segunda-feira, 4 de maio de 2009

o futuro e as cidades

Esta semana conheci alguns blogues geniais. Como não sei ficar quieta quando gosto de algo, resolvi partilhar meu entusiasmo. Um deles é o Paleo-Future , que mostra futuros imaginados em épocas passadas. Muito interessantes os posts e engraçadíssimos, um melhor que o outro. A gravura abaixo é de 1910 e faz parte da coleção da Bibliothèque nationale de France (BnF). Ela cria um ambiente no ano 2000, quase um século à frente.



A ilustração me fez lembrar um 'desenho' que via na tevê quando criança, Os Jetsons, em que Jane, a Sra. Jetson, fazia sua toilette em segundos, ao passar por uma máquina que a penteava e maquiava. As parafernálias tecnológicas e o modo de vida que eram pura fantasia nos episódios de Os Jetsons hoje estão presentes em nosso cotidiano: os prédios inteligentes que atendem por comando de voz, o jornal eletrônico que o patrão do George lia no escritório, as esteiras rolantes nas áreas urbanas e lojas. George trabalhava o dia inteiro, apertando um só botão; muitos hoje chegam perto disso, só usando o mouse. Astro, o cachorro mimado da família, se exercitava na esteira; atualmente isso é comum em hotéis para cachorros, por falta de espaço ou para que o pet não fique parado em dias de chuva. Só nos faltam os carros voadores e a tal machine de toilette - esta, por sinal, iria me poupar muito tempo de manhã.

E o projeto de Oscar Niemeyer para o Museu de Arte Contemporânea de Niterói, não é a própria casa dos Jetsons?





Voltando aos blogues, outro muito bacana é o New York Daily Photo, que apresenta lugares sensacionais de NY, alguns já conhecidos; outros, típicos, mas escondidos no meio da infinidade de opções da grande metrópole. Foi lá que fiquei sabendo que a Vesuvio Bakery, tradicional café e loja de pães do bairro do Soho, foi fechada, infelizmente, em fevereiro deste ano. Uma pena, mesmo. Esperava conhecê-la um dia. Quem sabe algum apaixonado por pães e pela cidade de NY resolva reabri-la, mantendo a fachada verde, o toldo azul e a linda vitrine com letras douradas.



Já pensei muitas vezes em criar um blogue similar¹ sobre a cidade de São Paulo, que também reúne locais comerciais fantásticos: bares tradicionais, pequenos restaurantes, livrarias e sebos, hiperlojas onde se acha de tudo ou lojinhas escondidas onde descobrimos coisas que se tornam instantaneamente imprescindíveis. Eu só precisaria de tempo. Ou de um patrocinador. Alguém interessado?


¹ Com tantos blogues atualmente pela web, é mais provável que esse blogue sobre São Paulo já exista. Se conhecerem, linquem aí, s'il vous plaît.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

eterno fascínio

[Marlon Brando [1949]


Atualmente leio muito na internet: pesquisando e me atualizando em sites de jornais, revistas e blogues, estudando, conhecendo as novidades de música, cinema, literatura e uma infinidade de assuntos. Enfim, como quase todo mundo. Ou não? Acho que a discussão sobre leitura em papel versus leitura digital um dia será bobagem, todos lerão muito em telas, sejam elas grandes, minúsculas, portáteis ou não, mas o contato com os livros continuará sendo insubstituível.

Um dos blogues mais bonitos e interessantes que conheci recentemente foi este,
O silêncio dos livros, que tem tudo a ver com as obras publicadas em papel. Curioso que nele o texto praticamente inexiste: são as imagens que dizem tudo.

Edward Hopper - Compartment C, Car 193 [1938]


Truffaut [1978]


sexta-feira, 10 de abril de 2009

relato de uma ausência



Após muitas brigas, tentativas pacientes de reconciliação e finalmente a constatação de uma relação por demais desgastada, troquei meu provedor de internet, de Speedy pra Net. Como uma sina, o problema continua. Depois de uma lua-de-mel incrível de duas semanas, fiquei sem conexão por três dias. TRÊS DIAS! Para quem depende da rede como eu – para trabalhar, estudar, comunicar-se com parentes e amigos - é como ficar cego, surdo e mudo repentinamente, sem sequer um cão-guia ou um amigo a quem recorrer.


A Net dizia que era "um problema de ruído no code". Nem me atrevi a perguntar o que vem a ser um code ou como se faz para repará-lo. Ontem li que hackers causaram panes no sistema do Speedy. Será que a Net resolver parar, em solidariedade à concorrente? Seria um tipo de lock-out, talvez? E outra, parece que na minha região "o sinal é meio problemático". OK, eles não têm culpa, o problema é a região onde estou: quem mandou morar num bairro quase anônimo e não no Morumbi, Itaim, Jardins ou em outra região de "formadores de opinião"?


As novas tecnologias estão aí para facilitar tudo, ficamos maravilhados com o que elas nos proporcionam, é um mundo novo descoberto a cada dia. Talvez por isso, no momento em que essas tecnologias falham, o sentimento de frustração que toma conta de nós seja como a não-concretização de um encontro pelo qual esperamos com um prazer antecipado. A ausência chega a ser quase uma traição.


Traídos, contrariados, impotentes, nos recolhemos, voltamos às atividades e projetos esquecidos. Pensei em ler aquele livro que está de lado ou, quem sabe, dar um pulo pra conhecer aquela escola de yoga perto de casa. Lembrei de telefonar a um amigo com quem não converso há tempos. Tentei retomar o trabalho de Língua Francesa, mesmo sem sites de busca e dicionários on-line. Até revi um filme de que gosto muito: Lost in translation, com Bill Murray e Scarlett Johansson, e que tem tudo a ver com o sentimento de inadequação que eu estava sentindo.




Incrível, nem lembrava mais como era viver sem a web. Não foi de todo ruim, confesso. Acho até que eu estava precisando desse tempo, "desconectada".


Em tempo: a conexão voltou e, com certo remorso, lembrei que há muito não postava no blogue. Bem, aqui estou. O trabalho de Francês progrediu um pouco, li umas 50 páginas do novo livro do Chico, mas não deu tempo pra ir à aula de yoga. Fica para a próxima pane da internet.

segunda-feira, 16 de março de 2009

entre os muros



"Voltei a ter fé que há cinema sério a ser feito" - declarou Sean Penn, presidente do júri do último Festival de Cannes, ao entregar o ano passado a Palma de Ouro ao diretor Laurent Cantet e ao elenco do longa "Entre les murs", composto integralmente por atores não-profissionais. Vencedor também do prêmio Lumière de melhor filme (concedido pela imprensa internacional na França), indicado ao Oscar deste ano na categoria de melhor filme estrangeiro, sucesso estrondoso de público na França, "Entre os muros da escola" estreou esta semana nas principais capitais brasileiras e já é motivo de discussões por todos os cantos. O filme é muito bom, arrisco dizer um dos melhores dos últimos anos, daqueles obrigatórios, pelos quais não conseguimos passar incólumes.

Ele nos perturba principalmente por levantar questões que não são exclusivas da realidade francesa, por abrir perguntas para as quais não temos respostas e pelas quais nos sentimos também responsáveis, não importando se na posição de filhos, pais, estudantes ou educadores.

Mais que um microcosmo da multiplicidade racial da França relatando a inadequação dos imigrantes, os conflitos pelas diferenças étnicas e a busca de uma linguagem comum, o grande lance do filme de Cantet é mostrar como somos confrontados dentro de uma sociedade com questões como a autoridade, a tentativa e a dificuldade de viver numa democracia, a hierarquia e a disciplina, o lugar que cada um quer ocupar no grupo.



A meio caminho entre o documentário e a ficção – outra grande sacada do diretor -, o filme é baseado no livro homônimo de François Bégaudeau, recém-lançado no Brasil, em que ele relata suas experiências como professor. Nos papéis principais, estão o próprio Bégaudeau, no papel do professor-protagonista e vários adolescentes, até então não-atores, selecionados num workshop, em uma escola da periferia de Paris, e que representam papéis muitas vezes próximos de seu cotidiano. Cantet disse em uma entrevista que não os escolheu, pelo contrário: de um grupo inicial de cinquenta, vinte e cinco decidiram se envolver no processo e participar do filme. Conta também que deu espaço para improvisação, mas uma “improvisação dirigida” - eles falaram exatamente o que ele queria que eles falassem. “O filme parece um documentário, mas não é.”

A atuação de Bégaudeau é brilhante, os adolescentes estão incrivelmente espontâneos. Bégaudeau e Cantet passaram um ano ouvindo seus relatos e reencenando-os em meio aos relatos do professor. Uma espécie de criação coletiva. “Fazíamos isso em uma sala de aula, naquilo que acabou se tornando um ensaio para as filmagens”, relata o diretor. “Todos têm o mesmo nome no filme e na vida real, exceto François, que na tela quis mudar o sobrenome para Marin.”

Levantando questões humanas, éticas e políticas num universo escolar que poderia ser extrapolado - contradizendo o nome do filme - para fora dos muros, “Entre os muros da escola” consegue ser, numa dialética permanente, ora sério, ora cômico, alegre e logo em seguida, perturbador. Um filme excepcional, não deixe de ver.

Veja o trailer aqui.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

a cidade e os livros



Ler muita prosa nos deixa um tanto cerebrais, lotados de palavras, que começam a 'sair pelo ladrão': elas escapam pela boca, olhos e ouvidos, perdendo-se, soltas nas ruas. Aí, urgente se faz a poesia, que nos faz calar e sonhar, ao inundar tudo com suas imagens, cores e sons.

Estou lendo A cidade e os livros, um livro belíssimo, de Antonio Cícero.

Poesia é artigo de primeira necessidade, é coisa seríssima e é humor, é filosofia e é deboche, é drama e é vida - como ficar sem ela?


A CIDADE E OS LIVROS

O Rio parecia inesgotável
àquele adolescente que era eu.
Sozinho entrar no ônibus Castelo,
saltar no fim da linha, andar sem medo
no centro da cidade proibida,
em meio à multidão que nem notava
que eu nem lhe pertencia - e de repente,
anônimo entre anônimos, notar
eufórico que sim, que pertencia
a ela, e ela a mim -, entrar em becos,
travessas, avenidas, galerias,
cinemas, livrarias: Leonardo
da Vinci Larga Rex Central Colombo
Marrecas Íris Meio-Dia Cosmos
Alfândega Cruzeiro Carioca
Marrocos Passos Civilização
Cavé Saara São José Rosário
Passeio Público Ouvidor Padrão
Vitória Lavradio Cinelândia:
lugares que antes eu nem conhecia
abriam-se em esquinas infinitas
de ruas doravante prolongáveis
por todas as cidades que existiam.
Eu só sentiria algo semelhante
ao perceber que os livros dos adultos
também me interessavam: que em princípio
haviam sido escritos para mim
os livros todos. Hoje é diferente,
pois todas as cidades encolheram,
são previsíveis, dão claustrofobia
e até dariam tédio, se não fossem
os livros infinitos que contêm.

sábado, 17 de janeiro de 2009

um jovem de 80 anos


Comecei o ano atrasada, já estávamos no dia 11, e uma data acabou passando, sem que eu comentasse: os 80 anos de Tintim. Foi em 10 de janeiro de 1929 que a primeira prancha do cartunista belga Hergé (1907-1983) saiu no Le petit vintième, suplemento infantil do jornal Le vintième siècle. Nessa história, Tintim no país dos sovietes, o jovem repórter, acompanhado de seu cachorrinho Milu, em viagem a então União Soviética, é incumbido de escrever uma reportagem sobre o suposto lado mau do regime comunista. Era um início marcado pela ingenuidade no desenvolvimento do argumento, mas Hergé já revelava as qualidades que fariam dele um dos maiores nomes das HQ (ou BD, bandes dessinnées, em francês, e bandas desenhadas, no português de Portugal). Traduzidas em mais de 50 idiomas, com mais de 200 milhões de álbuns vendidos, as histórias de Tintim habitaram a infância de incontáveis leitores - e, para muitos, continuaram presentes também na vida adulta.

Depois da Rússia, retratada de forma crítica e parcial - como ele mesmo admitiu anos depois - pelo seu conhecimento ainda limitado em outras culturas, Hergé levaria o seu herói à África, aos Estados Unidos, à América do Sul, por toda a Europa e mesmo à Lua, 20 anos antes de Neil Armstrong. As acusações já feitas ao autor, como "racista", "defensor dos maus tratos aos animais", "politicamente incorreto", foram feitas por pessoas que não souberam ler e interpretar sua obra à luz da época e do contexto em que foram escritas. Algumas histórias são verdadeiros retratos instantâneos do pensamento ocidental vigente na época, o que as torna ainda mais interessantes. Se nos primeiros álbuns ainda dominava uma visão eurocêntrica e cheia de clichês sobre lugares exóticos como a África e o Egito, a partir de O lótus azul , Hergé passa a dedicar maior atenção na elaboração das histórias e na pesquisa sobre povos e lugares onde as aventuras de Tintim iriam acontecer. Durante a pesquisa extensiva que realizou para escrever esta história, Hergé foi influenciado pelos estilos ilustrativos de gravura chinesa e japonesa, o que é notável na paisagem marítima, similar aos trabalhos de Katsushika Hokusai e de Hiroshige.

O sucesso da aventuras do pequeno jornalista talvez não se deva somente ao protagonista em si, mas também ao ritmo dado pelo autor nas histórias, ao desenho extremamente detalhista das paisagens naturais, cidades, navios, automóveis e à variada galeria de personagens que cercavam Tintim que, em muitos momentos, acabava sendo colocado em segundo plano por seus companheiros, tornando-se uma espécie de coadjuvante das piadas e peripécias protagonizadas pelos demais. Essa estratégia da deslocar o foco das atenções para outros personagens não é exclusiva das HQ's ou da literatura: está presente no cinema e na tv - em séries americanas como Seinfeld - ou até mesmo nas novelas brasileiras. Além de enriquecer a narrativa, ela faz com que o interesse por esta seja multiplicada, ao criar vários microuniversos e possibilitar outras empatias. Quem não se apaixonou - assim como aconteceu com o impagável Kramer, de Seinfeld - pelo Capitão Haddock, que surge em O caranguejo das tenazes de ouro, com seu gênio irascível e seus impropérios, sua luta contra o álcool e suas pretensões de se tornar um lorde inglês? Ao lado dele, também surgem: o Professor Girassol, cientista que é uma versão surda de Mister Magoo; Bianca Castafiore, esfuziante cantora de ópera que é apaixonada por Haddock; os detetives gêmeos Dupont e Dupond, amigos trapalhões de Tintim, sátira aos policiais ingleses, e tantos outros.


Milu
, o fox-terrier branco, amigo inseparável de Tintim e meu personagem favorito, é um caso à parte: único interlocutor do herói nas primeiras histórias, tem às vezes características mais humanas que o próprio dono. Leal ao extremo, vivo e inteligente, salva-o inúmeras vezes da morte, mas sua curiosidade também o leva a se meter em enrascadas. Além disso, é guloso, paquerador e a exemplo do Capitão, gosta de beber uísque. Seu ponto fraco são as aranhas, pelas quais tem pavor. Milu frequentemente "fala" com o leitor por meio de seus pensamentos, mostrando um humor seco e realista, que contrasta com o idealismo de Tintim.


Com Tintim, Hergé (cujo nome verdadeiro era Georges Remi) construiu uma obra deslumbrante, tendo por principais vetores a aventura, a amizade, a lealdade e o sentido de justiça, contrapondo-os, com humor e leveza, aos "defeitos" tão humanos e adoráveis dos personagens.

Além dos inúmeros estudos sobre a obra de Hergé, eventos em vários países afirmam atualmente a importância e o crescente interesse por sua obra:

- em 2007 , a exposição no Centro Pompidou, em Paris, pelo centenário de nascimento de Hergé



- em abril de 2007, o desenho a guache que serviu de capa à primeira edição de Tintim na américa, datado de 1932, foi arrematado num leilão em Paris por 764 mil euros.



- a inauguração do Museu Hergé, marcada para 22 de maio de 2009, data do 101º aniversário do nascimento do pai de Tintin. Situado em Louvain-la-Neuve, na Bélgica, projeto do famoso arquiteto francês Christian de Portzamparc.


- o filme produzido por Steven Spielberg e Peter Jackson (de O senhor dos aneis), baseado no díptico O segredo da Licorne/O Tesouro de Rackham, o terrível, que tem estreia prevista para 2010, primeiro de uma trilogia, usando a mesma técnica de captura de movimentos que deu vida a Gollum em O Senhor dos Aneis.

- e no Brasil, a Companhia das Letras acaba de completar a republicação de todos os álbuns de Tintim - antes editados pela Record e que estavam esgotados - além de dois inéditos, todos traduzidos por Eduardo Brandão, prestigiado tradutor de Roberto Bolaño, Javier Marías e Orhan Pamuk.

Tintim é um assunto inesgotável. Para os tintinófilos como eu, deixo mais alguns links, bem bacanas:

- o site oficial de Tintim - tudo está lá: vídeos, entrevistas, jogos, notícias.
- l'Univers de Tintin - muitas curiosidades.
- Milu fait "plouf" - página do site anterior, com as diversas traduções para o "pluf" de Milu.
- documentário Tintin et moi - provavelmente o melhor documentário feito até hoje sobre a obra e a vida de Hergé; em 8 partes, no Youtube. [*]
- Les autos de Tintin - site com os desenhos e as fotos correspondentes dos muitos carros que aparecem nas histórias

Ah! Tintim, em francês, pronuncia-se 'Tantan"ou "Tantã", mas é claro que no Brasil ele não poderia ser chamado assim, não é?

[*] atualização em 18/05/2011: os vídeos foram tirados do ar, que pena!

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

aprendendo de ouvido


O Estadão publicou um belo artigo, do Roberto DaMatta, que vai abaixo, na íntegra. Tem a ver com educação, com cultura, trabalho, experiência e com as diferentes maneiras de como encaramos tudo isso em nossas vidas. E tem a ver também com rixas e teimosias.

O presidente não lê


Roberto DaMatta

Numa terra de cegos, quem tem um olho é rei. Num país de gente sedenta e carente de leitura, é desanimador e melancólico descobrir que o presidente da República, o sujeito mais importante e poderoso do sistema; a figura a quem devemos respeito e lealdade pelo cargo que ocupa; que representa não só um partido ou posição política e econômica, mas - como supremo magistrado da nação - a todos nós; o homem número 1 do País, não lê. Mais: em entrevista ao jornalista Mario Sergio Conti, para a revista Piauí, ele declara que, quando tenta fazê-lo, tem azia. Ademais, descobrimos que ele fez como o pior presidente que os americanos jamais tiveram, George W. Bush, pois dele veio a cópia de uma estrutura palaciana montada para evitar a leitura. Para um sujeito como eu, que vive para os livros e de livros, e que morreria sem livros; para quem a leitura tem sido um meio de dar sentido à vida e de lidar com o amor, com a perda, com o sucesso, com a raiva, o trabalho e com a morte, saber dessa antipatia à leitura é - digo-o sinceramente e com o coração na mão - chocante, inacreditável, triste, devastador.

Para quem tem na leitura não só uma fonte de informação e sabedoria, mas os motivos para viver, como é o caso dos professores, escritores, educadores, ensaístas, legisladores, pensadores e jornalistas; funcionários e intérpretes das normas legais, cujo trabalho consiste em aplicar regulamentos, decidindo a todo instante o que é correto; descobrir que o presidente não lê é uma bofetada na cara!

Vejam bem, há contradições triviais. O padre pecador, o ateu crédulo, o professor ignorante, o médico hipocondríaco, o economista pobre, o pastor malandro, o jornalista venal, o desembargador corrupto, o policial criminoso e o político sem caráter. Mas todos leem! Todos se informam por meio de amigos e auxiliares, mas não abandonam o contato direto com a fonte: esse foco indispensável ao conhecimento do mundo. Esse mundo feito de representações codificadas, de palavras e algarismos articulados numa determinada intenção e estrutura. Estivesse eu dizendo o que digo por meio de rimas, o efeito seria diferente. É por causa disso que eu não posso me conformar com um presidente que não lê.

O que saiu na revista deve ser um engano. Estou seguro que o presidente lê. Lula estava simplesmente brincando com o entrevistador. Ressentido ou ofendido com alguns jornais e revistas, o presidente usou o manto da ironia e resolveu chocar o estabelecimento jornalístico, dizendo que não lê. Não posso acreditar que o servidor público mais importante do meu país, apreenda o mundo apenas por meio do ouvido. Sendo instruído e informado sobre os eventos e idéias deste nosso mundo conturbado somente por meio de conversas permeadas pelo ponto de vista e emoções dos seus interlocutores. Não posso crer que o presidente se contente em apenas ouvir o canto do galo, sem jamais vê-lo em pessoa. Que ele não tenha nenhum momento a sós consigo mesmo, no qual - com um texto na frente dos olhos - coloque para dentro de seu ser, por meio da leitura solitária e individualizadora, aquilo que o autor da narrativa explicita, revela, ensina, critica, pede, descobre, interpreta, anuncia, reitera, louva, interroga, suspeita, ou condena.

Quando o presidente diz que não lê, ele envia uma poderosa mensagem à sociedade que o elegeu. No fundo, ele diz que o discernimento pode ser alcançado por vias externas. Os laços sociais substituem a experiência da leitura que usualmente vai dos jornais e revistas para os livros. O que impressiona não é apenas o fato do homem não ler. É o fato dele estar seguro de que é mesmo possível saber das coisas por tabela e em segunda mão, por meio de olhos alheios. Sem a visão direta, interiorizada, individualizada e subjetiva dos fatos e problemas, porque eles podem ser assimilados por meio dos outros. E que ele não leva a sério a imprensa livre e contraditória que, como ele mesmo admite, foi decisiva na sua eleição.

A leitura vai muito além da informação. Ela mostra que os fatos são sempre inventados, relativos e determinados por perspectivas. Um mesmo "fato" pode produzir pontos de vista diversos, relativos a um mesmo dilema ou questão. Num mundo permeado por contradições, a leitura é um instrumento privilegiado para entendê-las e eventualmente superá-las.

Em estado de choque, penso na lição daquele Machado de Assis que - diga-se logo - não pode deixar de ser lido, quando ensinou que quem conta um conto aumenta (e necessariamente subtrai) um ponto. As versões pessoais, a apreensão marcante, sempre surgem da leitura em primeira mão. Como um sujeito que morreria sem os livros, como uma pessoa cuja profissão é ensinar a ler e que vive de leitores, eu sou obrigado a imaginar que essa entrevista é, no mínimo, um conto; e, no máximo, uma catastrófica notícia.


[Caderno 2, O Estado de São Paulo, 14/01/2009]