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sábado, 29 de dezembro de 2007

todos os meus ontens



Já falei neste blogue
sobre António Lobo Antunes - escritor português, nascido em 1942, 27 títulos publicados, traduzidos em 16 línguas, ganhador de vários prêmios literários, sendo o mais recente o Prêmio Camões de 2007. A exemplo de W. Faulkner e V. Woolf, desenvolve um tipo de narrativa entrecortada de lembranças, possuindo no entanto um estilo pessoal, inconfundível: ninguém escreve como Lobo Antunes. É, sem dúvida, o maior vulto do romance português recente.

Em Os cus de Judas, romance de 1979, o texto é denso, compulsivo, os longos períodos atravessam páginas, não nos deixando outra alternativa senão segui-los, também compulsivamente. Ao tratar das contradições e sentimentos dos personagens durante a Guerra de Angola - na qual esteve presente, servindo o exército português como médico, entre 1970 e 73 -, Lobo Antunes escreve sobre a impotência do ser humano diante da violência que nos deixa perplexos e retira da vida o próprio sentido.

Esse é o trecho de que mais gosto do livro. Descrições simultâneas, físicas ou de pensamentos; o passado misturado ao presente; os versos da canção Pequeña serenata diurna, de Silvio Rodríguez: múltiplos elementos que se contrapõem e criam um efeito de caleidoscópio, de grande riqueza lingüística e sensorial. Ninguém escreve como Lobo Antunes.


[...] durante a viagem a orquestra do navio tocava tangos mofentos para bodas de prata, embarquei a 6 de Janeiro e na noite do fim do ano tranquei-me no quarto de banho para chorar, um bolo-rei impossível de engulir entupia-me a garganta, empurrei-o a champanhe e ele tombou na barriga no som dos pedregulhos no poço do jardim do avô, plof!, provocando círculos concêntricos no lago da canja do jantar, o poço sob as árvores ao pé do muro para a estrada onde se ia fumar às escondidas, o caseiro tirou o chapéu e explicou respeitosamente a coçar a cabeça O que a gente precisa é que alguém tomar conta de nós o menino não acha?, e se vier alguém tomar conta de nós o que pensa você que começaria por fazer, levar-me para sua casa, levá-la para minha casa, lavar-nos os dentes, estender-nos na cama, e falar-nos em voz baixa até adormecermos, falar-nos de serenidade e alegria até adormecermos, falar-nos do primeiro de Maio de 74 que os políticos inquinavam já da massa folhada sem recheio dos seus dircursos veementes, mas onde crescia nas ruas uma irresistível fermentação de esperança, os ministros de Caetano borravam-se de medo na Madeira, os pides borravam-se de medo em Caxias, uma festa de labaredas vermelhas alastrava triunfalmente em Lisboa, quiero que me perdones los muertos de mi felicidad, los muertos de mi felicidad no cacimbo de Angola, seis meses de cacimbo enevoado e capim amarelo a arder ao longe, perdoe-me os mortos da minha felicidade quando lhe seguro na mão, quando meus joelhos apertam os seus, quando a minha boca vai tocar na sua e os olhos se fecham devagar como corolas nocturnas, todos os meus ontens se encontram presentes neste beijo, talvez que as múmias do bar se esfarelem como os vampiros à aproximação do dia num concerto de dobradiças que se quebram, todos os meus ontens, percebe?, O que a gente precisa, menino, garantia o caseiro, é que venha alguém cuidar de nós, [...]

[In Os cus de Judas, de António Lobo Antunes - Rio de Janeiro: Objetiva, 2003 - pág. 75 e 76]

domingo, 25 de novembro de 2007

ivan ilitch e o personagem sem nome de philip roth


"Ivan Ilitch via que estava morrendo, e o desespero não o largava mais. Sabia, no fundo da alma, que estava morrendo, mas não só não se acostumara a isto, como simplesmente não o compreendia, não podia de modo algum compreendê-lo.
O exemplo do silogismo que ele aprendera na Lógica de Kiesewetter: Caio é um homem, os homens são mortais, logo Caio é mortal, parecera-lhe, durante toda a sua vida, correto somente em relação a Caio, mas de modo algum em relação a ele. Tratava-se de Caio-homem, um homem em geral, e neste caso era absolutamente justo; mas ele não era Caio, não era um homem em geral, sempre fora um ser completa e absolutamente distinto dos demais; ele era Vânia, com mamãe, com papai, com Mítia e Volódia, com os brinquedos, o cocheiro, a babá, depois com Kátienka, com todas as alegrias, tristezas e entusismos da infância, da juventude, da mocidade. Existiu porventura para Caio aquele cheiro da pequena bola de couro listada, de que Vânia gostara tanto?! Porventura Caio beijava daquela maneira a mão da mãe, acaso farfalhou para ele, daquela maneira, a seda das dobras do vestido da mãe? Fizera um dia tanto estardalhaço na Faculdade de Direito, por causa de uns pirojki? Estivera Caio assim apaixonado? E era capaz de conduzir assim uma sessão de tribunal?
E Caio é realmente mortal, e está certo que ele morra, mas quanto a mim, Vânia, Ivan Ilitch, como todos os meus sentimentos e idéias, aí o caso é bem outro. E não pode ser que eu tenha de morrer. Seria demasiadamente terrível.
Era assim que ele sentia."


[A morte de Ivan Ilitch, de Leon Tolstói, tradução de Boris Schnaiderman, Ed. 34, 2006]

Leon Tolstói é considerado, ao lado de Dostoiévski e Tchekhov, um dos grandes escritores russos. Suas obras mais famosas são Guerra e Paz - visão épica da sociedade russa, entre 1800 e 1815, com uma filosofia extremamente otimista, apesar de atravessar os horrores da guerra - e Ana Karenina; os dois romances são sempre apontados entre as principais obras da literatura universal. Há que considere, no entanto, A morte de Ivan Ilitch sua verdadeira obra-prima.


"Os únicos momentos desconfortáveis eram à noite, quando caminhavam juntos ao longo da praia. O mar escuro a rugir imponente e o céu a esbanjar estrelas faziam Phoebe entrar em êxtase, porém o assustavam. A abundância de estrelas lhe dizia de modo inequívoco que ele estava fadado a morrer, e o trovão do mar a poucos metros de distância - e o pesadelo daquele negrume mais negro sob o frenesi das águas - lhe davam vontade de fugir correndo daquela ameaça de aniquilamento para a casinha de raia acolhedora, iluminada e quase sem móveis. Não era assim que ele encarava a imensidão do mar e do céu noturno no tempo em que servira bravamente a marinha, logo depois da guerra da Coréia - naquela época, mar e céu não eram para ele sinos fúnebres. Não conseguia entender de onde vinha aquele medo, e precisava de todas as suas forças para ocultá-lo de Phoebe. Por que estaria inseguro sobre sua vida, justamente agora que a dominava mais que em qualquer outro momento dos últimos anos? Por que se imaginava próximo da extinção quando um raciocínio tranqüilo e objetivo lhe dizia que ainda tinha muita vida sólida pela frente?"

[Homem comum, de Philip Roth, tradução de Paulo Henriques Britto, Companhia das Letras, 2007]


Qual a razão dos dois trechos reunidos aqui? Tolstói e Roth tratam de maneira absolutamente fascinante um tema que, a princípio, todos evitamos: a perspectiva da nossa própria morte. Os protagonistas de seus livros são muito diferentes entre si, distantes no tempo e no espaço, mas têm em comum o fato de não aceitarem a precariedade da vida, o fato de caminharmos inapelavelmente para o fim. O que devia nos tornar extremamente solidários, embora nem sempre isto aconteça.

Roth constrói com mordacidade mas também com um certo lirismo um personagem sem nome pelo qual a princípio não sentimos empatia - um publicitário que vive a trair suas mulheres e a enfrentar uma sucessão de problemas de saúde. A justificativa para a nossa rejeição talvez seja por não aceitarmos o fato de que também somos comuns - como ele - e que podemos perecer, a qualquer momento.

Além de caminharem em território semelhante, a narrativa extremamente envolvente e a sua percepção aguda do comportamento humano trazem à lembrança Tolstói e seu inesquecível Ivan Ilitch.


Philip Roth nasceu em Newark, Nova Jersey, em 1933. Escreveu mais de 20 romances e é considerado um dos maiores escritores americanos da atualidade. Venceu por três vezes o prêmio literário PEN/Faulkner. É autor de, entre outros, Complexo de Portnoy, A marca humana, O animal agonizante e Complô contra a América. Sua obra, de momentos extremamente confessionais, suscita freqüentemente discussões sobre o que é ficção e o que é real em suas histórias.

Em 2005, numa de suas raras entrevistas, Roth disse que o público para literatura não existia mais, apesar de termos ótimos escritores e de os livros continuarem a ser escritos. "Acho que uma sociedade sem literatura será ruim, a literatura é uma das coisas boas da civilização. Mas as pessoas vão ficar bem sem livros, aliás elas não querem mais livros", declarou. É só sair do mundo restrito das Letras e das Artes em geral ou olhar para a nova geração para ver que ele tem razão. Ou não?


sexta-feira, 9 de novembro de 2007

horas mudas



Sem muito o que escrever, leio. Sem muito o que falar, ouço.

"Toco a sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade eleita por mim para desenhá-la por minha mão em teu rosto, e que por um acaso que não procuro compreender coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.

Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de ciclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os ciclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água."

[Cortázar, Julio - O jogo da amarelinha, tradução de Fernando de Castro Ferro, capítulo 7 - talvez o trecho mais conhecido do livro.]


Cortázar, lendo este trecho: ouça aqui.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

só para loucos



TRATADO DO LOBO DA ESTEPE


"Era um vez um certo Harry, chamado o Lobo da Estepe. Andava sobre duas pernas, usava roupas e era um homem, mas não obstante era também um lobo das estepes. Havia aprendido uma boa parte de tudo quanto as pessoas de bom entendimento podem aprender, e era bastante ponderado. O que não havia aprendido, entretanto, era o seguinte: estar contente consigo mesmo e com a a sua própria vida. Era incapaz disso, daí ser um homem descontente. Isso provinha, decerto do fato de que, no fundo de seu coração, sabia sempre (ou julgava saber) que não era realmente um homem e sim um lobo das estepes. As pessoas argutas poderão discutir a propósito de ser ele realmente um lobo, se ter sido transformado, talvez antes de seu nascimento, de lobo em ser humano, ou de ter nascido homem, porém dotado de alma de lobo ou por ela dominado; ou, finalmente, indagar se essa crença de que ele era um lobo não passava de um produto de sua imaginação ou de um estado patológico.

[...] Com o nosso Lobo da Estepe sucedia que, em sua consciência, vivia ora como lobo, ora como homem, como acontece com todos os seres mistos. Ocorre, entretanto, que quando vivia como lobo, o homem nele permanecia como espectador, sempre à espera de interferir e condenar, e quando vivia como homem, o lobo procedia de maneira semelhante. Por exemplo, se Harry, como homem, tivesse um pensamento belo, experimentasse uma sensação nobre e delicada, ou praticasse uma das chamadas boas ações, então o lobo, em seu interior, arreganhava os dentes e ria e mostrava-lhe com amarga ironia o quão ridícula era aquela nobre encenação aos seus olhos de fera, aos olhos de um lobo que sabia muito bem em seu coração o que lhe convinha, ou seja, caminhar sozinho nas estepes, beber sangue vez por outra ou perseguir uma loba. Toda ação humana parecia, pois, aos olhos do lobo horrivelmente absurda e despropositada, estúpida e vã. Mas sucedia exatamente o mesmo quando Harry sentia e se comportava como lobo, quando arreganhava os dentes aos outros, quando sentia ódio e inimizade a todos os seres humanos e a seus mentirosos e degenerados hábitos e costumes. Precisamente aí era que a parte humana existente nele se punha a espreitar o lobo, chamava-o de besta e de fera e o lançava a perder, amargurando-lhe a satisfação de sua saudável e simples natureza lupina."


[O lobo da estepe, de Herman Hesse, trad. de Ivo Barroso, Editora Civilização Brasileira, 1969, 3ª edição.]

domingo, 23 de setembro de 2007

el pasado

Babi, pra mim, rima com coragem, personalidade, beleza, inteligência. Rimas ocultas, independentes das palavras. Como o nome do seu blogue, tenho por ela uma estranha simpatia. Babi me fez um convite: responder a um meme ¹. Então, vamos lá.

1. Pegar o livro mais próximo.

Na minha mesa estavam 3 livros: São Bernardo, de Graciliano Ramos; Budapeste, de Chico Buarque e El pasado, de Alan Pauls. Como mal comecei os dois primeiros - li algo como umas 30, 40 páginas - escolhi o terceiro, El pasado, no qual estou mais adiantada.


Uma boa desculpa pra falar desse autor, do qual estou gostando muito. Nascido em 1959, na capital da Argentina, Alan Pauls foi professor de Teoria Literária na Universidade de Buenos Aires (UBA), fundador da revista Lecturas Críticas, subeditor do suplemento dominical de Página/12 e chefe de redação da revista Página/30, além de roteirista e crítico de cinema. Atualmente, ele escreve com o cinesta Hugo Santiago o roteiro de Buenos Aires no existe, filme sobre a passagem de Duchamp por Buenos Aires em 1918. Antes de El pasado - obra pela qual ganhou em 2003 o prestigioso prêmio Herralde para livros de ficção em língua espanhola e cuja tradução em português é atualmente um dos mais vendidos da editora Cosac Naify - publicou os romances El pudor del pornógrafo (1984), El coloquio (1990) e Wasabi (1994), este último lançado no Brasil pela editora Iluminuras. Escreveu ainda ensaios sobre Manuel Puig: La traición de Rita Hayworth (1988), Jorge Luís Borges: El factor Borges (2000) e Lino Palacio: La infancia de la risa (1994), entre outros.

Baseado em El pasado, estréia em 26/10 o filme dirigido por Hector Babenco, com Gael Garcia Bernal no papel de Rímini, o personagem principal. Mesmo que não fosse com o gato Gael, eu não perderia.


"Uma história de pós-amor", é assim que o autor classifica seu livro. A obra fala de um amor que morre e de pessoas que não conseguem suportar a perda, vivendo um "amor zumbi", termo que para o escritor poderia ser facilmente o nome de sua novela. Rímini é um tradutor que tenta firmar relações com outras mulheres após a separação de sua grande paixão Sofía, cuja sombra volta como um espectro para atormentar o protagonista. Ele se afoga em vícios para suportar a dor - vício em cocaína, em suas traduções, em masturbação e em Sofía. Ao tentar se livrar do passado, Rímini vai perdendo também o conhecimento das línguas que domina e se antes era um sedutor, torna-se dependente, tendo início uma série de metamorfoses, perdas, mortes e ressurreições. O clima muitas vezes é fantástico, como em muitas obras da tradição literária argentina.


2. Abrir na página 161 e postar a 5ª frase completa.

O livro é um calhamaço de 553 páginas, então, não houve impecilho para essa tarefa. Estou lendo no original, ao menos tentando. A 5ª frase da página 161 é esta:


"Rímini le tenía tanta confianza que, a pesar de que siempre había sido el médico de los dos, de él y de Sofía, la separación, que tanto había afectado a las cosas comunes, en este caso ni siquiera parecía haberla rozado."

O trecho refere-se ao médico homeopata que Rímini vai consultar, logo depois de ter descoberto e se assustado com uma alteração de cor em suas unhas dos dedões dos pés. Uma passagem do livro que começa cômica e se transforma em dramática. Essa, na minha opinião, uma das grandes sacadas do texto de Pauls: um romance tragicômico, como se tornam todas as grandes histórias de nossas vidas, depois que conseguimos vê-las com um certo distanciamento.

3. Não escolher o melhor livro nem a melhor frase.

Não escolhi o melhor livro, não. Bem pertinho de mim, numa pequena estante, estavam meus preferidos, como Crime e Castigo, de Dostoiévski e Dom Casmurro, do Machadão. Também não era a melhor frase do livro até o momento.

4. Repassar para 5 blogs...

É o tópico mais difícil de responder. Já é duro eu escolher o sabor do sorvete, toda vez que vou tomar um, imaginem 5 blogues. Bom, o convite vai para estes amigos:
Gabi, Oficina Operística
Ixra, Raio-X
Pete, Vermelho Carne
Thiago, Santa Ironia
Tiago, Deixis

5. O que está achando do livro

Como já disse, estou gostando muito. A prosa é rica, densa, com longos períodos, um labirinto de imagens, metáforas e uma profusão de referências literárias e cinematográficas, nem sempre muito óbvias: de Puig, Bioy Casares, Cortázar a Visconti e Truffaut. As personagens e situações, embora possam parecer estranhas, exageradas e até irreais, são ao mesmo tempo extremamente verossímeis. E tocantes, humanas. A questão da memória, que envolve toda a narrativa, sempre me fascinou. Ela remete também às obras de Proust e aos temas de Fellini - não é por acaso a escolha do nome Rímini, terra natal do cineasta italiano.
O livro é bom, muito bom, na minha opinião. Fico sempre com um pé atrás em relação aos
best-sellers. Talvez daqui pra frente eu perca esse preconceito.
R
esolvi ler no original para aprender mais o espanhol, achei que o livro teria uma linguagem mais fácil. O texto se revelou melhor e mais difícil que o esperado, estou apanhando um pouco. Mas em literatura, com o passar do tempo, acho que nos tornamos um tanto masoquistas: gostamos de apanhar do texto - um pouco, sem exageros, veja lá - e até sentimos prazer nisso.

¹ Felipe e Diego também me fizeram o gentil convite para o mesmo meme.

domingo, 12 de agosto de 2007

a literatura é importante?



Não há no cenário literário brasileiro dos últimos quarenta anos um nome mais significativo que o de Raduan Nassar. Com apenas dois livros, Lavoura Arcaica (1975) e Um Copo de Cólera (1978), Nassar arrebatou vários prêmios literários e ganhou o respeito da crítica como um escritor de importância comparável à de Guimarães Rosa, Rubem Fonseca e Clarice Lispector. Publicados também na França, Alemanha e Espanha, seus livros trazem elementos da literatura clássica mesclando a dramaticidade desta com os da tradição brasileira e universal. O texto de grande força e densidade poética cria imagens ora intimistas, ora impactantes, e essa característica, aliada à visão e direção talentosa de Luiz Fernando de Carvalho, talvez explique o sucesso que a adaptação de Lavoura Arcaica fez no cinema.

Lavoura Arcaica possui a característica comum a toda grande obra de arte: a de nunca se esgotar. Passados 32 anos de sua publicação é, sem dúvida, um clássico e comprova sua força, à medida que ao longo dos anos vem criando possibilidades múltiplas de análises e estudos. No seu sentido dramático, filia-se à grande tradição que deu origem a obras como Édipo Rei e Hamlet. Ao mergulhar nas profundezas do inconsciente, nos vãos escuros da família, extrapolando-os à civilização ou à não-civilização que a rodeia, o autor consegue, partindo de um plano rural e particular, atingir o universal.

A trajetória de Nassar como escritor, no entanto, foi meteórica. Em 1984, então com 48 anos, ele comprou a fazenda Lagoa do Sino, perto da cidade de Buri, a 250 quilômetros de São Paulo e passou a se dedicar ao cultivo de arroz, milho e feijão. Espantou a todos, logo em seguida, ao anunciar que iria parar de escrever. "Estou dando uma virada radical na minha vida e começo a me perguntar como é que pude entrar por esse cano da literatura. Minha cabeça fervilha com outras coisas, ando às voltas com agricultura e pecuária, procurando me enfronhar sobre tratores e implementos. Tudo isso que nada tem a ver com o pasto das idéias", declarou na época, em um de seus raros depoimentos. "Em termos estruturais, não considero o processo de invenção da literatura diferente do processo de invenção em outros campos da atividade humana. Já disse que qualquer indivíduo, a menos que seja bloqueado pelas condições de vida, é capaz de inventar, que inventar não é exclusivo de uns poucos", justificou em 1992. Alfinetou ainda os que lhe exigiam novas produções. "Não existem só os pedantes que se perdem num cipoal de palavras para dizer ninharias, existem também orelhas prolixas, sempre dispostas a ouvir as maiores lorotas."

Volta e meia nos deparamos com essa questão: a literatura é tão importante assim, como fazemos questão de alardear? As grandes obras são capazes de mudar vidas - mudou a minha, prometo que qualquer dia conto essa história -, mudar até a história de nações e muitos compartilham dessa opinião. Mas parece que alguns escritores acreditam que tão ou mais importante que a literatura é a vida real: criar bois, plantar milho, lutar em uma revolução. Escrever é um ato angustiante demais, ao qual poucos conseguem sobreviver? Ou seria tão banal quanto regar um jardim ou lavar pratos, que podemos simplesmente optar por não fazê-lo mais? Eu o vejo como uma paixão, que arrebata e consome. Como começa e por que termina, difícil explicar. Essa contradição é que faz da literatura um mistério insondável e fascinante.

Em 1997, a Companhia das Letras reuniu em um livro entitulado Menina a Caminho, cinco narrativas curtas que, com exceção de um texto inédito - Mãozinhas de Seda, produzido em 1996 -, foram todas escritas por Raduan Nassar nas décadas de 60 e 70. É desse livro que extraí o conto Aí Pelas Três da Tarde, bem diferente do estilo denso e dramático de Lavoura Arcaica. O conto sugere o escape do previsível, a recusa das situações confortáveis e asfixiadas pelo tédio.


AÍ PELAS TRÊS DA TARDE

Nesta sala atulhada de mesas, máquinas e papéis, onde invejáveis escreventes dividiram entre si o bom senso do mundo, aplicando-se em idéias claras apesar do ruído e do mormaço, seguros ao se pronunciarem sobre problemas que afligem o homem moderno (espécie da qual você, milenarmente cansado, talvez se sinta um tanto excluído), largue tudo de repente sob os olhares a sua volta, componha uma cara de louco quieto e perigoso, faça os gestos mais calmos quanto os tais escribas mais severos, dê um largo "ciao" ao trabalho do dia, assim como quem se despede da vida, e surpreenda pouco mais tarde, com sua presença em hora tão insólita, os que estiveram em casa ocupados na limpeza dos armários, que você não sabia antes como era conduzida. Convém não responder aos olhares interrogativos, deixando crescer, por instantes, a intensa expectativa que se instala. Mas não exagere na medida e suba sem demora ao quarto, libertando aí os pés das meias e dos sapatos, tirando a roupa do corpo como se retirasse a importância das coisas, pondo-se enfim em vestes mínimas, quem sabe até em pêlo, mas sem ferir o decoro (o seu decoro, está claro), e aceitando ao mesmo tempo, como boa verdade provisória, toda mudança de comportamento. Feito um banhista incerto, assome em seguida no trampolim do patamar e avance dois passos como se fosse beirar um salto, silenciando de vez, embaixo, o surto abafado dos comentários. Nada de grandes lances. Desça, sem pressa, degrau por degrau, sendo tolerante com o espanto (coitados!) dos pobres familiares, que cobrem a boca com a mão enquanto se comprimem ao pé da escada. Passe por eles calado, circule pela casa toda como se andasse numa praia deserta (mas sempre com a mesma cara de louco ainda não precipitado) e se achegue depois, com cuidado e ternura, junto à rede languidamente envergada entre plantas lá no terraço. Largue-se nela como quem se larga na vida, e vá ao fundo nesse mergulho: cerre as abas da rede sobre os olhos e, com um impulso do pé (já não importa em que apoio), goze a fantasia de se sentir embalado pelo mundo.

(in "Menina a Caminho", Companhia das Letras - São Paulo, 1997)

Leia também - se puder escapar do tédio - o conto Hoje de Madrugada, do mesmo livro: um relato contundente do fim de uma relação onde os gestos imaginados, os silêncios sugeridos, aquilo que não é dito, competem em densidade dramática com as palavras realmente ditas. É mágico. Torço para que Raduan Nassar volte a fazer literatura, entre as safras de milho do seu sítio.

[foto de Raduan: publicada em Cadernos de Literatura Brasileira, Instituto Moreira Salles, nº 2, setembro 1996]