terça-feira, 12 de junho de 2007

impotência

O que se faz quando, ao chegar em casa, dois rapazes tiram você do carro à força e somem com o seu amigo de quatro rodas, em menos de um minuto?

Nada. Não dá pra fazer nada.

O pior de tudo, depois de passar 2 horas ao telefone bloqueando cartões, celular, falando com o seguro, o banco e o diabo a quatro... é ter de agradecer por ser isso o que aconteceu. É neste mundo que vivemos.

Lembrei de um poema do Ferreira Gullar:

No mundo há muitas armadilhas
e o que é armadilha pode ser refúgio
e o que é refúgio pode ser armadilha
[...]
A vida é pouca
a vida é louca
mas não há senão ela
E não te mataste, essa é a verdade

Estás preso à vida como numa jaula.
Estamos todos presos
nesta jaula que Gagárin foi o primeiro a ver
de fora e nos dizer: é azul.
E já o sabíamos, tanto
que não te mataste e não vais
te matar
e agüentarás até o fim.

O certo é que nesta jaula há os que têm
e os que não têm
há os que têm tanto que sozinhos poderiam
alimentar a cidade
e os que não têm nem para o almoço de hoje
[...]
Há muitas armadilhas no mundo e é preciso quebrá-las.

[Ah... o melhor que eu faço é voltar pro meu Dostoiévski!]

sábado, 2 de junho de 2007

papo na cozinha

















Dizem que a cozinha é o melhor lugar pra se conversar numa casa. Concordo, se ela for grande, ventilada, como nas casas antigas, e se o papo não atrapalhar a concentração do cozinheiro. Acontece que a maioria das construtoras ainda coloca a conversa na sala e nas cozinhas dos apartamentos atuais é difícil ter espaço pra mais de duas pessoas. Mas existe lugar melhor pra falar mal da vida alheia, do governo ou do ex que uma cozinha bagunçada, com os vapores de uma feijoada ou uma moqueca borbulhando no fogão, enquanto se corta o limão da terceira caipirinha?

Eu adoro cozinhar, mas não tenho tido muito tempo pra isso. O pessoal de casa e os amigos tem me cobrado. Uma hora, a moqueca sai.

A grande questão quando se fala de moqueca é sempre o coentro. Um tempero que é um tipo de Cauby Peixoto: ou se ama, ou se odeia, não existe meio termo. A maioria dos verdadeiros paulistanos odeia coentro - não se sabe por que. Tanto que os restaurantes da cidade que servem esse prato não costumam exagerar, alguns até servem separado, cortadinho: coloca quem quer e não se fala mais nisso.

A minha moqueca é fácil de preparar. Nem me lembro de onde veio a receita. Provavelmente, como a maioria das receitas regionais que aprendi, saiu de algum livro e foi sendo modificada, depois de várias experimentações. E não vai coentro.
Primeiro, tempero o peixe com limão e pouco sal. Tem de ser um peixe de carne firme como o badejo, robalo ou cação, senão desmancha no cozimento; camarão e carne de caranguejo também ficam ótimos e neles só vai limão.
Depois faço o molho. Tiro a pele dos tomates, jogando em água fervente, até ela começar a se desprender, corto em quadradinhos, passando as sementes pela peneira. Cebola picada vai bastante, mas não vai alho, que não combina com peixe. Refogo a cebola em azeite de dendê, na mesma proporção do azeite de oliva, bem douradinho. Coloco os tomates e pimentões, que podem ser vermelhos e amarelos, cortados em rodelas. Reservo algumas rodelas pra cozinhar um pouco no final, sem desmanchar, elas enfeitam o prato. Tempero com sal, louro. Pra quem gosta de pimenta, como eu, pode usar da vermelha, fresca, bem cortadinha, quando for temperar o peixe, ou no final da preparação do molho. Quando o molho estiver bem apurado, coloco o peixe cortado em postas e deixo cozinhar coisa de 10, 15 minutos, é rápido. Se for colocar camarão, só no finalzinho, uns 3 minutos, senão ele endurece. Por último, com a moqueca borbulhando, coloco o leite de coco. Na hora de servir, jogo cheiro-verde bem picadinho por cima.

A quantidade dos ingredientes e o tempo do cozimento dependem do tamanho da moqueca: pra umas oito pessoas, eu calculo uns 2 quilos de peixe, 2 quilos de tomates, 6 pimentões e 2 garrafinhas de leite de coco. Na dúvida, sempre faço mais, porque a medida acaba sendo o meu olho ou a minha gula. E pra acompanhar, arroz branco e farofa de dendê amarelinha, que se faz refogando cebola picadinha no dendê e azeite de oliva, jogando depois a farinha de mandioca e misturando bem, sem deixar ficar seca.

A da foto, fumegando na panela de barro feita pelas paneleiras da comunidade de Goiabeiras, ES, ao lado da indefectível caipirinha e do camarãozinho frito, é uma inesquecível moqueca que comi em Vitória, no ano passado. Na receita capixaba não vai leite de coco nem dendê, diferença que é motivo de discussões homéricas entre baianos e capixabas. Eu não discuto, gosto das duas. O coentro da foto? Deixei de lado.

sexta-feira, 1 de junho de 2007

indignação













substantivo feminino
1 sentimento de cólera ou de desprezo experimentado diante de indignidade, injustiça, afronta; repulsa, revolta
2 Derivação: por extensão de sentido.
ira intensa; ódio, raiva

(fonte : Dicionário HOUAISS da Língua Portuguesa)

blue moon


Blue moon, you saw me standing alone
Without a dream in my heart
Without a love of my own

Blue moon, you know just what I was there for

You heard me saying a prayer for

Someone I really do care for
And then suddenly appeared before me
The only one my arms could ever hold
I heard somebody whisper please adore me
But when I looked that moon had turned to gold

Blue moon, now I'm no longer alone

Without a dream in my heart
Without a love of my own

(canção de Richard Rodgers & Lorenz Hart - 1934)

Hoje vi uma lua cheia escandalosa, de um brilho mágico, ao descer a Av. Morumbi: era a "Blue Moon", a segunda lua cheia do mês, fato que só acontece, em média, de dois em dois anos: a "lua azul". Li uma vez que o nome é, na verdade, impróprio, pois nenhuma alteração na costumeira coloração da lua e nem no luar ocorre de fato. Não importa, a magia existe - ficamos diferentes sob essa luz. Talvez por constatarmos a nossa pequenez, ao olhar algo que transcende nossa vida mesquinha, cotidiana. Ou simplesmente porque damos um tempo nela para tentar entender o mistério do universo e a beleza que existe nas coisas mais primitivas e simples, como uma linda lua cheia. Igual a essa, só em 2009, e nem sei se estarei por aqui para vê-la novamente. Mas hoje... eu a vi.

domingo, 27 de maio de 2007

Samurai malandro


















minhas 7 quedas

minha primeira queda
não abriu o pára-quedas

daí passei feito uma pedra
pra minha segunda queda

da segunda à terceira queda
foi um pulo que é uma seda

nisso uma quinta queda
pega a quarta e arremeda

na sexta continuei caindo
agora com licença
mais um abismo vem vindo

(de Paulo Leminski, em Caprichos e Relaxos)


Curitibano, nascido em 24 de agosto de 1944, neto de colonos poloneses, Paulo Leminski tinha orgulho de sua ascendência negra, por parte da mãe. No seminário, iniciou seus estudos de latim e grego, na década de 60 começa a estudar o japonês. Faixa-preta de judô, interessado na cultura oriental, fez de Haiku, livro de R. H. Blyth, em quatro volumes sobre o haicai japonês, o seu livro de cabeceira. Em 1963, conhece Haroldo de Campos e Décio Pignatari e estréia, no ano seguinte, com cinco poemas, na revista Invenção, espécie de porta-voz dos poetas concretos de São Paulo. Leminski tinha prazer pela polêmica, traço que, aliado ao humor de seus poemas, de certo modo aproximava sua personalidade à de Oswald de Andrade. Curtiu todos os aspectos sadiamente - ou não - irresponsáveis de sua geração, abandonou o curso de Direito no segundo ano e o de Letras, no primeiro, várias vezes. Morou em comunidades e sobreviveu como professor de cursinhos pré-vestibulares em Curitiba, lecionando Redação e História.

Na década de 70, trabalhava em agências de publicidade, editava e colaborava com revistas independentes, escrevia em jornais. Seu livro Catatau chama a atenção dos tropicalistas Caetano, Gil , Tom Zé e do novo baiano Moraes Moreira. Sua casa em Curitiba, onde morava com Alice Ruiz, também poeta, passa a ser freqüentada por eles e também por Gláuber Rocha, Jorge Mautner. Surgem parcerias musicais e na década de 80, Caetano grava "Verdura", com letra de Leminski; outras canções suas também aparecem em álbuns de Moraes Moreira e do grupo A Cor do Som.
1983 é o ano em que o mercado editorial finalmente lhe abre as portas: no mesmo ano, a editora Brasiliense publica três dos seus livros - os ensaios Cruz e Souza - O Negro Branco e Bashô - A Lágrima do Peixe, além do livro de poemas Caprichos e Relaxos, que estourou, vendeu muito, esgotando seguidas edições. Ao lado do sucesso de público, a crítica mais atenta confirmou o talento do autor.
Este livro, embora não deixe de ter poemas típicos da poesia marginal da década de 70, em que predominam a paródia e o non-sense, se afasta dela, na medida em que seus poemas sugerem uma transcendência histórica, o que não acontecia com a maior parte dos autores ditos "marginais", mais preocupados em tematizar o período histórico em que viviam. Outro diferencial é o cuidado artesanal com a linguagem, o uso da rima no final dos versos, que foi sendo deixado de lado desde o modernismo e que Leminski nunca deixou de utilizar em toda a sua obra.
Caprichos e Relaxos tem também poemas de forte influência concretista, além dos haicais, forma que atravessa toda a sua obra e que foram apresentados pela primeira vez nesse livro. Poeta, tradutor, rebelde, professor, jornalista, malandro e samurai, Leminski trata a palavra como um elemento lúdico, combinatório, armando jogos de sons e imagens. Nas palavras da Profª Leyla Perrone Moisés: "Leminski ganha a aposta do poema, ora por um golpe de espada, ora por um jogo de cintura. Tão rápido que nos pega de surpresa; quando menos se espera, o poema já está ali. E então o golpe ou a ginga que o produziu parece tão simples que é quase um desaforo. "

*as informações biográficas do texto foram retiradas do prefácio "Labirinto sem Limites", de Fred Góes e Álvaro Martins, para a antologia Melhores poemas de Paulo Leminski, São Paulo: Global, 2002.

Minha relação com Leminski é de paixão e, como toda paixão, exagerada, um tanto irracional.
Mas como ficar incólume ao ler versos que nos pegam... como esses:

a noite
me pinga uma estrela no olho
e passa
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vídeos no YouTube, com aula e depoimentos de Paulo Leminski:

http://www.youtube.com/watch?v=O2Jf5RCyZYg&mode=related&search=
http://www.youtube.com/watch?v=T-iCzSsOZy4&mode=related&search=

sexta-feira, 25 de maio de 2007

pra começar...














Eu só acordo depois de um café. Dois, na verdade. E só começo a trabalhar depois do terceiro. Viciada... eu? Sim, mas somente em coisas essenciais. Como um café recém-tirado.

As pessoas, na minha opinião - se é que isto interessa a alguém - podem ser de dois tipos: as que gostam de café e as que ainda não gostam de café. É inevitável, faz parte do processo evolutivo do ser humano: tomar café.

Quando isto acontece, pode-se ouvir uma pessoa dizer, em encontros com amigos que estão no mesmo estágio de evolução - logo depois de comentar sobre diferentes grãos e blends com o jovem barista pelo qual ficou discretamente interessada: "e pensar que eu não gostava de café... não é curioso?"