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sábado, 4 de dezembro de 2010

Essa mulher



— Pensei ter ouvido um barulho. Esses porcos não vão me pegar desprevenido, como da outra vez.
Volta a sentar, agora mais perto da janela. A metralhadora sumiu, e o coronel novamente divaga sobre aquela grande cena de sua vida.
— ... se atirou em cima dela, aquele galego nojento. Estava apaixonado pelo cadáver, o alisava, bolinava seus seios. Eu acertei um murro nele, olhe — o coronel olha o próprio punho —, que o estatelou contra a parede. É a podridão total, não respeitam nem a morte. Não se importa de ficar no escuro?
— Não.
— Melhor assim. Daqui posso ver a rua. E pensar. Eu sempre penso. É melhor pensar no escuro.
Serve-se mais um uísque.
— Mas essa mulher estava nua — diz, argumenta contra um possível contraditor. — Tive que cobrir seu monte de vênus, eu a vesti com uma mortalha, e o cordão dos franciscanos.
Ri bruscamente.
— Tive de pagar a mortalha do meu próprio bolso. Mil e quatrocentos pesos. Isso prova, não? Isso prova.
Repete várias vezes "isso prova", como um brinquedo mecânico, sem explicar o que isso provaria.
— Tive de pedir ajuda para mudá-la de caixão. Chamei uns operários que estavam trabalhando na área. Imagine como ficaram. Para essa gente, ela era uma deusa, essas coisas que enfiam na cabeça deles, coitados.
— Coitados?
— É, sim, coitados. — O coronel luta contra uma esquiva cólera interior. — Eu também sou argentino.
— Eu também, coronel, eu também. Somos todos argentinos.
Rodolfo Walsh. Essa mulher e outros contos. Editora 34, 2010, p.24.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

a opacidade das coisas



Sem tempo algum pra escrever, mas lendo muito. Muitas leituras teóricas pro curso, o último do Philip Roth, o trabalho de pesquisa. Nas madrugadas ou no café da livraria, uma pausa só pra poesia. O meu preferido, já há algum tempo, é Paulo Henriques Britto.


FISIOLOGIA DA COMPOSIÇÃO

I.

A opacidade das coisas
e os olhos serem só dois

A compulsão sem culpa
de dar sentido a tudo

O incômodo pejo
de ser só desejo

Por fim, o acaso
Sem o qual, nada.


[In Macau, Companhia das Letras, 2003]

quarta-feira, 9 de julho de 2008

novo livro de alan pauls


Depois de O passado, livro premiado, elogiadíssimo pela crítica, Alan Pauls está com um novo livro. Chama-se Historia del Llanto (Editora Anagrama) e a tradução para o português deve sair no Brasil em breve, pela Cosac Naify.

Na Bravo! de julho, saiu uma entrevista muito bacana do autor argentino - falando do seu livro, do Brasil e de Burroughs, Borges, Joyce, Puig - que você pode ler clicando aqui.

A revista está de site novo, muito bonito, aliás. Os artigos agora estão on-line, em sua versão integral. Quer dizer, não precisamos mais ficar contrariados por ler só uma parte dos textos, não sendo assinante. Gostei demais, bravo!

segunda-feira, 7 de julho de 2008

infernos e paraísos


[Angelus Novus (1920), tela de Paul Klee]

"Há um quadro de Klee intitulado Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso. "

[Sobre o conceito da história, de Walter Benjamin. In: Magia e técnica, arte e política. Brasiliense, 1985]

**



"Estou aqui para esconjurar um demônio. Ele, para trepar comigo. Imagino eu. Pelo menos foi o que fizemos. Uma semana só, tinha dito ele, não mais que isso. Teria de voltar depois ao seu mob. Mob, clã, como se diz aqui. Ele só não disse onde. Algum lugar no outback, nos confins intermináveis deste país. Não faço idéia do que ele tem em mente. É possível até que também esteja me ludibriando. Mas como pode mentir, se ele não diz praticamente nada?

Está dormindo, e, quando dorme, passa a ser o próprio tempo. As pessoas aqui são as mais antigas do mundo. Têm vivido neste país há mais de quarenta mil anos; mais próximo da eternidade que isso, impossível. Uma noite eu saí de carro para dar uma volta, e veja onde vim parar. Eu sei que a coisa não é bem assim, mas na minha cabeça é, sim. Nada do que eu penso é aceitável, mas quem pode me impedir de pensar o que eu quiser? Fito ao meu lado um homem adormecido, que parece ter vivido mais de um século, por mais novo que seja. Está deitado no chão, enrolado como um bicho. Ao abrir os olhos, torna-se velho como uma pedra, como os lagartos que se vêem aqui no deserto, porém se trata de uma velhice não acentuada, leve, já que todos os seus movimentos são leves, como se ele não sentisse o peso do corpo. Esforço-me em dizer a mim mesma que essa impressão é tão falsa como a primeira, mas não é bem assim. Acabei me metendo numa situação da qual perdi o controle, uma vez que aqui a minha noção de tempo não vale. Às vezes, quando me encontro com ele no deserto, neste país constituído quase só de desertos, ou quando me mostra coisas que eu não enxergo e ele próprio se torna a personificação deste país, ciente de onde se encontra o oásis que se mantém oculto para mim, quando me sinto pequena perante sua incomensurável velhice, que vê comida aonde eu apenas vejo areia, é então que acabo involuntariamente pensando que saí de casa naquela noite para chegar aonde estou agora. Abandonei o peso dos trópicos, onde tudo é móvel e ruidoso, a fim de vir parar no silêncio em que agora me encontro."

[trecho de Paraíso Perdido, de Cees Nooteboom, trad. de Cristiano Zwiesele do Amaral, Companhia das Letras, 2008, 158 pág.]

**


Nooteboom esteve na FLIP. Ele e o escritor colombiano Fernando Vallejo, foram responsáveis por um dos 'embates' mais interessantes do evento. Às provocações do cáustico colega latino-americano, entre irônico e bonachão, Nooteboom revidou: “Fernando é o ser mais gentil que conheço, mas é também o mais furioso. Nós dois somos dois pólos opostos.” E revelou uma conversa que os dois haviam tido no café-da-manhã, no hotel de Parati onde estavam hospedados. Vallejo, vegetariano, censurou-o por comer carne, dizendo que, com hábitos desse tipo, selvagens e impiedosos em relação aos animais, ele acabaria indo para o inferno. Ao que Nooteboom respondeu: “Pode ser, mas pelo menos lá encontrarei um monte de gente interessante”.

Palmas para Nooteboom.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

parabéns, Chico











Chico compositor, Chico escritor, Chico jogador de futebol, Chico pai, Chico avô, Chico brasileiro, Chico homem, Chico menino.

Todos eles fazem aniversário hoje.

sábado, 17 de maio de 2008

sete desejos em maio



1. Moby Dick, de Herman Melville, Edit. Cosac Naify,
tradução de Irene Hirsch e Alexandre Barbosa de Souza,
com fortuna crítica, capa dura, 656 páginas, 15 ilustrações.



2. O sonho dos heróis, de Adolfo Bioy Casares, escritor argentino
admirado por Borges e Cortázar, tradução de José Geraldo Couto,
Editora Cosac Naify, capa dura, 240 páginas.


3. Kachtanka, de Anton Tchekhov , com ilustrações de Genádi Spirin,
Editora Cosac Naify, tradução e adaptação de Rubens Figueiredo,
capa dura, 24 páginas.


4. Austerlitz, de W. G. Sebald, escritor que desafia os limites da ficção,
misturando relatos de viagem, memória, filosofia e fotografia.
Companhia das Letras, tradução de José Marcos de Macedo, 288 páginas.


5. Brad Mehldau Trio Live, cd duplo, gravado no Village Vanguard, NYC,
em outubro de 2006. Ouça 3 faixas no site oficial.


6. Lovers in an upstairs room (1788), de Utamaro Kitagawa (1754-1806),
369 x 255 cm, atualmente no British Museum, Londres.


7. Duas passagens para Cannes, ida e volta, primeira classe,
acesso vip a todas as salas de cinema do festival.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

chez toi


L'avion a tardé a décoller, il y avait des tempêtes de neige dans beaucoup d’aéroports européens et j'ai perdu la connexion à Paris; pour empirer, ils m'ont envoyé à Buenos Aires. Mais j'ai aimé arriver chez moi à minuit, après cette odyssée.

J'ai tourné la clé, tout était silencieux. Les rideaux étaient ouverts, une lumière dramatique rentrait par la fenêtre et dessinait des ombres étirées sur le plancher. J'ai avancé dans cette pénombre avec une sensation de paix que je n'essayais pas depuis longtemps. J'ai allumé la lampe de la salle, le répondeur automatique clignait, je n'ai pas voulu écouter les messages pour ne pas casser le sortilège de ce moment.

Tu dormais, j'ai entendu ta respiration profonde, mais dès que je suis rentrée dans la chambre, tu t'es réveillé. Je n’ai rien dit, tu es resté aussi en silence. C'était comme les tempêtes de neige: le vent soufflait dans nos oreilles sourdes et nous sommes restés congelés par quelques secondes qui nous ont semblé des heures.



[a partir de um parágrafo de Budapeste, de Chico Buarque]

quarta-feira, 16 de abril de 2008

histórias de sebos


Quem gosta de sebos sempre tem uma história pra contar. Raridades que encontrou, pechinchas que conseguiu ou perdeu, tipos estranhos que viu, uma amizade que fez, um amor que conheceu. Por falta de tempo, frequento pouco os sebos, bem menos do que desejaria. Talvez seja por isso que esta história, acontecida há alguns anos, tenha acontecido num ambiente virtual.

Nasci e sempre morei em São Paulo, mas em muitos endereços diferentes. Enfrentei várias mudanças, fiquei craque em embalar, encaixotar, etiquetar. Apesar dos meus cuidados, numa dessas mudanças, a transportadora perdeu uma caixa com livros: surreal, mas aconteceu. Nela estavam uns quinze livros de ficção científica: Asimov, Bradbury, Clarke, uma galáxia inteira de mundos maravilhosos visitados. E outros mais antigos, que eu com certeza não leria novamente, mas pelos quais guardava um carinho especial: Agatha Cristie, Jorge Amado, muitas HQ’s, uma parte boa da minha adolescência. Fiquei inconformada, em seguida desolada, mas o desespero veio quando, terminada a operação desencaixotamento, não achei o meu O Lobo da Estepe. Era o meu livro mais amigo e ao qual recorria, em alguns momentos difíceis: certas passagens me traziam conforto, uma calma interior, até. Substituí-lo revelou-se totalmente inviável, as edições mais novas eram muito diferentes da minha, perdida: outras capas, folhas de papel muito novo, letras que eu não reconhecia. Enfim, não se pareciam com o meu livro: eram como estranhos a dizer velhas frases conhecidas – um terrível deslocamento.

Enviei, então, um e-mail a um sebo virtual que trabalhava com edições raras: o responsável pelos pedidos me respondeu, muito atencioso. Ao explicar que teria de ser a edição da Civilização Brasileira, "aquela que tem na capa o desenho de um homem de costas, com orelhas de lobo", ele respondeu: "É a 3ª edição, de 69. Realmente, a capa é muito original." Na verdade, eu nem sabia a edição; pareceu-me errada a data, muito antiga (69?), mas, impressionada com a convicção do livreiro, acreditei. Trocamos vários e-mails, por mais de um mês. Ele parecia entender a minha angústia por ter perdido o livro. Solidário, disse que O lobo também era um dos seus preferidos; pediu que eu tivesse paciência, que iria achá-lo logo. Eu queria acreditar, e acreditava. Suas mensagens tinham um tom familiar, quase carinhoso. Na minha fantasia, sentia-o quase como um amigo; imaginava-o com roupas antiquadas e dono de uma história singular: alguém que recusou um emprego promissor numa multinacional para terminar um doutorado sobre lírica latina e que ganhava a vida caçando livros antigos para doentes em literatura. Lembrei daquele filme, Nunca te vi, sempre te amei, sobre um livreiro (Anthony Hopkins) que, por anos a fio, troca cartas com uma escritora (Anne Bancroft). Terrivelmente triste, o filme. Lembro ter derramado algumas lágrimas no final. Já havia perdido a esperança de que o livro seria encontrado, quando recebo um e-mail: “Encontramos o livro solicitado, O lobo da estepe, de Hermann Hesse. Por favor, confirme seu interesse e se ainda deseja que o enviemos. Atenciosamente...”. Frio, burocrático. Se ainda desejo o livro? Eu aguardava ansiosamente, sofrendo todo aquele tempo, ele não sabia? Sabia. Aquela mensagem era um rompimento, irremediável. Confirmei o pedido, fiz o depósito, recebi o livro em dois dias, encapado com papel manteiga, envolto em plástico bolha, dentro de uma caixa de papelão. Eficientíssimo.

Não falei mais com o insensível livreiro. O Lobo? Está sempre ao lado de minha mesa de trabalho, como um cachorro fiel. Nunca me decepcionou.


[foto: sebo Baratos da Ribeiro, Copacabana, RJ]

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

as artes de tarsila

Manteau Rouge ( 1923)


Na manhã sonolenta de domingo, quando o edredom se tornara quase um extensão do meu corpo e o barulho de uma forte chuva era um convite a permanecer na cama, só um programa muito bom me tiraria de casa. E era bom mesmo: a exposição Tarsila Viajante, na Pinacoteca, com 37 pinturas e 120 desenhos de Tarsila do Amaral (1886-1973).

Sou apaixonada pela obra de Tarsila e, de pertinho mesmo, só conhecia
duas telas: Operários e Antropofagia. Fiquei chateada quando o milionário e colecionador mui amigo Eduardo Constantini comprou o Abaporu, levando embora do Brasil nossa obra maior do modernismo. Pensei naquela época que, daí em diante, os brasileiros teriam de vê-la na Argentina. Um absurdo, como puderam vender uma obra dessa por uns míseros dólares? US$ 1,3 milhão pra ser mais exato, conforme publicou o Estadão. Uma micharia, perto do que ela representa pra nós. Lembrava disso enquanto ouvia a chuva, que alternava de intensidade: ora torrencial, ora provocativamente diluviana. Não parava um minuto naquela manhã. E o Abaporu lá, a me esperar. Reuni todas as minhas forças e me levantei.

Quando cheguei à Pinacoteca já havia uma fila enorme no estacionamento e outra na bilheteria: casais de namorados, crianças, grávidas, velhos, adolescentes de allstars encharcados, alemães de bermudas, todos inundando a varanda da Pinacoteca com a água que pingava de dezenas de guarda-chuvas. Êta povo teimoso que é o paulistano! Não há temporal que o intimide. Além do mais, dizem que adoramos uma fila. E como tem fila em São Paulo! É por isso que não nos mudamos daqui.

Garanto que ninguém se incomodou de ter se molhado um pouco: a exposição é maravilhosa, as telas enchem nossos olhos de cores e formas. Quanto Brasil naqueles verdes e rosas! Quanta vida nas paisagens urbanas, sons de buzinas e apitos de trens! As montanhas mineiras, as casas de muitas cores, as bananeiras dos nossos quintais de infância; cucas, preguiças e sapos, bichos tão lindos, tão nossos. Os santos, os anjos que olham e rezam por nós, pecadores. As flores que explodem perfumes e cores em rostos incrédulos com tanta beleza.

Dizem que o Abaporu mudou, que seu pé gigante está diferente, que os argentinos ousaram restaurá-lo, naquela terra estranha, onde não existe carnaval, poema-piada, nem Macunaíma. Restaurado por mãos que nunca batucaram um samba, estranhos que
nunca entenderão seu caráter antropófago - será que tiveram a coragem? Acho que Tarsila, Oswald e Mário, se estivessem vivos, nunca o permitiriam. Mas olhei para ele demoradamente, que me pareceu ainda bem canibal. Um pouco mais sério e pensativo, talvez. Rezo para que não levem A Negra daqui. Capaz de inventarem diminuir-lhe os lábios ou o seio farto da mucama. Nem pensar.


ATELIER

Caipirinha vestida por Poiret
A preguiça paulista reside nos teus olhos
Que não viram Paris nem Piccadilly
Nem as exclamações dos homens
Em Sevilha
À tua passagem entre brincos

Locomotivas e bichos nacionais
Geometrizam as atmosferas nítidas
Congonhas descora sob o pálio
Das procissões de Minas

A verdura no azul klaxon
Cortada
Sobre a poeira vermelha

Arranha-céus
Fordes
Viadutos
Um cheiro de café
No silêncio emoldurado

(de Oswald de Andrade, in Pau-Brasil, 1925)


Cartão Postal (1928)


Abaporu (1928)



A Negra (1923)



Antropofagia (1929)



O Lago (1928)



Morro da Favela (1924)


Anjos (1924)


A Lua (1928)


Tarsila Viajante. Pinacoteca. Pça. da Luz, 2, 3324-1000. 3.ª a dom., 10 h às 18 h. R$ 4 (sáb. grátis). Até 16/3.

sábado, 29 de dezembro de 2007

todos os meus ontens



Já falei neste blogue
sobre António Lobo Antunes - escritor português, nascido em 1942, 27 títulos publicados, traduzidos em 16 línguas, ganhador de vários prêmios literários, sendo o mais recente o Prêmio Camões de 2007. A exemplo de W. Faulkner e V. Woolf, desenvolve um tipo de narrativa entrecortada de lembranças, possuindo no entanto um estilo pessoal, inconfundível: ninguém escreve como Lobo Antunes. É, sem dúvida, o maior vulto do romance português recente.

Em Os cus de Judas, romance de 1979, o texto é denso, compulsivo, os longos períodos atravessam páginas, não nos deixando outra alternativa senão segui-los, também compulsivamente. Ao tratar das contradições e sentimentos dos personagens durante a Guerra de Angola - na qual esteve presente, servindo o exército português como médico, entre 1970 e 73 -, Lobo Antunes escreve sobre a impotência do ser humano diante da violência que nos deixa perplexos e retira da vida o próprio sentido.

Esse é o trecho de que mais gosto do livro. Descrições simultâneas, físicas ou de pensamentos; o passado misturado ao presente; os versos da canção Pequeña serenata diurna, de Silvio Rodríguez: múltiplos elementos que se contrapõem e criam um efeito de caleidoscópio, de grande riqueza lingüística e sensorial. Ninguém escreve como Lobo Antunes.


[...] durante a viagem a orquestra do navio tocava tangos mofentos para bodas de prata, embarquei a 6 de Janeiro e na noite do fim do ano tranquei-me no quarto de banho para chorar, um bolo-rei impossível de engulir entupia-me a garganta, empurrei-o a champanhe e ele tombou na barriga no som dos pedregulhos no poço do jardim do avô, plof!, provocando círculos concêntricos no lago da canja do jantar, o poço sob as árvores ao pé do muro para a estrada onde se ia fumar às escondidas, o caseiro tirou o chapéu e explicou respeitosamente a coçar a cabeça O que a gente precisa é que alguém tomar conta de nós o menino não acha?, e se vier alguém tomar conta de nós o que pensa você que começaria por fazer, levar-me para sua casa, levá-la para minha casa, lavar-nos os dentes, estender-nos na cama, e falar-nos em voz baixa até adormecermos, falar-nos de serenidade e alegria até adormecermos, falar-nos do primeiro de Maio de 74 que os políticos inquinavam já da massa folhada sem recheio dos seus dircursos veementes, mas onde crescia nas ruas uma irresistível fermentação de esperança, os ministros de Caetano borravam-se de medo na Madeira, os pides borravam-se de medo em Caxias, uma festa de labaredas vermelhas alastrava triunfalmente em Lisboa, quiero que me perdones los muertos de mi felicidad, los muertos de mi felicidad no cacimbo de Angola, seis meses de cacimbo enevoado e capim amarelo a arder ao longe, perdoe-me os mortos da minha felicidade quando lhe seguro na mão, quando meus joelhos apertam os seus, quando a minha boca vai tocar na sua e os olhos se fecham devagar como corolas nocturnas, todos os meus ontens se encontram presentes neste beijo, talvez que as múmias do bar se esfarelem como os vampiros à aproximação do dia num concerto de dobradiças que se quebram, todos os meus ontens, percebe?, O que a gente precisa, menino, garantia o caseiro, é que venha alguém cuidar de nós, [...]

[In Os cus de Judas, de António Lobo Antunes - Rio de Janeiro: Objetiva, 2003 - pág. 75 e 76]

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

um natal diferente



Gosto de reler esta crônica do Ferreira Gullar na época de Natal. Ela me faz ver que momentos difíceis podem ser superados e depois lembrados com humor, quem sabe até isentos de mágoas. Sem o humor e a esperança, a vida é pequena. E muito chata.

Um Natal diferente

Naquele ano de 1968, passei o Natal em cana.
Não diria que foi um Natal festivo, mas, dentro das possibilidades, eu e meus companheiros de prisão tratamos de fazer jus à data, gozando a situação em que nos encontrávamos. No nosso xadrez -o X 3- havia oito presos, Paulo Francis, eu e mais seis; no xadrez ao lado, estavam, além de Caetano Veloso e Gilberto Gil, vários jovens, entre os quais um que se chamava Perfeito Fortuna, o líder deles. Pela grade da janela, que dava para os fundos da prisão, nos comunicávamos com nossos vizinhos que não paravam de inventar encrencas e cantar. Já minha preocupação era por ordem em nosso convívio e achar um jeito de encher o tempo. Daí ter proposto que cada um contasse coisas interessantes de sua vida, relacionadas ou não com a luta política.
Uma das figuras mais curiosas do grupo era um sujeito alto e ossudo que se chamava Antônio Calado, homônimo do escritor e que, devido a isso, tinha sido preso. Quando soube que eu conhecia o romancista, implorou-me para dizer aos militares que ele não era o outro Callado. Mas como atendê-lo se até aquele momento estávamos todos incomunicáveis? Quando, dias depois, fomos levados um a um ao interrogatório, pude fazer o que me pedira. Disse maldosamente ao oficial que me interrogava: "Ele se parece tanto com o escritor Antônio Callado quanto um jabuti se parece com um lápis". O oficial me fitou irritado mas, no dia seguinte, mandou soltá-lo.
Fui preso no dia 13 de dezembro, em minha casa, no começo da noite, por um oficial do Exército, que se tornou mais tarde conhecido como um dos chefes do jogo do bicho no Rio de Janeiro: o capitão Guimarães. Eu e Teresa estávamos nos preparando para ir ao cinema, junto com Vianinha, João das Neves e Pichín Plá, nossos companheiros do Grupo Opinião. João e Pichín já haviam chegado. Quando soou a campainha da porta, fui abrir pensando que era o Vianinha, mas deparei-me com dois soldados do Exército.
- É aqui que mora o senhor Ferreira Gullar?
- Do que se trata?
- É o senhor?
- Sou eu mesmo, mas do que se trata?
- Tenho um ordem de prisão contra o senhor -disse o capitão, forçando a entrada.
Neste instante, Teresa chegou à sala. Ao tomar conhecimento da situação, perguntou ao oficial.
- O senhor tem uma ordem de prisão?
- A ordem é verbal. Ele está preso.
- Mas isso é ilegal, disse ela.
A televisão estava ligada e nela apareceu a figura do ministro da Justiça lendo um documento.
- Escute, falou o capitão, apontando para a televisão.
O ministro lia o Ato Institucional n.º.5, que suspendia todos os direitos constitucionais do cidadão. João das Neves e Pichín Plá assistiam àquilo apavorados, temendo que sobrasse para eles, já que estávamos todos num mesmo barco. Nossa preocupação era agora com o Vianinha, que poderia estar sendo procurado também.
- Vamos inspecionar a casa, disse o capitão, e se encaminhou para o corredor.
João e Pichín aproveitaram para dar o fora.
- Fiquem esperando pelo Vianinha lá embaixo e avisem a ele, adverti eu.
Os dois saíram. Eu entrei na cozinha, abri a geladeira e joguei dentro dela minha caderneta de endereços, a fim de que não caísse nas mãos dos milicos. Em seguida, sussurrei a Teresa que, depois que me levassem, telefonasse para Mário Cunha, na sucursal do "Estadão", informando de minha prisão.
Enquanto isso, eles vasculhavam a casa mas, ao tentarem entrar no quarto dos meninos, Luciana, minha filha, que tinha então 13 anos, os impediu e fechou-se no quarto. A mando da Teresa, ela tinha levado para lá alguns exemplares do jornal do Partido.
O capitão, então, voltou-se para a estante do corredor e começou a catar ali os livros que supostamente serviriam para me inculpar. Ele ia olhando a capa dos livros e os devolvendo à estante. Como ali estavam os livros sobre arte, a sua busca era infrutífera. Até que se deparou com uma pasta, abriu-a e sorriu satisfeito. Tinha encontrado o que buscava. Chamou o soldado e entregou-lhe a pasta.
- Isto vamos levar, disse ele ao soldado.
Eu, que tinha reconhecido a pasta, aproximei-me:
- Por que vai levar? São os originais de um livro meu sobre arte.
- Sobre arte?, disse ele ironicamente- Sei...
De fato, eu havia reunido ali uma série de artigos que publicara, anos atrás, no Suplemento Dominical do "Jornal do Brasil", sobre os movimentos da arte contemporânea e pusera o seguinte título: "Do Cubismo à Arte Neoconcreta". Deveria entregar aqueles originais, na semana seguinte, à Editora Ler.
Inutilmente tentei explicar ao capitão que aqueles artigos nada tinham a ver com política. O soldado os levou junto com livros e revistas considerados subversivos. Só depois de algum tempo entendi o motivo daquela decisão. Ele achou que a palavra "cubismo" dizia a respeito a Cuba.
E essa foi a anedota que nos fez rir muito naquela noite de Natal que passamos no xadrez da Vila Militar.

[publicada na Folha de São Paulo, em 25/12/2005]

sábado, 15 de dezembro de 2007

a matéria-prima do poeta


Este é para mim um dos mais perfeitos e belos poemas da nossa língua, se não for o mais perfeito e belo.

Não que eu conheça poemas suficientes para poder afirmar isso - ainda pretendo conhecer muitos! -, mesmo assim algo me diz que dificilmente mudarei de opinião.

Foi como um amor maduro, que se constrói aos poucos: não gostei dele facilmente, não foi um encantamento à primeira vista. Eu o conheci ainda menina e o achei bonito, muito mesmo, mas rejeitei seus imperativos, sua aparente racionalidade. Felizmente, ao contrário de nós, mortais, um belo poema não envelhece. Paciente, ele permanece a nossa espera.

Fui conquistada quando estava pronta para ele, depois de idas e vindas, desprovida de orgulho, aberta ao riso e à dor. Pareceu-me outro, não o reconheci - nem ele a mim. Daí em diante, ficou comigo. E ficará.


Procura da poesia


Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão
[lírica.


Tua gota de bile, tua careta de gozo ou dor no escuro
são indiferentes.
Não me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem de equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto
[à linha de espuma.


O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.

Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.


[do livro A Rosa do Povo, de Carlos Drummond de Andrade, in Reunião, 10 livros de poesia, José Olympio, 1974]


Quanto ao título do post anterior, confesso: eu menti.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

título 1. por que não leio drummond com frequência ou 2. combinaison dangereuse

Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

[de Carlos Drummond de Andrade, do livro Corpo, Edit. Record, 1984]


Ler certos poemas de Drummond me faz muito mal.
Talvez eu seja muito permeável. Os fluidos me transpassam, se instalam e demoram a se diluir.

O problema é que também estou lendo muito Le Marquis de Sade.


domingo, 25 de novembro de 2007

ivan ilitch e o personagem sem nome de philip roth


"Ivan Ilitch via que estava morrendo, e o desespero não o largava mais. Sabia, no fundo da alma, que estava morrendo, mas não só não se acostumara a isto, como simplesmente não o compreendia, não podia de modo algum compreendê-lo.
O exemplo do silogismo que ele aprendera na Lógica de Kiesewetter: Caio é um homem, os homens são mortais, logo Caio é mortal, parecera-lhe, durante toda a sua vida, correto somente em relação a Caio, mas de modo algum em relação a ele. Tratava-se de Caio-homem, um homem em geral, e neste caso era absolutamente justo; mas ele não era Caio, não era um homem em geral, sempre fora um ser completa e absolutamente distinto dos demais; ele era Vânia, com mamãe, com papai, com Mítia e Volódia, com os brinquedos, o cocheiro, a babá, depois com Kátienka, com todas as alegrias, tristezas e entusismos da infância, da juventude, da mocidade. Existiu porventura para Caio aquele cheiro da pequena bola de couro listada, de que Vânia gostara tanto?! Porventura Caio beijava daquela maneira a mão da mãe, acaso farfalhou para ele, daquela maneira, a seda das dobras do vestido da mãe? Fizera um dia tanto estardalhaço na Faculdade de Direito, por causa de uns pirojki? Estivera Caio assim apaixonado? E era capaz de conduzir assim uma sessão de tribunal?
E Caio é realmente mortal, e está certo que ele morra, mas quanto a mim, Vânia, Ivan Ilitch, como todos os meus sentimentos e idéias, aí o caso é bem outro. E não pode ser que eu tenha de morrer. Seria demasiadamente terrível.
Era assim que ele sentia."


[A morte de Ivan Ilitch, de Leon Tolstói, tradução de Boris Schnaiderman, Ed. 34, 2006]

Leon Tolstói é considerado, ao lado de Dostoiévski e Tchekhov, um dos grandes escritores russos. Suas obras mais famosas são Guerra e Paz - visão épica da sociedade russa, entre 1800 e 1815, com uma filosofia extremamente otimista, apesar de atravessar os horrores da guerra - e Ana Karenina; os dois romances são sempre apontados entre as principais obras da literatura universal. Há que considere, no entanto, A morte de Ivan Ilitch sua verdadeira obra-prima.


"Os únicos momentos desconfortáveis eram à noite, quando caminhavam juntos ao longo da praia. O mar escuro a rugir imponente e o céu a esbanjar estrelas faziam Phoebe entrar em êxtase, porém o assustavam. A abundância de estrelas lhe dizia de modo inequívoco que ele estava fadado a morrer, e o trovão do mar a poucos metros de distância - e o pesadelo daquele negrume mais negro sob o frenesi das águas - lhe davam vontade de fugir correndo daquela ameaça de aniquilamento para a casinha de raia acolhedora, iluminada e quase sem móveis. Não era assim que ele encarava a imensidão do mar e do céu noturno no tempo em que servira bravamente a marinha, logo depois da guerra da Coréia - naquela época, mar e céu não eram para ele sinos fúnebres. Não conseguia entender de onde vinha aquele medo, e precisava de todas as suas forças para ocultá-lo de Phoebe. Por que estaria inseguro sobre sua vida, justamente agora que a dominava mais que em qualquer outro momento dos últimos anos? Por que se imaginava próximo da extinção quando um raciocínio tranqüilo e objetivo lhe dizia que ainda tinha muita vida sólida pela frente?"

[Homem comum, de Philip Roth, tradução de Paulo Henriques Britto, Companhia das Letras, 2007]


Qual a razão dos dois trechos reunidos aqui? Tolstói e Roth tratam de maneira absolutamente fascinante um tema que, a princípio, todos evitamos: a perspectiva da nossa própria morte. Os protagonistas de seus livros são muito diferentes entre si, distantes no tempo e no espaço, mas têm em comum o fato de não aceitarem a precariedade da vida, o fato de caminharmos inapelavelmente para o fim. O que devia nos tornar extremamente solidários, embora nem sempre isto aconteça.

Roth constrói com mordacidade mas também com um certo lirismo um personagem sem nome pelo qual a princípio não sentimos empatia - um publicitário que vive a trair suas mulheres e a enfrentar uma sucessão de problemas de saúde. A justificativa para a nossa rejeição talvez seja por não aceitarmos o fato de que também somos comuns - como ele - e que podemos perecer, a qualquer momento.

Além de caminharem em território semelhante, a narrativa extremamente envolvente e a sua percepção aguda do comportamento humano trazem à lembrança Tolstói e seu inesquecível Ivan Ilitch.


Philip Roth nasceu em Newark, Nova Jersey, em 1933. Escreveu mais de 20 romances e é considerado um dos maiores escritores americanos da atualidade. Venceu por três vezes o prêmio literário PEN/Faulkner. É autor de, entre outros, Complexo de Portnoy, A marca humana, O animal agonizante e Complô contra a América. Sua obra, de momentos extremamente confessionais, suscita freqüentemente discussões sobre o que é ficção e o que é real em suas histórias.

Em 2005, numa de suas raras entrevistas, Roth disse que o público para literatura não existia mais, apesar de termos ótimos escritores e de os livros continuarem a ser escritos. "Acho que uma sociedade sem literatura será ruim, a literatura é uma das coisas boas da civilização. Mas as pessoas vão ficar bem sem livros, aliás elas não querem mais livros", declarou. É só sair do mundo restrito das Letras e das Artes em geral ou olhar para a nova geração para ver que ele tem razão. Ou não?


sexta-feira, 16 de novembro de 2007

a precariedade e a permanência

, Yoko Ono(para Luca)


[Half a Room, de 1967, obra de Yoko Ono]


AS COISAS QUE NOS CERCAM

Paulo Henriques Britto


DE "TRÊS EPIFANIAS TRIVIAIS"

II

As coisas que te cercam, até onde
alcança tua vista, tão passivas
em sua opacidade, que te impedem
de enxergar o (inexistente) horizonte,
que justamente por não serem vivas
se prestam para tudo, e nunca pedem

nem mesmo uma migalha de atenção,
essas coisas que você usa e esquece
assim que larga na primeira mesa —
pois bem: elas vão ficar. Você, não.
Tudo que pensa passa. Permanece
a alvenaria do mundo, o que pesa.

O mais é enchimento, e se consome.
As tais Formas eternas, as Idéias,
e a mente que as inventa, acabam em pó,
e delas ficam, quando muito, os nomes.
Muita louça ainda resta de Pompéia,
mas lábios que a tocaram, nem um só.

As testemunhas cegas da existência,
sempre a te olhar sem que você se importe,
vão assistir sem compaixão nem ânsia,
com a mais absoluta indiferença,
quando chegar a hora, a tua morte.
(Não que isso tenha a mínima importância.)


[In Macau, Companhia das Letras, 2003]

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

horas mudas



Sem muito o que escrever, leio. Sem muito o que falar, ouço.

"Toco a sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade eleita por mim para desenhá-la por minha mão em teu rosto, e que por um acaso que não procuro compreender coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.

Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de ciclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os ciclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água."

[Cortázar, Julio - O jogo da amarelinha, tradução de Fernando de Castro Ferro, capítulo 7 - talvez o trecho mais conhecido do livro.]


Cortázar, lendo este trecho: ouça aqui.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

resmungos paulistanos

São Paulo está se tornando uma cidade difícil de viver. Se não bastasse a falta total de segurança, o trânsito caótico, agora vem esse calor insuportável, com a temperatura batendo recordes. Lembro de uma época em que o paulistano ficava espantado com o calor do Rio de Janeiro: "37° à sombra!" E os tiroteios, em plena luz do dia, dos quais só ouvíamos falar e achávamos "um absurdo!" Bons tempos aqueles em que nos sentíamos felizes por morar em São Paulo.

Talvez eu esteja resmungando alto. Não é do meu feitio mas, tal como esta cidade, acho que não estou na melhor das fases.

Quando as moscas da desesperança começam a voar ao meu redor, lembro de um amigo que, em ocasiões semelhantes, dizia recorrer aos versos do genial Walter Franco:

tudo é uma questão de manter
a mente quieta
a espinha ereta
e o coração tranqüilo

Aprendi com ele a repetir esses versos, até à exaustão, como um mantra, que tem o poder de entrar em nossa mente e em seguida n'alma aflita, até nos sentirmos zen.

**

Reli agora um poema, do Paulo Henriques Britto, também genial - e fundamental. Uma reflexão sobre o próprio ato de escrever.

No fim de tudo, restam as palavras.
Na solidão do corpo, no saber-se
apenas pasto para o esquecimento.

há sempre a semente de alguma ilíada
mínima, promessa de permanência
no mármore etéreo de uma sílaba,

mesmo sendo mero sopro, captado
na frágil arquitetura do papel,
alvenaria de ar. Restará

a palavra que deixarmos no fim da
nossa história. Que julguem os outros,
que chegarão depois. Mais tarde ainda.


[do livro "Tarde", Companhia das Letras, 2007]

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

só para loucos



TRATADO DO LOBO DA ESTEPE


"Era um vez um certo Harry, chamado o Lobo da Estepe. Andava sobre duas pernas, usava roupas e era um homem, mas não obstante era também um lobo das estepes. Havia aprendido uma boa parte de tudo quanto as pessoas de bom entendimento podem aprender, e era bastante ponderado. O que não havia aprendido, entretanto, era o seguinte: estar contente consigo mesmo e com a a sua própria vida. Era incapaz disso, daí ser um homem descontente. Isso provinha, decerto do fato de que, no fundo de seu coração, sabia sempre (ou julgava saber) que não era realmente um homem e sim um lobo das estepes. As pessoas argutas poderão discutir a propósito de ser ele realmente um lobo, se ter sido transformado, talvez antes de seu nascimento, de lobo em ser humano, ou de ter nascido homem, porém dotado de alma de lobo ou por ela dominado; ou, finalmente, indagar se essa crença de que ele era um lobo não passava de um produto de sua imaginação ou de um estado patológico.

[...] Com o nosso Lobo da Estepe sucedia que, em sua consciência, vivia ora como lobo, ora como homem, como acontece com todos os seres mistos. Ocorre, entretanto, que quando vivia como lobo, o homem nele permanecia como espectador, sempre à espera de interferir e condenar, e quando vivia como homem, o lobo procedia de maneira semelhante. Por exemplo, se Harry, como homem, tivesse um pensamento belo, experimentasse uma sensação nobre e delicada, ou praticasse uma das chamadas boas ações, então o lobo, em seu interior, arreganhava os dentes e ria e mostrava-lhe com amarga ironia o quão ridícula era aquela nobre encenação aos seus olhos de fera, aos olhos de um lobo que sabia muito bem em seu coração o que lhe convinha, ou seja, caminhar sozinho nas estepes, beber sangue vez por outra ou perseguir uma loba. Toda ação humana parecia, pois, aos olhos do lobo horrivelmente absurda e despropositada, estúpida e vã. Mas sucedia exatamente o mesmo quando Harry sentia e se comportava como lobo, quando arreganhava os dentes aos outros, quando sentia ódio e inimizade a todos os seres humanos e a seus mentirosos e degenerados hábitos e costumes. Precisamente aí era que a parte humana existente nele se punha a espreitar o lobo, chamava-o de besta e de fera e o lançava a perder, amargurando-lhe a satisfação de sua saudável e simples natureza lupina."


[O lobo da estepe, de Herman Hesse, trad. de Ivo Barroso, Editora Civilização Brasileira, 1969, 3ª edição.]

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

um jacto d'água fria

Ser uma pessoa otimista ajuda em quê? Às vezes, em nada.
Saber que uma pessoa linda e jovem, com muitos sonhos para o futuro, tem uma doença grave ou que outra, que sempre deu duro a vida inteira no trabalho está envelhecendo, sem condições para sobreviver: estar próximo a elas estremece nossas convicções, nos faz parar para pensar - e para sentir.

Volto a Gonçalo M. Tavares. Quando li esse texto/poema da primeira vez, achei-o ácido e pessimista. Aos poucos, nas leituras seguintes, fui mudando minha opinião; cheguei mesmo a ter um carinho por essas palavras duras, como quando a gente gosta de alguém rude, arredio, mas encantador. Nos últimos dias, elas me vieram à lembrança e no bonito idioma de Portugal me pareceram mais verdadeiras que nunca.

Gostava de vos dizer uma coisa para terminar.

Às vezes tenho medo. Muito medo.
Às vezes, sofro.
Às vezes, penso nas pessoas que amo e penso na possibilidade
de as perder.
Às vezes vejo alguém doente e fico incomodado.
Pode não ser um amigo ou um familiar.
Posso estar a vê-lo pela primeira vez.
Mas fico incomodado.
Aquela doença pertence-me.

Todas as doenças pertencem a toda gente.
Todos os sofrimentos pertencem a toda gente.
Todas as mortes pertencem um pouco a toda gente.
Às vezes sinto isso muito,
outras vezes sinto menos.
Quando sinto menos posso preocupar-me com o mundo,
brincar com a poesia,
com a filosofia e com as palavras.
Mas quando sinto, deixo de conseguir pensar.
Quando sofro ou sinto o que alguém sofre, deixo mesmo
de querer ser inteligente.
Deixo de querer parecer inteligente.
Se estivermos cheios a sentir, não temos espaço para pensar.
Não fazem sentido as lógicas,
as filosofias,
as discussões.
Todo o nosso corpo sente.
E o que resta? Nada.
Só existe aquela morte, aquela doença, aquela velhice.
Só aquele pai que amo e que está a envelhecer. Só aquela mãe
que amo e que está a envelhecer.
Só aquele amigo que se tornou amargo
porque a mulher o deixou.
Só o amor e a falta de amor.
As mulheres que nos enganam e as mulheres que são enganadas,
as mulheres e os homens que enganam.
Os amigos que deixam de o ser,
Alguns inimigos que morrem, e temos pena.
Que importa o resto?
Onde está o livro importante?
O filme que resolve?
Podemos chorar à frente de um quadro, mas não resolve nada.
Podemos pintar um quadro, escrever um poema, mostrar às
mulheres bonitas como somos bonitos, exibir o nosso corpo,
mas que adianta?
Estamos sozinhos.
Se não estamos, vamos estar.
Os amigos vão-nos deixando, vão-nos deixar.
Vão morrer ou nós vamos morrer.
Ou vão deixar de nos telefonar, ou então deixamos de lhes
querer telefonar.
Estamos sozinhos. As pessoas que amo vão morrer.
Os livros não resolvem nada. A poesia é bonita e por vezes
descansa, acalma, mas não resolve nada, não resolve nada.
Somos artistas ou não somos, e qualquer coisa que seja não
adianta nada e nada impede.
Escrevemos poemas, mas não ajudam ninguém.
Escrevemos peças de teatro, sorrimos, tentamos pensar,
tentamos ter idéias, tentamos distrair as pessoas, tentamos
fazer pensar as pessoas, tentamos fazer chorar as pessoas, e
isso é bom, e pode até ser bonito, mas não adianta nada,
não resolve nada,
não adianta nada.

(in O homem ou é tonto ou é mulher, Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2005)

sábado, 20 de outubro de 2007

a obsessão, o tempo e o desejo


Esta semana um fato me trouxe certa satisfação e deu o mote para o texto que começo aqui: dois escritores da lista dos meus preferidos foram premiados no Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2007, o maior prêmio literário do país e que a partir desta edição incluiu
livros escritos em língua portuguesa em qualquer país, desde que editados no Brasil.

O grande vencedor foi Gonçalo M. Tavares, escritor português nascido em Angola, de 37 anos, por sua obra Jerusalém, publicada no Brasil pela Companhia das Letras. Levou 100 mil reais, uma soma considerável, tanto aqui como em Portugal.

O segundo lugar, prêmio de 35 mil reais, foi para Dalton Trevisan, por seu livro Macho não ganha flor (Record). É a segunda vez que o escritor é premiado pela Portugal Telecom: em 2003, ganhou o primeiro lugar com o livro Pico na Veia (dividindo a premiação com Bernardo Carvalho). Para não romper a tradição, o recluso Trevisan não compareceu à cerimônia de premiação, preferindo mandar uma mensagem: "Só a obra interessa. O autor não vale o personagem. O conto é sempre melhor que o contista. Vampiro sim, de almas. Espião de corações solitários, escorpião de bote armado. Eis o contista. Só invente o vampiro que exista. Com sorte, você adivinha o que não sabe. Para escrever o menor dos contos, a vida inteira é curta. [...] Quem lhe dera o estilo do suicida em seu último bilhete."

Dalton Trevisan
é uma paixão antiga, leio suas histórias há tanto tempo que parece que o conheço desde criança - o que não é absolutamente a verdade. Seus contos curtos e ácidos, de Joões e Marias, personagens universais de segredos inconfessáveis em seus dramas cotidianos , não são propriamente histórias para crianças. O primeiro livro que li dele foi Guerra conjugal. Daí pra frente, devorei quase todos os outros. Trevisan é um obsessivo pela síntese, pela linguagem concisa do conto e se aprimora a cada obra publicada.

Gonçalo Tavares é outro obsessivo (a literatura requer obsessão?). Ao falar de suas influências, citou um ditado chinês que é quase uma maldição: "não te atrevas a escrever um livro antes de ler mil ". Com o prêmio, disse que pretende comprar tempo:
" - Tenho três filhos. Isso em iogurte e leite se vai. O principal que eu quero é comprar tempo. Não quero Mercedes, não quero ser rico. Quero ter tempo. " O escritor, mesmo consagrado, com mais de 20 livros publicados em 12 países, não vive só de literatura. Divide seu tempo entre aulas em universidades e suas obras. Publicou sua primeira obra em 2001 e, nos três anos seguintes, teve 14 livros publicados, entre romances, poesia, teatro e contos.

O poema abaixo é do livro O homem ou é tonto ou é mulher (Casa da Palavra, 2005) que, a princípio, pode ser classificado dentro do gênero da poesia, mas que se revela também um monólogo dramático em versos - o livro já foi até transformado em peça teatral. A originalidade de sua produção literária é marcada por essa característica: a de contrariar classificações de gênero.


O desejo estraga tudo.
Tenho 32 planos.
52 projetos.
30 estruturas perfeitas.
O dia é claro e calmo e tem 24 horas.
De repente chega o desejo e estraga tudo.
O dia fica claro demais.
Calmo de menos.
E já não há 24 horas.
O tempo inteiro concentra-se num ponto.
Aqui. (aponta para o sexo)

Tenho o tempo concentrado aqui.
Muitos minutos concentrado no sexo.
O desejo é isto.
Ter um órgão a mais para o tempo que faz lá fora.
Lá fora o tempo tem 24 horas.
Cá dentro é bem mais pequeno.
O tempo entra todo pelo sexo e quer deixar de existir.
O esperma é o suicídio do tempo.
O esperma sobe para a torre e atira-se lá de cima.
É um suicídio.
Um suicídio do tempo.

O desejo estraga tudo.

Tinha tantos planos racionais para hoje.

Os números eram quase perfeitos.

O desejo estraga tudo.


A poesia de Gonçalo Tavares, mesmo sendo ostensivamente uma poesia de idéias, também é, em grande medida, um trabalho de requintado lirismo. Um lirismo que tenta escapar, racionalmente, do desamparo das emoções.