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quinta-feira, 23 de outubro de 2008

a opacidade das coisas



Sem tempo algum pra escrever, mas lendo muito. Muitas leituras teóricas pro curso, o último do Philip Roth, o trabalho de pesquisa. Nas madrugadas ou no café da livraria, uma pausa só pra poesia. O meu preferido, já há algum tempo, é Paulo Henriques Britto.


FISIOLOGIA DA COMPOSIÇÃO

I.

A opacidade das coisas
e os olhos serem só dois

A compulsão sem culpa
de dar sentido a tudo

O incômodo pejo
de ser só desejo

Por fim, o acaso
Sem o qual, nada.


[In Macau, Companhia das Letras, 2003]

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

a precariedade e a permanência

, Yoko Ono(para Luca)


[Half a Room, de 1967, obra de Yoko Ono]


AS COISAS QUE NOS CERCAM

Paulo Henriques Britto


DE "TRÊS EPIFANIAS TRIVIAIS"

II

As coisas que te cercam, até onde
alcança tua vista, tão passivas
em sua opacidade, que te impedem
de enxergar o (inexistente) horizonte,
que justamente por não serem vivas
se prestam para tudo, e nunca pedem

nem mesmo uma migalha de atenção,
essas coisas que você usa e esquece
assim que larga na primeira mesa —
pois bem: elas vão ficar. Você, não.
Tudo que pensa passa. Permanece
a alvenaria do mundo, o que pesa.

O mais é enchimento, e se consome.
As tais Formas eternas, as Idéias,
e a mente que as inventa, acabam em pó,
e delas ficam, quando muito, os nomes.
Muita louça ainda resta de Pompéia,
mas lábios que a tocaram, nem um só.

As testemunhas cegas da existência,
sempre a te olhar sem que você se importe,
vão assistir sem compaixão nem ânsia,
com a mais absoluta indiferença,
quando chegar a hora, a tua morte.
(Não que isso tenha a mínima importância.)


[In Macau, Companhia das Letras, 2003]

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

resmungos paulistanos

São Paulo está se tornando uma cidade difícil de viver. Se não bastasse a falta total de segurança, o trânsito caótico, agora vem esse calor insuportável, com a temperatura batendo recordes. Lembro de uma época em que o paulistano ficava espantado com o calor do Rio de Janeiro: "37° à sombra!" E os tiroteios, em plena luz do dia, dos quais só ouvíamos falar e achávamos "um absurdo!" Bons tempos aqueles em que nos sentíamos felizes por morar em São Paulo.

Talvez eu esteja resmungando alto. Não é do meu feitio mas, tal como esta cidade, acho que não estou na melhor das fases.

Quando as moscas da desesperança começam a voar ao meu redor, lembro de um amigo que, em ocasiões semelhantes, dizia recorrer aos versos do genial Walter Franco:

tudo é uma questão de manter
a mente quieta
a espinha ereta
e o coração tranqüilo

Aprendi com ele a repetir esses versos, até à exaustão, como um mantra, que tem o poder de entrar em nossa mente e em seguida n'alma aflita, até nos sentirmos zen.

**

Reli agora um poema, do Paulo Henriques Britto, também genial - e fundamental. Uma reflexão sobre o próprio ato de escrever.

No fim de tudo, restam as palavras.
Na solidão do corpo, no saber-se
apenas pasto para o esquecimento.

há sempre a semente de alguma ilíada
mínima, promessa de permanência
no mármore etéreo de uma sílaba,

mesmo sendo mero sopro, captado
na frágil arquitetura do papel,
alvenaria de ar. Restará

a palavra que deixarmos no fim da
nossa história. Que julguem os outros,
que chegarão depois. Mais tarde ainda.


[do livro "Tarde", Companhia das Letras, 2007]