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sábado, 30 de agosto de 2008


Saudade I


Como entender esta saudade,

ponta de faca, dor

que me faz companhia.

Pois se me distraio e foges,

busco-te sem sossego

até encontrar-te,

dor amiga e arredia,

num canto qualquer

do intocável sonho.


[dezembro, 2005]

quinta-feira, 19 de junho de 2008

parabéns, Chico











Chico compositor, Chico escritor, Chico jogador de futebol, Chico pai, Chico avô, Chico brasileiro, Chico homem, Chico menino.

Todos eles fazem aniversário hoje.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

chez toi


L'avion a tardé a décoller, il y avait des tempêtes de neige dans beaucoup d’aéroports européens et j'ai perdu la connexion à Paris; pour empirer, ils m'ont envoyé à Buenos Aires. Mais j'ai aimé arriver chez moi à minuit, après cette odyssée.

J'ai tourné la clé, tout était silencieux. Les rideaux étaient ouverts, une lumière dramatique rentrait par la fenêtre et dessinait des ombres étirées sur le plancher. J'ai avancé dans cette pénombre avec une sensation de paix que je n'essayais pas depuis longtemps. J'ai allumé la lampe de la salle, le répondeur automatique clignait, je n'ai pas voulu écouter les messages pour ne pas casser le sortilège de ce moment.

Tu dormais, j'ai entendu ta respiration profonde, mais dès que je suis rentrée dans la chambre, tu t'es réveillé. Je n’ai rien dit, tu es resté aussi en silence. C'était comme les tempêtes de neige: le vent soufflait dans nos oreilles sourdes et nous sommes restés congelés par quelques secondes qui nous ont semblé des heures.



[a partir de um parágrafo de Budapeste, de Chico Buarque]

quarta-feira, 16 de abril de 2008

histórias de sebos


Quem gosta de sebos sempre tem uma história pra contar. Raridades que encontrou, pechinchas que conseguiu ou perdeu, tipos estranhos que viu, uma amizade que fez, um amor que conheceu. Por falta de tempo, frequento pouco os sebos, bem menos do que desejaria. Talvez seja por isso que esta história, acontecida há alguns anos, tenha acontecido num ambiente virtual.

Nasci e sempre morei em São Paulo, mas em muitos endereços diferentes. Enfrentei várias mudanças, fiquei craque em embalar, encaixotar, etiquetar. Apesar dos meus cuidados, numa dessas mudanças, a transportadora perdeu uma caixa com livros: surreal, mas aconteceu. Nela estavam uns quinze livros de ficção científica: Asimov, Bradbury, Clarke, uma galáxia inteira de mundos maravilhosos visitados. E outros mais antigos, que eu com certeza não leria novamente, mas pelos quais guardava um carinho especial: Agatha Cristie, Jorge Amado, muitas HQ’s, uma parte boa da minha adolescência. Fiquei inconformada, em seguida desolada, mas o desespero veio quando, terminada a operação desencaixotamento, não achei o meu O Lobo da Estepe. Era o meu livro mais amigo e ao qual recorria, em alguns momentos difíceis: certas passagens me traziam conforto, uma calma interior, até. Substituí-lo revelou-se totalmente inviável, as edições mais novas eram muito diferentes da minha, perdida: outras capas, folhas de papel muito novo, letras que eu não reconhecia. Enfim, não se pareciam com o meu livro: eram como estranhos a dizer velhas frases conhecidas – um terrível deslocamento.

Enviei, então, um e-mail a um sebo virtual que trabalhava com edições raras: o responsável pelos pedidos me respondeu, muito atencioso. Ao explicar que teria de ser a edição da Civilização Brasileira, "aquela que tem na capa o desenho de um homem de costas, com orelhas de lobo", ele respondeu: "É a 3ª edição, de 69. Realmente, a capa é muito original." Na verdade, eu nem sabia a edição; pareceu-me errada a data, muito antiga (69?), mas, impressionada com a convicção do livreiro, acreditei. Trocamos vários e-mails, por mais de um mês. Ele parecia entender a minha angústia por ter perdido o livro. Solidário, disse que O lobo também era um dos seus preferidos; pediu que eu tivesse paciência, que iria achá-lo logo. Eu queria acreditar, e acreditava. Suas mensagens tinham um tom familiar, quase carinhoso. Na minha fantasia, sentia-o quase como um amigo; imaginava-o com roupas antiquadas e dono de uma história singular: alguém que recusou um emprego promissor numa multinacional para terminar um doutorado sobre lírica latina e que ganhava a vida caçando livros antigos para doentes em literatura. Lembrei daquele filme, Nunca te vi, sempre te amei, sobre um livreiro (Anthony Hopkins) que, por anos a fio, troca cartas com uma escritora (Anne Bancroft). Terrivelmente triste, o filme. Lembro ter derramado algumas lágrimas no final. Já havia perdido a esperança de que o livro seria encontrado, quando recebo um e-mail: “Encontramos o livro solicitado, O lobo da estepe, de Hermann Hesse. Por favor, confirme seu interesse e se ainda deseja que o enviemos. Atenciosamente...”. Frio, burocrático. Se ainda desejo o livro? Eu aguardava ansiosamente, sofrendo todo aquele tempo, ele não sabia? Sabia. Aquela mensagem era um rompimento, irremediável. Confirmei o pedido, fiz o depósito, recebi o livro em dois dias, encapado com papel manteiga, envolto em plástico bolha, dentro de uma caixa de papelão. Eficientíssimo.

Não falei mais com o insensível livreiro. O Lobo? Está sempre ao lado de minha mesa de trabalho, como um cachorro fiel. Nunca me decepcionou.


[foto: sebo Baratos da Ribeiro, Copacabana, RJ]

quarta-feira, 19 de março de 2008

o amanhã


Oito e dez da noite, saída do metrô, escada rolante à frente, uma multidão. Encaro os degraus da escada central, vazia, a perder de vista - e desisto. Estivesse de tênis, ao menos.

O movimento mecânico de subida causa uma sensação de câmera lenta, o tempo quase parado, cenário a passar por mim bem devagar. Um rosto que se aproxima, em sentido contrário, repentinamente familiar. Traços delicados, fones de ouvido, cabelos compridos - presos? Um olhar, fração de segundo - e passa. Não me viro: receio de estar certa. Desejo de voltar, a escada parece acelerar, de novo a multidão, catracas - passo? Lembro dos amigos, o cinema: sempre, sempre atrasada.

Penso então nos deuses a brincar outra vez comigo, devem estar rindo pra valer. E, pela primeira vez, tento enganá-los. Oculto meu sorriso e cruzo a Paulista a passos largos, como se desse modo alcançasse mais rápido o dia de amanhã.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

só uma saudade


Eles se abraçam, sentindo no peito do outro um tremor descompassado. Uma eternidade, uma vida, um minuto, um segundo, e novamente são dois: frente a frente, o branco imaculado da mesa a separá-los.

Tocam-se, mal se tocando; penetram-se em olhares; entendem-se tanto, mal se falando. Beijam-se em sonhos, deliram versos não-lidos, ouvem canções sem palavras, andam sob a chuva imaginária, molham-se das lágrimas invisíveis. Enfim, se calam, em até breves eternos.

Na saudade de todas as horas, ela pensa em Bentinho; ele, em Capitu.

sábado, 29 de dezembro de 2007

todos os meus ontens



Já falei neste blogue
sobre António Lobo Antunes - escritor português, nascido em 1942, 27 títulos publicados, traduzidos em 16 línguas, ganhador de vários prêmios literários, sendo o mais recente o Prêmio Camões de 2007. A exemplo de W. Faulkner e V. Woolf, desenvolve um tipo de narrativa entrecortada de lembranças, possuindo no entanto um estilo pessoal, inconfundível: ninguém escreve como Lobo Antunes. É, sem dúvida, o maior vulto do romance português recente.

Em Os cus de Judas, romance de 1979, o texto é denso, compulsivo, os longos períodos atravessam páginas, não nos deixando outra alternativa senão segui-los, também compulsivamente. Ao tratar das contradições e sentimentos dos personagens durante a Guerra de Angola - na qual esteve presente, servindo o exército português como médico, entre 1970 e 73 -, Lobo Antunes escreve sobre a impotência do ser humano diante da violência que nos deixa perplexos e retira da vida o próprio sentido.

Esse é o trecho de que mais gosto do livro. Descrições simultâneas, físicas ou de pensamentos; o passado misturado ao presente; os versos da canção Pequeña serenata diurna, de Silvio Rodríguez: múltiplos elementos que se contrapõem e criam um efeito de caleidoscópio, de grande riqueza lingüística e sensorial. Ninguém escreve como Lobo Antunes.


[...] durante a viagem a orquestra do navio tocava tangos mofentos para bodas de prata, embarquei a 6 de Janeiro e na noite do fim do ano tranquei-me no quarto de banho para chorar, um bolo-rei impossível de engulir entupia-me a garganta, empurrei-o a champanhe e ele tombou na barriga no som dos pedregulhos no poço do jardim do avô, plof!, provocando círculos concêntricos no lago da canja do jantar, o poço sob as árvores ao pé do muro para a estrada onde se ia fumar às escondidas, o caseiro tirou o chapéu e explicou respeitosamente a coçar a cabeça O que a gente precisa é que alguém tomar conta de nós o menino não acha?, e se vier alguém tomar conta de nós o que pensa você que começaria por fazer, levar-me para sua casa, levá-la para minha casa, lavar-nos os dentes, estender-nos na cama, e falar-nos em voz baixa até adormecermos, falar-nos de serenidade e alegria até adormecermos, falar-nos do primeiro de Maio de 74 que os políticos inquinavam já da massa folhada sem recheio dos seus dircursos veementes, mas onde crescia nas ruas uma irresistível fermentação de esperança, os ministros de Caetano borravam-se de medo na Madeira, os pides borravam-se de medo em Caxias, uma festa de labaredas vermelhas alastrava triunfalmente em Lisboa, quiero que me perdones los muertos de mi felicidad, los muertos de mi felicidad no cacimbo de Angola, seis meses de cacimbo enevoado e capim amarelo a arder ao longe, perdoe-me os mortos da minha felicidade quando lhe seguro na mão, quando meus joelhos apertam os seus, quando a minha boca vai tocar na sua e os olhos se fecham devagar como corolas nocturnas, todos os meus ontens se encontram presentes neste beijo, talvez que as múmias do bar se esfarelem como os vampiros à aproximação do dia num concerto de dobradiças que se quebram, todos os meus ontens, percebe?, O que a gente precisa, menino, garantia o caseiro, é que venha alguém cuidar de nós, [...]

[In Os cus de Judas, de António Lobo Antunes - Rio de Janeiro: Objetiva, 2003 - pág. 75 e 76]

domingo, 17 de junho de 2007

dor de amar

Ontem lia um poema do Vinícius que fala sobre a dor de amar. Ele termina assim:

"Tanto tempo faz
tens um outro amor, eu sei

mas nunca terás
a dor a mais
como eu te dei
porque a dor a mais
só na paixão
com que eu te amei."


Nunca pensei que fosse me acostumar a conviver com essa dor.
Às vezes me distraio e ela me abandona. Parece que me falta algo, vou ver: é ela. Trato logo de resgatá-la, para que eu sinta meu coração bater novamente.

(30/11/05)


[relendo e-mails antigos, só pra sentir meu coração bater novamente]