, sendo tolerante com o espanto (coitados!) dos pobres familiares, que cobrem a boca com a mão enquanto se comprimem ao pé da escada. Passe por eles calado, circule pela casa toda como se andasse numa praia deserta (mas sempre com a mesma cara de louco ainda não precipitado) e se achegue depois, com cuidado e ternura, junto à rede languidamente envergada entre plantas lá no terraço. Largue-se nela como quem se larga na vida, e vá ao fundo nesse mergulho: cerre as abas da rede sobre os olhos e, com um impulso do pé (já não importa em que apoio), goze a fantasia de se sentir embalado pelo mundo.
(in "Menina a Caminho", Companhia das Letras - São Paulo, 1997)
Leia também - se puder escapar do tédio - o conto Hoje de Madrugada, do mesmo livro: um relato contundente do fim de uma relação onde os gestos imaginados, os silêncios sugeridos, aquilo que não é dito, competem em densidade dramática com as palavras realmente ditas. É mágico. Torço para que Raduan Nassar volte a fazer literatura, entre as safras de milho do seu sítio.
[foto de Raduan: publicada em Cadernos de Literatura Brasileira, Instituto Moreira Salles, nº 2, setembro 1996]
sábado, 4 de agosto de 2007
o verdadeiro sentido
GUARDAR
Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.
(Antonio Cícero)
sábado, 28 de julho de 2007
vozes femininas

Tenho fases. Todos têm fases, acho eu. Bem, talvez Bentinho, de Dom Casmurro, não as tivesse, irredutível até o final em sua casmurrice. Já a indecifrável Capitu, quem pode dizer?
Essa introdução bobinha é só pra dizer que estou numa fase de cantoras. Fase musical, convém esclarecer. Há um tempo atrás, - e quando digo tempo, estou dizendo muito tempo: anos, décadas - eu só gostava de cantores. Sei lá a razão dessa fixação masculina. Talvez por que naquela época, de vozes femininas, bastavam e sobravam as da minha família: três irmãs, mãe, tias, primas, na maioria das vezes falando e cantando ao mesmo tempo.
Quando eu me trancava no quarto e colocava um LP (o vinil) no toca-discos, queria ouvir uma voz masculina, um vocalista de uma banda de rock, ou mesmo um tom grave e calmo em uma canção de jazz. Não era pela ausência de boas cantoras, mas eu gostava mesmo dos cantores: Elton John, Joe Cocker, Eric Clapton, Rod Stewart, Lennon & McCartney. E os vocalistas como Jon Anderson (Yes), Phil Collins (Genesis), Roger Waters (Pink Floyd), Robert Plant (Led Zeppelin), Freddie Mercury (Queen) refletiam quão masculino - pelo menos na certidão de nascimento - era o território do rock.
Quando passei a morar sozinha, uma das melhores coisas era colocar o som bem alto e não ter alguém pra reclamar. Acho que tive sorte, os vizinhos do apartamento ao lado deviam ser surdos ou então, tinham o mesmo gosto musical que eu: nunca se queixaram das canções de Sting, George Michael, Chet Baker, João Gilberto, Tim Maia, Chico Buarque ou Lobão, tocadas a todo volume.
Foi a época do boom dos cd's. Eu vivia nas lojas, ouvindo os álbuns, antes de comprá-los - não existiam kazaas e e-mules para facilitar a vida da gente. O dinheiro do salário era contado e separando o que ia para as despesas da casa não sobrava muito para cd's. Mas eu sempre acabava comprando algum quando entrava na Hi-Fi do Iguatemi, naquele tempo um shopping bacana para a classe média, onde ainda se podia comprar uma bolsa ou um par de sapatos sem deixar dez salários mínimos numa loja. Mesmo assim, eu continuava passando longe da seção das cantoras.
Não sei quando isso começou a mudar. Só me dei conta há pouco tempo que hoje passo a maior parte do dia ouvindo canções interpretadas por... mulheres! Francesas, como Charlotte Gainsbourg, Coralie Clément, Keren Ann e Françoise Hardy ou inglesas, como Corinne Bailey Rae e Joss Stone. Redescobri Sarah Vaugham, Nina Simone, Annie Lennox, Gal Costa, Bebel Gilberto. Voltei à Elis, à Rosa Passos. Talvez um terapeuta diga que "comecei ouvir a mim mesma e que essas figuras femininas são como porta-vozes daquilo que sempre quis exteriorizar" - ah... acho que comecei a divagar.
O fato é que a cada dia admiro mais as interpretações femininas. A mais recente descoberta foi a brasileira de raízes cubanas Marina de la Riva, cujo cd é um primor. É dela que quero falar um pouco mais. Foi o amigo Thiago Candido - garimpador incansável de discografias - quem me mandou o link para baixar o álbum, tão logo ele foi lançado. Se estivéssemos ainda nos tempos dos LP’s, eu diria que estou 'furando o disco' de tanto escutá-lo.
A faixa que resume o álbum, e talvez por isso o apresente, é a primeira: Tin tin deo, uma saborosa rumba misturada ao Xote das meninas, de Luiz Gonzaga. No meio de tudo, o arranjo genial, que tem até berimbau: demais. Maravilhosas as românticas, Tengo un nuevo amor e Drume negrita. E Si llego a besarte é puro Chet Baker! Não faltam participações de artistas cubanos e de brasileiros: Chico Buarque dá o seu aval na faixa Ojos Malignos, o guitarrista e divo Davi Moraes toca em várias músicas, além de assinar os arranjos. As recriações de Sonho meu e Ta-hí têm uma marca bem pessoal, completamente na contramão das originais. Gosto muito desse diálogo entre diferentes gêneros e épocas. Difícil saber qual faixa é a melhor.
Vale a pena ver os vídeos da Marina no Youtube, como também baixar ou comprar o cd. E depois, ouvir a todo volume. A não ser que seus vizinhos reclamem, claro.
quarta-feira, 25 de julho de 2007
por que Portugal merece o meu respeito
E nós temos - equivalente não seria o termo - quem? Daniel Piza, talvez.
Leiam. Nem preciso comentar.
segunda-feira, 23 de julho de 2007
não fosse isso
Sinto um certo alívio, pela perspectiva de retomar as atividades acadêmicas, depois de mais de dois meses de paralisação. Meses em que, confesso, cultivei por demais os prazeres do ócio. Nestes, incluem-se - entre as atividades mencionáveis - leituras descompromissadas, puro deleite, navegações viciantes e sem rumo pela internet, espressos e Originais em ótimas companhias, noites sem dormir em maratonas de filmes dos Noitões do HSBC e - como não? - as postagens neste blogue.
As conseqüências da minha procrastinação crônica agora vêm à tona: tarefas acumuladas provocando um quase pânico. Quando irei aprender? Talvez nunca, mas a estiagem já começou.
E lembrando os versos de Leminski:
Que venha logo agosto, mês dos cachorros loucos!
quarta-feira, 18 de julho de 2007
na velocidade - terrível - da queda

São 2h10 e não sei se conseguirei dormir hoje. No meu quarto, a tevê está ligada há várias horas. Ela, que geralmente só tem a função de servir de apoio para livros, de tão ignorada. Mas esta noite não consegui tirar os olhos das imagens do acidente do Airbus da TAM, que se chocou contra o prédio da própria companhia, às 18h50, em São Paulo: uma ironia macabra, diria até.
Escrevo esse texto de chofre, quase como um relato, ainda tomada por um sentimento que é um misto de piedade e revolta pelo que aconteceu. Eu passava pela Av. Washington Luís por volta das 19h15, maldizendo a falta do rádio - não tive ainda tempo para instalar o som no novo carro. Dirigir sem ouvir música ou as últimas notícias pra mim é inconcebível, quase torturante: é como ficar numa sala de espera sem algo para ler.
Faço esse caminho quase todos os dias, de volta do trabalho, neste período de férias da faculdade. Estranhei a passagem de várias ambulâncias: dei passagem a quatro, pelo menos. Vi que algo grave devia ter acontecido. Mais à frente, quase chegando ao aeroporto, com o trânsito todo parado, a pista interditada. Ao longe, podia-se avistar o clarão do fogo. E eu, sem rádio no carro! - pensei novamente.
Segui o fluxo dos carros, meio perdida, sem saber que rumo tomar. Acabei saindo numa rua do supermercado Extra e resolvi entrar, sem nem saber por que. Fui direto ao setor dos aparelhos de tevê e soube por dezenas de telas o que havia acontecido.
Penso agora nas vítimas, nas histórias particulares de cada uma daquelas pessoas, que nos próximos dias preencherão as páginas dos jornais e cada vez mais me convenço de como a vida é frágil. E de como não temos controle algum sobre ela. Sim, eu sei: que clichê. Mas a verdade é que o presente é a única coisa com o que podemos contar.
domingo, 15 de julho de 2007
O Pantera do Pan

É raro eu ligar minha tevê. Mas hoje foi uma exceção: Pan 2007 e ainda a final da Copa América, Brasil e Argentina. Não tem como não acompanhar.
Emocionei-me com o choro e o depoimento de Diogo Silva, lutador de taekwondo, que ganhou a única medalha de ouro do Brasil até agora. De origem humilde, negro, feições muito bonitas, tranças dreadlocks, estilo agressivo, ele dominou o peruano o tempo todo na luta final. Após receber a medalha de ouro, muito aplaudido, aproveitou para desabafar e protestar: "Recebo só R$ 600,00 da Confederação (Brasileira de Taekwondo, oriundos da Lei Piva). Mas esse dinheiro atrasa e só recebemos a cada três meses. Nesse ano, fiz de tudo por essa medalha de ouro. Desembolsei do meu próprio bolso cinco mil reais para competir e treinar na Europa. Acreditava que precisava fazer o possível e o impossível por essa medalha de ouro". Nas Olimpíadas de Atenas-2004, Diogo entrou para lutar vestindo uma luva dos Black Panthers (Panteras Negras, movimento de militantes negros norte-americanos do final da década de 60), mas o juiz não permitiu que a usasse. O objetivo era protestar contra a falta de apoio do esporte no país.
Todo ano de olímpiadas ou pan-americano é a mesma coisa: descobrem-se histórias como essa, mas nada muda. O Brasil continua sendo o país do futebol.
[Falando nisso, queimei minha língua: ao contrário do que eu pensava que aconteceria, a seleção do Dunga arrasou a Argentina. Vamos ter de agüentá-lo por mais um tempo.]
Eterna discussão
Transcrevo aqui um artigo do Antonio Cícero -poeta e letrista de canções da irmã Marina Lima, João Bosco, Lulu Santos, Adriana Calcanhoto, entre outros- publicado no caderno Ilustrada, Folha de São Paulo, em 16 de junho de 2007.
Letra de canção e poesia - Antonio Cícero
Como escrevo poemas e letras de canções, freqüentemente perguntam-me se acho que as letras de canções são poemas. A expressão "letra de canção" já indica de que modo essa questão deve ser entendida, pois a palavra "letra" remete à escrita. O que se quer saber é se a letra, separada da canção, constitui um poema escrito.
"Letra de canção é poema?" Essa formulação é inadequada. Desde que as vanguardas mostraram que não se pode determinar a priori quais são as formas lícitas para a poesia, qualquer coisa pode ser um poema. Se um poeta escreve letras soltas na página e diz que é um poema, quem provará o contrário?
Neste ponto, parece-me inevitável introduzir um juízo de valor. A verdadeira questão parece ser se uma letra de canção é um bom poema. Entretanto, mesmo esta última pergunta ainda não é suficientemente precisa, pois pode estar a indagar duas coisas distintas: 1) Se uma letra de canção é necessariamente um bom poema; e 2) Se uma letra de canção é possivelmente um bom poema.
Quanto à primeira pergunta, é evidente que deve ter uma resposta negativa. Nenhum poema é necessariamente um bom poema; nenhum texto é necessariamente um bom poema; logo, nenhuma letra é necessariamente um bom poema. Mas talvez o que se deva perguntar é se uma boa letra é necessariamente um bom poema. Ora, também a essa pergunta a resposta é negativa. Quem já não teve a experiência, em relação a uma letra de canção, de se emocionar com ela ao escutá-la cantada e depois considerá-la insípida, ao lê-la no papel, sem acompanhamento musical?
Não é difícil entender a razão disso. Um poema é um objeto autotélico, isto é, ele tem o seu fim em si próprio. Quando o julgamos bom ou ruim, estamos a considerá-lo independentemente do fato de que, além de ser um poema, ele tenha qualquer utilidade. O poema se realiza quando é lido: e ele pode ser lido em voz baixa, interna, aural. Já uma letra de canção é heterotélica, isto é, ela não tem o seu fim em si própria. Para que a julguemos boa, é necessário e suficiente que ela contribua para que a obra lítero-musical de que faz parte seja boa. Em outras palavras, se uma letra de canção servir para fazer uma boa canção, ela é boa, ainda que seja ilegível. E a letra pode ser ilegível porque não é feita para ser lida, mas ouvida, de modo que as questões que preocupam o letrista dizem respeito à prosódia isto é, à adaptação da letra à melodia, e ao diálogo daquela com a harmonia, o ritmo, o tom, o colorido da peça musical em questão: dizem respeito, isto é, não ao texto escrito, mas à ligação orgânica do discurso oral com a música da canção.
Mas isso, em última análise, ainda não é tudo. A letra se realiza na canção, mas a canção só se realiza plenamente quando interpretada, isto é, quando cantada e ouvida. Ora, como Luiz Tatit mostra em seu belíssimo livro "O Cancionista", "no mundo dos cancionistas não importa tanto o que é dito, mas a maneira de o dizer, e a maneira é essencialmente melódica". Será sem dúvida por isso que podemos perfeitamente apreciar cantores a cantar canções em línguas que não entendemos. E Tatit observa que, para João Gilberto, por exemplo, "o texto ideal é levemente dessemantizado, quase um pretexto para se percorrer os contornos melódicos dizendo alguma coisa (afinal, a voz, por ser voz, deve sempre dizer alguma coisa)". Em suma, uma boa letra de canção não é necessariamente um bom poema.
A resposta para a segunda pergunta, por outro lado -isto é, se uma letra de canção é possivelmente um bom poema- é evidentemente positiva. Os poemas líricos da Grécia antiga e dos provençais eram letras de canções. Perderam-se as músicas que os acompanhavam, de modo que só os conhecemos na forma escrita. Ora, muitos deles são considerados grandes poemas; alguns são enumerados entre os maiores que já foram feitos. Além disso, nada impede que um bom poema, quando musicado, se torne uma boa letra de canção.
Para dizer a verdade, o que nos intriga hoje é que haja tantos grandes poemas entre as letras gregas e provençais e tão poucos entre as modernas. Entretanto, a leitura do livro "Letra Só", de Caetano Veloso -que contém tantos grandes poemas que são também letras de canções-, fez-me pensar melhor sobre essa questão. Para o punhado de poemas de Safo, por exemplo, que nos chegaram, dentre os quais meia dúzia de obras-primas, quantos milhares de letras de canções não tiveram que ser escritos e esquecidos na Grécia antiga?
Realmente, uma eterna discussão. Particularmente, acho que o suporte do papel - e cada vez mais, o da tela - é o que mais enriquece a poesia. Quando lemos um poema, em silêncio ou em voz alta, não são mais as palavras do poeta que estamos lendo: elas já são as nossas palavras, já entraram em nossas mentes, beberam dos nossos sentimentos e quando saem de nós, estão impregnadas deles, sem volta. O mesmo poema é um poema diferente, dependendo de quem o lê e de quem o ouve. Essa é a verdadeira riqueza da poesia.
domingo, 8 de julho de 2007
caçando poemas na Paulista

Praia de paulistano é a Av. Paulista.
Sexta à noite, calor temporão de inverno, onde ir? Pra quem vive pensando - entre outras coisas tão boas quanto - em livros, a 'passadinha' na nova Livraria Cultura é programa obrigatório. E depois, quem sabe, um café ou uma cerveja na Augusta, que pseudo-intelectuais também sentem outras sedes.
Não resisti e comprei mais um livro de poesia: é difícil sair ilesa daquele mundo de tentações literárias. Há muito estava me devendo o "Toda Poesia", de Ferreira Gullar. Tá, já tenho três livros dele, duas antologias e o "Dentro da Noite Veloz". Mas não tinha "Toda Poesia", oras. E estava precisando dele, terrivelmente.
Procuro poemas o tempo todo. É quase um vício.
Pra quê? Não sei ainda. Talvez seja simples pretensão, como dito nas palavras de Ferreira Gullar:
Pretendo que a poesia tenha a virtude de, em meio ao sofrimento e o desamparo, acender uma luz qualquer, uma luz que não nos é dada, que não desce dos céus mas que nasce das mãos e do espírito dos homens.
Ou, pura ambição, como nos versos de Leminski:
vai vir o dia
quando tudo que eu diga
seja poesia
E vou parando por aqui: quero caçar mais uns poemas hoje.
sábado, 30 de junho de 2007
mais uma perda
Sou uma entre os milhões de visitantes que se habituaram a dar sempre uma passadinha lá e ler com prazer suas colunas. É inevitável não me sentir roubada mais uma vez.
Dos colunistas, alguns eu lia religiosamente: Xico Sá, Sérgio Rodrigues (A palavra é...), Tutty Vasques, Arthur Dapieve, Zuenir Ventura, Fábio Rodrigues (Tocatudo - música), Ricardo Calil (Olha só - tv/cinema).
A epígrafe na coluna de Sérgio Rodrigues, com uma frase de Tom Stoppard (“Toda saída de algum lugar é uma entrada em outro.”), sugere que manterão sites individuais, o que não será a mesma coisa. A cumplicidade do coletivo virtual sempre deixa a frase mais solta, o texto mais sacana - no bom sentido. E tem aquele lance da camaradagem, que conforta nos momentos difíceis, em que as palavras custam a sair.
Espero que o projeto de um novo site nos mesmos moldes, com a mesma independência e qualidade, consiga vingar. Por via das dúvidas, só pra aproveitar um pouquinho mais os últimos momentos, fiquei hoje mais de três horas lendo o NoMínimo. E olhem que odeio despedidas.
quinta-feira, 28 de junho de 2007
as melhores do dia
A persona que canta jingles antigos ("não adianta bater, eu não deixo você entrar..."), ao lado da Estação Trianon, em troca de uma moedinha na caixinha.
O espresso e o brownie do Vanilla Café.
O papo afinado com o Luca.
E a nota do Tutty Vasques:
"Já que perdeu ação na Justiça, Daniela Cicarelli deveria transformar sua volta ao YouTube num grande acontecimento. Quem sabe um novo vídeo... Ninguém agüenta mais assistir aquele da praia."
terça-feira, 26 de junho de 2007
sim

A assembléia, lotada, alternou momentos sérios e outros hilários. Como a negativa imediata e lacônica - e a carinha brava! - do Thiago, quando perguntado se aceitaria uma alternativa "com limite de inscritos" à proposta que ele colocara, de se votar imediatamente após os informes, sem a sucessão interminável de falastrices. Claro que foi a proposta que ganhou. Estão todos intoxicados de discursos.
O mais legal foi o encontro, o abraço apertado, a saudade amainada ao acariciar rostos amigos, fazer um 'oi' de longe, bem escandaloso. E a cumplicidade daquele momento. Como se disséssemos, ao mesmo tempo: "sim, queremos voltar, porque sentimos falta de tudo isso e porque aqui é o nosso lugar."
E sim, estou ficando cada vez mais sentimental. Este fato me preocupa. Outro dia, cheguei às lagrimas vendo as fotos de um álbum, no orkut. E nem tinha fotos minhas!
segunda-feira, 25 de junho de 2007
charles baudelaire (1821-1867)
À UNE PASSANTE
La rue assourdissante autour de moi hurlait.
Longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse,
Une femme passa, d'une main fastueuse
Soulevant, balançant le feston et l'ourlet;
Agile et noble, avec sa jambe de statue.
Moi, je buvais, crispé comme un extravagant,
Dans son oeil, ciel livide où germe l'ouragan,
La douceur qui fascine et le plaisir qui tue.
Un éclair... puis la nuit! -- Fugitive beauté
Dont le regard m'a fait soudainement renaître,
Ne te verrai-je plus que dans l'éternité?
Ailleurs, bien loin d'ici! trop tard! jamais peut-être!
Car j'ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais,
Ô toi que j'eusse aimée, ô toi qui le savais!
A UMA PASSANTE
Tradução de Guilherme de Almeida
A rua, em torno, era ensurdecedora vaia.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão vaidosa
Erguendo e balançando a barra alva da saia;
Pernas de estátua, era fidalga, ágil e fina.
Eu bebia, como um basbaque extravagante,
No tempestuoso céu do seu olhar distante,
A doçura que encanta e o prazer que assassina.
Brilho... e a noite depois! – Fugitiva beldade
De um olhar que me fez nascer segunda vez,
Não mais te hei de rever senão na eternidade?
Longe daqui! tarde demais! "nunca" talvez!
Pois não sabes de mim, não sei que fim levaste,
Tu que eu teria amado, ó tu que o adivinhaste!
domingo, 17 de junho de 2007
antónio
Se eu não te amar mais me
Caia o mar nos ombros
Me caia
Este silêncio pelos ossos dentro
Me cegue os olhos esta sombra
Me cerre
Esta noite num escuro mais profundo
Do que a chuva de ti de mãos tão leves
A figueira do meu sangue se emudeça
De pássaros à espera dos teus passos
De outra voz por sobre a minha
Morta
E as ruas do teu corpo eu desaprenda
Como desaprendi os dedos que me tocam
E se eu não te amar mais me caia a casa
De costa no teu peito como o vento
O autor, em uma de suas entrevistas, justificando sua antiga fama de enfant terrible da literatura portuguesa, declarou em uma entrevista: "Custa-me conceber um poeta que nunca tenha feito amor. E às vezes quando leio certos prosadores portugueses, não têm esperma nenhum lá dentro, são tudo coisas que se passam dentro da cabeça. Pensam muito. E a literatura faz-se com palavras. "Conhecia sua prosa densa e perturbadora, a alternar narradores, seus períodos intermináveis - que faz com que a leitura se torne compulsiva, como o próprio texto -, seus personagens sempre à beira de um colapso.
Leio agora a poesia de Lobo Antunes e, ao descobri-la, descubro o terno António, como uma vez ele se definiu.
dor de amar
Ontem lia um poema do Vinícius que fala sobre a dor de amar. Ele termina assim:
"Tanto tempo faz
tens um outro amor, eu sei
mas nunca terás
a dor a mais
como eu te dei
porque a dor a mais
só na paixão
com que eu te amei."
Nunca pensei que fosse me acostumar a conviver com essa dor.
Às vezes me distraio e ela me abandona. Parece que me falta algo, vou ver: é ela. Trato logo de resgatá-la, para que eu sinta meu coração bater novamente.
(30/11/05)
[relendo e-mails antigos, só pra sentir meu coração bater novamente]
quarta-feira, 13 de junho de 2007
no msn...
É muito bom ter amigos.
Um dia ainda vou achar que é melhor que sexo.